Até o fim de setembro de 2024, o grupo Carrefour, líder no setor de varejo alimentar no Brasil, bloqueou 11 frigoríficos brasileiros por descumprimento de sua “política de compra responsável de carne bovina”. Essa política estabelece critérios rigorosos relacionados a questões ambientais e sociais, como desmatamento e conversão de vegetação nativa, condições de trabalho análogas à escravidão ou infantil, embargos ambientais, e invasões de terras indígenas, quilombolas ou áreas de conservação.
À época, o Carrefour contava com 18 fornecedores de carne bovina, entre eles grandes nomes como JBS, Masterboi, Marfrig e Minerva. No entanto, a decisão da matriz do Carrefour de interromper a compra de carnes provenientes do Mercosul para suas lojas na França gerou repercussões. JBS e Masterboi, dois dos principais fornecedores, optaram por boicotar o Carrefour em resposta à postura adotada pela rede.
A empresa não revelou quais frigoríficos foram bloqueados, mas os dados estão disponíveis no relatório financeiro do terceiro trimestre de 2024. O documento também direciona para a “Plataforma de Transparência Carne”, onde a empresa compartilha informações relacionadas às suas práticas e controles na cadeia de fornecimento de carne bovina.
Na Europa, a agricultura emprega cerca de 8,7 milhões de pessoas, superando ligeiramente o setor de atacado e varejo que comercializa seus produtos, responsável por 8,4 milhões de trabalhadores. Contudo, ao analisar o valor gerado por cada segmento na cadeia de alimentos, os papéis se invertem: os agricultores adicionam 173,9 bilhões de euros, enquanto os comerciantes contribuem com 293 bilhões.
Esses dados fazem parte de um relatório elaborado pela EuroCommerce, entidade que representa os interesses dos supermercados europeus. Recentemente, a organização aderiu a um abaixo-assinado assinado por 78 federações, pedindo a rápida aprovação do acordo entre a União Europeia e o Mercosul. O principal argumento é que o tratado poderia ajudar a reduzir os impactos da instabilidade geopolítica e das interrupções nas cadeias de suprimentos globais.
Entre os membros da EuroCommerce está a FDC, entidade patronal dos supermercados franceses, presidida por Alexandre Bompard. Curiosamente, no mesmo dia em que o abaixo-assinado pró-Mercosul foi divulgado, Bompard, que também é CEO do grupo Carrefour, anunciou publicamente que sua rede deixaria de comprar carne proveniente dos países do Mercosul.
Essa postura aparentemente contraditória gerou questionamentos sobre as motivações do executivo. Bompard divulgou a decisão por meio de uma carta endereçada ao principal líder sindical dos agricultores franceses, afirmando que o Carrefour interromperia a aquisição de carne bovina e suína da América do Sul. Além disso, conclamou bares e restaurantes a aderirem à campanha. A atitude, marcada por um tom político, reforça a percepção de descompasso entre o apoio institucional ao acordo Mercosul-UE e ações específicas de grandes empresas do setor.
Diferentemente do supermercado, que compra 97% da carne que comercializa no mercado interno, o setor de refeições, responsável por um terço do consumo francês, importa 60%. Bompard fez ainda uma breve menção ao padrão do produto vindo do Mercosul, que não seguiria as mesmas “exigências e normas” exigidas dos europeus.
O trecho, que virou “qualidade sanitária” na fala de Carlos Fávaro, ministro da agricultura, deixa pouca margem de manobra para o grupo francês, que obtém mais de um quinto de seu faturamento no Brasil.
Agricultura na Europa é terreno normalmente minado. Os fortes subsídios à atividade têm razões históricas, econômicas e sociais. No último fim de semana, em Berlim, uma faixa alertava durante manifestação de fazendeiros, umas das muitas que ocorreram no continente nos últimos dias: “Não impeçam que nossos filhos também sejam agricultores”.
Bompard, 52, formado na renomada ENA (École Nationale d’Administration) e com passagens por grandes empresas francesas, como Canal Plus e Fnac, sabia o que estava fazendo quando condenou o Mercosul. O assunto é muito importante na política francesa, e a eloquência do ato se justifica quando se nota que o país pode virar voto vencido na disputa.
A Comissão Europeia discute dividir a análise do acordo com o Mercosul. Com apenas a parte comercial em jogo, a votação pode ser resolvida apenas no Parlamento europeu, onde a França parece estar em evidente minoria.
Com informações da Folha de S. Paulo.





