Axé Campeão: Beija-Flor exalta o Bembé e mira o bi na Sapucaí

A atual campeã do Carnaval carioca fez um desfile imponente, impecável nos quesitos e é forte candidata ao bi-campeonato

Guibsom Romão

Com o enredo Bembé, desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo e um dos sambas mais ouvidos do pré-carnaval, a Beija-Flor de Nilópolis levou à Marquês de Sapucaí a força ancestral do Bembé do Mercado, celebração nascida em Santo Amaro da Purificação como resposta direta à falsa liberdade pós-abolição. 

Criado por João de Obá, o Bembé, o maior candomblé ao ar livre do mundo, ressignificou o 13 de maio ao deslocar o foco da assinatura da Lei Áurea para o louvor aos orixás, especialmente Iemanjá e Oxum, transformando a data em rito coletivo de fé, memória e afirmação negra. 

Ao homenagear essa tradição reconhecida como Patrimônio Cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a Beija-Flor de Nilópolis dividiu o desfile em 6 setores e afirmou o carnaval como território legítimo da memória afro-brasileira, convertendo o desfile em oferenda simbólica: canto, corpo e arte entregues como gesto de reconhecimento, resistência e celebração da permanência do povo preto na cidade e na história.

A comissão de frente, coreografada por Jorge Teixeira e Saulo Finelon, chamada ‘Liberdade de Corpo e Alma’, em um ato simbólico, trouxe a travessia do povo negro como experiência de dor, fé e permanência. Em cena, homens do mar carregaram o barco que foi instrumento de sequestro na diáspora, mas que ali se ressignificou como oferenda, morada e caminho.

Ao remeter ao 13 de maio celebrado nas ruas de Santo Amaro, o quadro reafirmou que a liberdade não foi concessão, mas construção coletiva sustentada pela cultura e pela religiosidade afro-brasileira. A presença da Mãe das Águas, evocação direta de Iemanjá emergindo majestosa do mar, indicou que a ancestralidade nunca abandonou seu povo: guardou corpos, sonhos e destinos até que a liberdade pudesse se afirmar publicamente como rito contínuo de resistência. A apresentação foi exitosa em todos os três módulos de jurados.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira mais longevo da avenida, Claudinho Souza e Selminha Sorriso, 34 anos dançando juntos, 30 deles só na Beija-Flor, representaram ‘Os Ventos da Justiça de João de Obá’, em vermelho sagrado, o casal simbolizou o elo entre Iansã e Xangô, renovando na avenida o pacto ancestral do Bembé do Mercado e a oferenda às Rainhas das Águas. Com a característica dança clássica e tradicional do casal, os dois tiveram uma noite de gala diante do público presente na avenida.

No primeiro ano, após meio século, sem Neguinho da Beija-Flor no comando do microfone principal da escola, a nova dupla de intérpretes Nino do Milênio e Jéssica Martin conduziu o samba da agremiação com extrema entrega e profissionalismo. Neguinho da Beija-Flor veio extremamente emocionado à frente da escola.

Embalada com o título do carnaval de 2025, a Azul e Branco de Nilópolis abusou de azul em seu desfile e cantou forte. 

Logo no tripé de pede passagem ‘Nas Profundezas do Reino de Olokun’, a escola trouxe o ato de lançar oferendas ao mar, ritual característico do candomblé. Na alegoria, veio a atriz Giovanna Lancellotti. 

O carro abre-alas, todo branco, chamado ‘Ressoa no Couro do Axé FunFun’, reafirmou que nenhum ataque rompe o caminho do sagrado, sustentado pela paz, pela sabedoria e pela ordem divina. No ponto mais alto, estavam Oxalá e Oxaguiã, orixás que  firmaram a ponte entre céu e terra, consagrando a rua como extensão do terreiro e o espaço público como território legítimo de fé e resistência.

O acabamento primoroso e a concepção exuberante das fantasias foram um dos destaques do desfile impecável que a Beija-Flor apresentou, em especial nas alas ‘O Povo De Santo Que Abre A Maré’, na qual as componentes trouxeram um adjá, instrumento sonoro usado no candomblé, e a ala ‘Dentro Do Mar Tem Rio – Iemanjá E Oxum As Donas Do Presente’ dividida ao meio entre azul e amarelo, simbolizando a força de Iemanjá e Oxum no enredo.

Por fim, a Beija-Flor de Nilópolis reafirmou por que é referência quando o assunto é unir grandiosidade estética, rigor técnico e densidade histórica. Transformando o Bembé em rito carnavalesco de afirmação negra, a escola fez da avenida um grande terreiro a céu aberto, onde fé, memória e resistência caminharam juntas.

Com canto forte, evolução segura e acabamento primoroso, a Azul e Branco saiu da Sapucaí não apenas como atual campeã, mas como fortíssima candidata a escrever mais um capítulo vitorioso em sua trajetória.

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