Avanço do feminicídio coloca governo Lula sob pressão política

Recorde de assassinatos de mulheres expõe desafio para o Planalto enquanto Flávio Bolsonaro tenta capitalizar o tema no debate eleitoral

O aumento dos casos de feminicídio no Brasil tem ampliado a pressão sobre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que transformou o combate à violência contra as mulheres em uma das principais bandeiras sociais da atual gestão. Em meio à cobrança por resultados mais concretos, o tema também começa a ganhar peso no embate político e eleitoral, abrindo espaço para críticas de adversários e disputa pelo eleitorado feminino.

Dados recentes indicam que o país registrou um novo recorde de feminicídios em 2025. Foram 1.470 ocorrências ao longo do ano, uma média de quatro por dia. O número supera os 1.464 casos registrados em 2024, que até então representavam o maior patamar da série histórica.

Apesar da prioridade dada ao tema nos discursos do governo, os números colocam desafios adicionais para o Planalto, sobretudo em um contexto em que a segurança pública tende a ocupar posição central no debate eleitoral.

Aumento de casos amplia pressão

O avanço dos indicadores ocorre justamente no momento em que o governo federal tenta estruturar políticas de enfrentamento à violência contra mulheres em parceria com outros poderes. Embora iniciativas estejam em curso, parte delas ainda se encontra em fase inicial de implementação.

Neste ano, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, o Planalto optou por não realizar cerimônia oficial sobre o tema. O presidente fez um pronunciamento em cadeia nacional defendendo o fortalecimento das ações de combate ao feminicídio.

Paralelamente, o PT convocou manifestações em diversas cidades para marcar o 8 de março e discutir pautas ligadas à proteção das mulheres e a outras agendas sociais.

Operações e ações de segurança

Na sexta-feira (6), o Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou resultados de operações voltadas ao enfrentamento da violência contra mulheres. Segundo a pasta, uma força-tarefa realizada entre 9 de fevereiro e 5 de março levou à prisão de 5.238 pessoas suspeitas de crimes relacionados a esse tipo de violência.

As ações fazem parte de um pacto firmado entre Executivo, Legislativo e Judiciário para fortalecer políticas de prevenção e repressão aos crimes.

Entre as medidas previstas está um mutirão nacional para o cumprimento de cerca de mil mandados de prisão contra agressores. O governo também anunciou a implementação de monitoramento eletrônico para autores de violência cujas vítimas possuam medidas protetivas.

Além disso, o Ministério da Justiça prevê a criação de um centro integrado de dados para reunir informações e acompanhar casos de violência contra mulheres em todo o país.

Rede de proteção e políticas públicas

No campo social, o pacote de ações inclui a implantação de 52 unidades móveis de atendimento às vítimas, chamadas Salas Lilás itinerantes, além de articulações com secretarias estaduais para fortalecer delegacias especializadas no atendimento à mulher.

O Ministério das Mulheres anunciou ainda a abertura de quatro novas unidades da Casa da Mulher Brasileira ao longo de 2026 e a criação de centros de atendimento. Já o Ministério da Saúde prevê ampliar a oferta de atendimento psicológico, com até 4,7 milhões de consultas anuais destinadas a vítimas de violência.

No Congresso Nacional, o Senado destacou a ampliação da divulgação do canal “ZAP Delas”, voltado à escuta, acolhimento e orientação para mulheres em cargos públicos, candidatas e servidoras vítimas de violência política de gênero. A Câmara dos Deputados também deverá priorizar votações relacionadas ao tema.

O Conselho Nacional de Justiça informou que trabalha na elaboração de um diagnóstico nacional sobre as medidas protetivas de urgência concedidas a vítimas.

Pacto entre os três Poderes

O governo tem enfatizado o pacto lançado em fevereiro que reúne os três Poderes no enfrentamento da violência contra mulheres. A iniciativa contou com participação da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja.

Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, ela afirmou que a proposta busca fortalecer os instrumentos do Estado voltados à proteção das mulheres.

Segundo Janja, o combate ao feminicídio é uma pauta que ultrapassa divisões ideológicas e atinge mulheres de diferentes perfis políticos.

Durante a entrevista, a primeira-dama também reconheceu que os resultados das políticas estruturadas pelo pacto não serão imediatos. Ela afirmou que a iniciativa busca organizar e integrar ações já existentes e que mudanças culturais necessárias para enfrentar o problema tendem a ocorrer de forma gradual.

Tema entra no debate eleitoral

A discussão sobre segurança pública e violência contra mulheres também começa a ganhar espaço no cenário eleitoral. Tradicionalmente, a pauta da segurança é considerada um ponto sensível para partidos de esquerda.

Enquanto governistas buscam enfatizar ações de proteção às mulheres, adversários tendem a explorar os indicadores de criminalidade para criticar o governo federal.

O senador Flávio Bolsonaro já iniciou movimentos nessa direção. Em manifestação realizada na Avenida Paulista, em São Paulo, ele fez acenos ao eleitorado feminino ao afirmar que, em um eventual governo seu, as mulheres seriam “de verdade, abraçadas e protegidas, sem hipocrisia”. O senador também mencionou a atenção que pretende dar às mães solos e citou iniciativas adotadas durante a gestão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Aliados do parlamentar avaliam que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro pode desempenhar papel relevante no diálogo com o público feminino. Também circula entre apoiadores a defesa de que uma eventual chapa presidencial tenha uma mulher como candidata a vice, com menção ao nome da senadora Tereza Cristina.

Pressões políticas e críticas

Integrantes do governo minimizam os gestos políticos do senador e afirmam que o tema vem sendo utilizado com objetivos eleitorais. Um auxiliar de Lula afirma que o enfrentamento à violência contra mulheres é uma bandeira histórica da esquerda e ressalta a atenção que o presidente tem dado ao assunto.

Segundo esse interlocutor, a comparação entre as ações do atual governo e as do governo anterior deverá fazer parte do debate durante a campanha.

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência e o Ministério das Mulheres foram procurados para comentar metas e resultados das políticas voltadas à redução da violência contra mulheres, mas não houve resposta até o momento.

8 de março e cobrança por resultados

O Dia Internacional da Mulher amplia a cobrança pública por avanços concretos no enfrentamento da violência de gênero. Episódios recentes de grande repercussão, como o estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro, reacenderam o debate sobre falhas na prevenção e proteção às vítimas.

Mesmo com o destaque dado pelo governo à integração entre Executivo, Legislativo e Judiciário, governistas reconhecem que grande parte das medidas anunciadas ainda está em fase inicial de planejamento ou implementação.

Aliados também admitem que houve ruídos na condução política do tema nas últimas semanas. Em fevereiro, durante cerimônia no Planalto que marcou o lançamento do pacto nacional contra a violência à mulher, a ausência de discurso da ministra das Mulheres, Márcia Lopes, gerou críticas dentro e fora do governo.

Mobilização política e social

Neste cenário, o PT convocou mobilizações para o 8 de março em todos os estados. A secretária nacional de Mulheres do partido, Mazé Morais, afirma que a sigla pretende colocar o combate à violência contra mulheres no centro do debate político.

Ela defende a adoção de políticas públicas com recursos orçamentários e articulação entre União, estados e municípios.

Mazé Morais afirma que, além de ações institucionais, o enfrentamento do problema exige mudanças culturais profundas na sociedade e destaca a necessidade de enfrentar o que chamou de cultura de ódio.

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