A prisão da influenciadora e advogada Deolane Bezerra, realizada nesta quinta-feira (21), é resultado de uma investigação que começou há sete anos, após policiais penais encontrarem bilhetes rasgados escondidos no esgoto de uma cela da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.
A Operação Vérnix, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo em conjunto com o Ministério Público, apura um esquema milionário de lavagem de dinheiro supostamente ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital). Segundo os investigadores, a influenciadora teria recebido recursos provenientes de uma transportadora apontada como empresa de fachada da facção criminosa.
A ação desta quinta representa a segunda prisão de Deolane. Em 2024, ela já havia sido detida em Pernambuco durante investigação sobre jogos ilegais e lavagem de dinheiro.
Bilhetes encontrados em cela deram origem à investigação
O ponto de partida da apuração ocorreu em 23 de julho de 2019, quando agentes penitenciários realizaram uma revista na cela ocupada por Sharlon Praxedes da Silva, conhecido como “Maradona”, e Gilmar Pinheiro Feitoza, o “Cigano”. Durante a vistoria, os policiais localizaram uma série de manuscritos picados na caixa de esgoto da cela.
Após perícia técnica, os bilhetes revelaram informações consideradas estratégicas pela Polícia Civil. Os documentos apontavam negociações relacionadas ao tráfico de drogas dentro do sistema prisional, conexões com integrantes da cúpula do PCC e até planos de atentados contra agentes públicos.
Entre os nomes citados nos manuscritos estava o de Marco Willians Herbas Camacho, apontado como principal liderança da facção criminosa. Na época, ele dividia o mesmo pavilhão com Gilmar “Cigano” e, segundo a investigação, mantinha conversas frequentes durante o período de banho de sol.
Trecho sobre “mulher da transportadora” chamou atenção da polícia
Um dos bilhetes encontrados pelos investigadores se tornou peça-chave para o avanço do caso. O manuscrito mencionava que “aquela mulher da transportadora já entregou tudo certinho até o endereço novo do Bizzoto”, em referência ao ex-diretor do presídio Luiz Fernando Negrão Bizzoto.
A citação levantou suspeitas sobre a existência de uma empresa usada pela facção para monitorar agentes públicos e movimentar dinheiro ilícito. A partir dessa pista, os investigadores iniciaram uma nova etapa da apuração.
As diligências levaram à empresa Lopes Lemos Transportes Ltda, conhecida como “Lado a Lado Transportes”, instalada nas proximidades da penitenciária. Segundo a Polícia Civil, a transportadora seria utilizada para ocultar recursos provenientes do crime organizado.
Transportadora teria movimentado mais de R$ 20 milhões
As investigações identificaram que o casal Ciro Cesar Lemos e Elidiane Saldanha Lopes Lemos aparecia formalmente como proprietário da empresa. No entanto, segundo a polícia, o negócio era controlado por integrantes do PCC.
Relatórios financeiros apontam que a transportadora movimentou cerca de R$ 20,2 milhões entre 2015 e 2019. Os investigadores afirmam que houve incompatibilidade entre os valores declarados e a capacidade financeira dos envolvidos.
A polícia destacou ainda que Elidiane recebia benefícios do Bolsa Família no período em que a empresa ampliava sua frota e aumentava o capital social milionário.
Deolane teria recebido repasses da empresa investigada
De acordo com o relatório policial, Deolane Bezerra aparece como destinatária direta de recursos provenientes da transportadora investigada.
Os investigadores afirmam que a influenciadora mantinha movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda oficialmente declarada. A polícia também cita transações trianguladas e operações sem comprovação documental.
Um dos pontos destacados pela investigação envolve uma transferência superior a R$ 700 mil para um homem identificado como assalariado, sem justificativa financeira aparente.
Investigação aponta movimentação superior a R$ 140 milhões
Segundo o Laboratório de Tecnologia Contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD), uma rede financeira ligada à influenciadora movimentou mais de R$ 140 milhões em créditos e débitos entre julho de 2022 e maio de 2024.
Ainda conforme os investigadores, somente nas contas pessoais de Deolane teriam circulado mais de R$ 40 milhões, por meio de transferências bancárias, operações via Pix e aplicações financeiras.
A polícia afirma ainda que não conseguiu identificar os destinatários de aproximadamente R$ 27 milhões movimentados a partir das contas da influenciadora.
Ostentação nas redes sociais entrou na investigação
Os investigadores também utilizaram publicações feitas nas redes sociais como parte do conjunto probatório. Segundo o relatório, o padrão de vida ostentado por Deolane seria incompatível com os dados fiscais analisados.
Entre os bens mencionados estão veículos de luxo, como Lamborghini Huracán e McLaren, além de viagens internacionais e aeronaves.
Na decisão que autorizou a prisão, o juiz Deyvison Heberth dos Reis afirmou que a exposição pública de patrimônio elevado poderia ter sido utilizada para conferir aparência de legalidade à movimentação financeira investigada.
Deolane já havia sido presa em investigação sobre jogos ilegais
Em setembro de 2024, Deolane Bezerra foi presa durante a Operação Integration, conduzida pela Polícia Civil de Pernambuco.
Na ocasião, ela e a mãe, Solange Alves, foram investigadas por suposta participação em esquema de jogos ilegais e lavagem de dinheiro envolvendo empresas de eventos, publicidade e apostas.
As duas permaneceram presas por cerca de 20 dias, até que a Justiça revogou as prisões preventivas.
Até o momento, a defesa da influenciadora informou que irá se manifestar após ter acesso integral aos autos da investigação.
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