Há apenas duas semanas, balas traçantes cruzaram o céu do Morro da Cruz, uma das áreas de disputa por território do tráfico de drogas na Grande Tijuca, Zona Norte do Rio. Esse tipo de munição, de uso restrito das Forças Armadas, permite ao atirador visualizar a trajetória do projétil e corrigir a mira em tempo real em ambientes de baixa luminosidade. E simboliza a guerra urbana em meio aos confrontos entre as duas principais facções criminosas da capital fluminense.

Um morador do Andaraí, que optou pelo anonimato, relatou uma rotina de tiros e medo. “Quando eu era criança, ainda dava para brincar na rua. Hoje, a gente não sabe se vai conseguir voltar para casa. O medo faz parte da rotina. Tem criança crescendo ouvindo rajada de fuzil como se fosse normal”, compara.

A Agenda do Poder teve acesso aos dados do Mapa dos Grupos Armados do Rio, que identificou a presença predominante do Comando Vermelho (CV) e do Terceiro Comando Puro (TCP) em cinco bairros da Grande Tijuca. O levantamento foi feito em conjunto entre o Grupo de Novos Ilegalismos (Geni) da UFF e o Instituto Fogo Cruzado. Entre essas regiões, destaque para Tijuca e Andaraí, onde há a presença das duas facções, indicando a possibilidade de confrontos.

Bope faz operação no Morro do Andaraí / Crédito: Polícia Militar

A socióloga Carolina Grillo, uma das coordenadoras do relatório, relaciona a disputa entre as facções na região a uma maior facilidade para invadir esses territórios, sem a mesma estrutura geográfica dos morros apontados como QGs do crime. Segundo ela, essas ações são facilitadas por criminosos especializados em roubos a mão armada na Grande Tijuca.

“O conhecimento adquirido por pessoas que praticam roubo a mão armada na Tijuca é usado para pilotar ‘bondes’, que vão de um morro a outro. Esses criminosos conhecem os caminhos de acesso e auxiliam nessas dinâmicas de invasões entre facções rivais”.

Carolina Grillo, socióloga

A socióloga não descarta que a disputa entre as facções possa estar relacionada ao maior poder aquisitivo da região, considerada como uma das mais abastadas da Zona Norte do Rio. “É uma área de classe média alta, mais próxima da região central e com maior circulação de dinheiro. Mas com muitas favelas ao redor e com morros mais ‘penetráveis’, sem tantos recursos para oferecer resistência a essas invasões”, diz.

Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Bope, também cita esse perfil como atrativo ao domínio do tráfico local. “A Tijuca tem uma população no entorno com um certo poder aquisitivo, que pode ser alvo dessa exploração. Mas o comércio também precisa se submeter para sobreviver. O dono da padaria em frente ao Borel não vai deixar de pagar a taxa, porque senão vai ter que fechar o comércio”.

“O controle de territórios se tornou a principal fonte financeira das organizações criminosas. Uma economia pujante potencializa a possibilidade de recursos e fortalece a organização com um portfólio de serviços que acaba gerando grande rentabilidade. Isso inclui a exploração da venda de gás, cobrança por instalação de pontos de venda de internet, por taxa de luz e por venda de cigarros contrabandeados”.

Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Bope

Morro do Borel fica nas proximidades da Tijuca e Andaraí – Crédito: Reprodução

Terror e medo: o choque dos confrontos no asfalto

O sociólogo Ignácio Cano traça um paralelo entre a realidade das favelas e do asfalto ao citar a escalada de violência na Grande Tijuca. “Quando as disputas armadas chegam ao asfalto, isso gera um choque, porque são pessoas que não estão acostumadas a viver no meio do tiroteio”, diz.

Ele diz, ainda, que moradores de áreas periféricas estão acostumados a lidar com uma rotina de confrontos entre facções rivais ou operações policiais. “Essas pessoas se avisam entre si para saber se vão poder voltar ou se vão precisar ficar mais tempo no trabalho. Estão acostumadas com a interrupção do cotidiano, que envolve trabalho, estudo ou acesso a serviços médicos”, compara.

Carlos Nhanga, coordenador-regional do Instituto Fogo Cruzado. diz que as disputas são motivadas pelo plano de expansão do CV de dominar toda a região da Grande Tijuca. “É uma guerra anunciada. Mas não houve uma ação que de fato conseguisse frear essa expansão. São invasões que tocam o terror, impondo uma rotina de medo, traumas e violência para a população”.

Quem é o ‘veterano’ do CV que pode estar por trás da guerra

Isaías do Borel está foragido desde 2023 / Crédito: Disque Denúncia

A presença na região de um dos traficantes mais antigos e influentes do CV também é apontada por especialistas e fontes ligadas às forças de segurança como um dos fatores que ajudam a explicar a escalada da violência na região.

Isaías da Costa Rodrigues, o Isaías do Borel, tem 63 anos e se tornou conhecido pela atuação no crime organizado desde os anos 1980, segundo a polícia. Preso pela primeira vez em 2005, ele foi condenado a mais de 40 anos de prisão por crimes como tráfico de drogas e homicídio. Mas acabou sendo beneficiado pela prisão domiciliar em 2022.

No ano seguinte, se tornou foragido da Justiça por descumprir as regras do benefício e voltou a assumir o controle do CV na região da Tijuca, segundo fontes ligadas às forças de segurança.

No ano passado, Isaías do Borel foi flagrado por imagens de drone em meio a um grupo de traficantes armados com fuzis em uma área de mata na Tijuca. Uma fonte ligada à Polícia Militar infiltrada no grupo informou que Isaías confirmou que era ele quem aparecia nas imagens do grupo.

Morte de moradora e execução gravada

Rodrigo Rosa Brasil, o Boneco do Andaraí, morre em confronto em ação policial / Crédito: Polícia Militar

Um levantamento feito pela reportagem mapeou a escalada da violência nos últimos meses na região, que inclui a morte de uma moradora em meio ao fogo cruzado durante um confronto no Morro da Cruz, um assassinato gravado em plena luz do dia no Andaraí e até fiéis se escondendo de tiros em uma igreja.

Em setembro de 2025, moradores gravaram o assassinato de um homem em meio ao confronto. Outros dois homens se feriram. Entre eles, um rodoviário, atingido por um tiro no pé, como mostraram imagens nas redes sociais. Um vídeo registrou o momento em que fiéis na missa da Igreja de São Cosme e Damião se jogaram no chão para buscar proteção em meio a um tiroteio na guerra entre facções no Andaraí.

Daiana, de 37 anos, foi vítima de uma bala perdida no Andaraí — Foto: Reprodução / TV Globo

Em fevereiro deste ano, Daiana dos Santos Gonzaga, 37, foi morta a tiros enquanto seguia de mototáxi para um bloco de carnaval no Andaraí. No mês seguinte, Rodrigo Rosa Brasil, o Boneco do Andaraí, foi morto a tiros durante confronto com a Polícia Militar. Ele era apontado como líder do CV na região.

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