As recentes operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) nas terras agrícolas da Califórnia estão provocando um colapso silencioso, mas potencialmente devastador, na base da cadeia de produção de alimentos no país. Com medo de serem detidos e deportados, milhares de trabalhadores imigrantes, muitos em situação irregular, abandonaram os campos no auge da colheita, comprometendo plantações inteiras e ameaçando a oferta de frutas e verduras nas prateleiras dos supermercados.
A produtora rural Lisa Tate, que representa a sexta geração de uma família de fazendeiros no condado de Ventura, relatou à agência Reuters o impacto imediato das ações do ICE em sua propriedade. “Nos campos, eu diria que 70% dos trabalhadores foram embora. Se 70% da sua força de trabalho não aparecer, 70% da sua safra não será colhida e pode estragar em um dia”, alertou.
Localizado ao norte de Los Angeles, o condado de Ventura é um dos principais polos agrícolas da Califórnia, estado responsável por mais de um terço de todos os vegetais consumidos nos Estados Unidos e por mais de 75% das frutas e nozes. Em 2023, a agricultura da região movimentou quase US$ 60 bilhões.
Mas esse motor econômico agora está sob risco. Um supervisor de origem mexicana, que preferiu não se identificar, disse que normalmente coordena 300 trabalhadores na preparação de campos de morango, mas no dia da entrevista havia apenas 80. Em outra propriedade, um colega relatou que o número de funcionários caiu de 80 para apenas 17.
Falta de mão de obra pode encarecer alimentos
Economistas e políticos concordam que uma parcela expressiva da força de trabalho agrícola dos EUA é composta por imigrantes em situação irregular. A retirada repentina desse contingente ameaça não apenas os fazendeiros, mas toda a cadeia de suprimentos alimentares.
Douglas Holtz-Eakin, ex-diretor do Escritório de Orçamento do Congresso e integrante do Partido Republicano, estima que cerca de 80% dos trabalhadores do campo nos EUA são estrangeiros e quase metade está em situação irregular. Para ele, a perda desse contingente pode elevar os preços dos alimentos. “Isso é ruim para as cadeias de suprimentos, ruim para o setor agrícola”, afirmou.
Lisa Tate reforça o alerta: “A maioria dos fazendeiros daqui mal está conseguindo sobreviver”. Segundo ela, além do medo, há um vácuo de substituição. “A maioria dos norte-americanos não quer fazer o trabalho de colheita”, disse.
Vidas marcadas pelo medo
Entre os quatro trabalhadores ouvidos pela Reuters, dois estão em situação irregular e pediram anonimato. Um deles, de 54 anos, vive há três décadas nos EUA, tem esposa e filhos e relatou que muitos de seus colegas desapareceram dos campos. “Se eles aparecem para trabalhar, não sabem se voltarão a ver sua família”, contou.
O outro trabalhador descreveu a ansiedade crescente. “Nos preocupamos com o sol, o calor e, agora, com um problema muito maior: muitos não voltam para casa. Eu tento não me meter em problemas. Agora, quem for preso por qualquer motivo será deportado.”
Grupos comunitários que apoiam os trabalhadores rurais afirmam que, apesar do medo, muitos acabam voltando aos campos dias após as operações, por pura necessidade. Segundo essas organizações, os trabalhadores também estão adotando estratégias para reduzir sua exposição, como pegar carona com pessoas em situação legal e enviar filhos cidadãos estadunidenses para tarefas simples, como fazer compras.
Trump admite impacto, mas não muda política
As operações fazem parte da política migratória do ex-presidente Donald Trump, que voltou a intensificar ações contra imigrantes em setores como a agricultura e a hotelaria. Em uma rede social, Trump reconheceu que as batidas estavam “tirando trabalhadores muito bons e de longa data” e que estava “quase impossível substituir esses empregos”.
Depois, em declaração a jornalistas, disse: “Nossos fazendeiros estão sendo muito prejudicados. Eles têm trabalhadores muito bons. Eles não são cidadãos, mas acabaram se tornando ótimos.”
Trump prometeu editar uma ordem executiva para lidar com o impacto das operações migratórias sobre a agricultura, mas, até agora, nenhuma mudança oficial foi anunciada.
Enquanto isso, colheitas apodrecem sob o sol da Califórnia, e fazendeiros e trabalhadores seguem enfrentando um dilema que combina insegurança jurídica, crise econômica e colapso produtivo iminente.





