Ata do Copom: BC diz que manterá Selic em 15% por período ‘bastante prolongado’ para conter inflação

Banco Central aponta moderação da atividade e redução gradual das expectativas inflacionárias, mas afirma que juros seguirão altos até convergência à meta de 3%

O Banco Central reafirmou que pretende manter a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano por um período “bastante prolongado” para assegurar que a inflação retorne à meta de 3%. A posição foi divulgada nesta terça-feira (11) na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que reforça o compromisso da instituição com a estabilidade de preços, mesmo diante de pressões políticas por cortes nos juros.

Segundo o documento, o BC reconhece uma “moderação gradual da atividade econômica”, acompanhada de “certa diminuição da inflação corrente e alguma redução nas expectativas de inflação”, mas avalia que ainda é cedo para iniciar um ciclo de afrouxamento monetário.

“Na medida em que o cenário tem se delineado conforme esperado, o Comitê dá prosseguimento ao estágio em que opta por manter a taxa inalterada por período bastante prolongado, mas já com maior convicção de que a taxa corrente é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”, afirma o texto.

Juros seguem no maior patamar desde 2006

Na semana passada, o Copom decidiu manter a Selic em 15% pela terceira vez consecutiva. A taxa, que atingiu esse nível em junho, é a mais alta desde julho de 2006, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão já era amplamente esperada pelo mercado financeiro.

O BC destacou que “os vetores inflacionários seguem adversos”, citando a resiliência da atividade econômica, as pressões no mercado de trabalho e as expectativas ainda desancoradas. “Tal cenário prescreve uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado para assegurar a convergência da inflação à meta”, disse o colegiado.

Apesar de reconhecer sinais de arrefecimento da inflação, o Banco Central afirma que continuará vigilante e que “não hesitará em retomar o ciclo de alta se julgar apropriado”. No mercado, as apostas sobre o início de cortes de juros estão divididas entre janeiro e março.

Projeções indicam inflação acima da meta até 2026

O BC justifica a estratégia conservadora com base nas projeções de inflação, ainda acima da meta. No cenário que considera a Selic do Boletim Focus — de 15% no fim de 2025 e 12,25% no encerramento de 2026 —, a autoridade monetária prevê inflação de 4,6% em 2025 e de 3,6% em 2026.

No horizonte de convergência, agora fixado para o segundo trimestre de 2027, a expectativa é de 3,3%, ligeiramente abaixo da projeção anterior de 3,4%. As estimativas, porém, seguem superiores ao centro da meta, o que reforça a decisão de manter juros altos por mais tempo.

O Copom informou que as projeções já incorporam o impacto preliminar da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, aprovada pelo Congresso, mas reconhece que os efeitos da medida ainda são incertos.

O documento também aponta que as contas de luz devem permanecer com bandeira amarela até o fim de 2025, revertendo a expectativa anterior de bandeira verde — o que deve pressionar o custo de vida.

Inflação mostra melhora, mas serviços ainda resistem

A ata do Copom indica que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apresentou uma dinâmica mais favorável que a esperada no início do ano, graças ao câmbio mais apreciado e à queda nos preços de commodities e alimentos. Ainda assim, o setor de serviços, mais sensível ao mercado de trabalho, continua demonstrando resistência.

“Mantém-se a interpretação de uma inflação pressionada pela demanda e que requer uma política monetária contracionista por um período bastante prolongado”, concluiu o colegiado.

Pressão política por cortes aumenta

A manutenção prolongada dos juros tem elevado as críticas de integrantes do governo. O presidente Lula e ministros como Gleisi Hoffmann e Fernando Haddad vêm defendendo a necessidade de cortes para impulsionar o crescimento.

Na semana passada, Gleisi voltou a criticar publicamente o BC, enquanto Lula afirmou que a autoridade monetária “vai precisar começar a baixar os juros”. Haddad, no entanto, adotou um tom mais conciliador e defendeu o trabalho de Gabriel Galípolo, atual presidente do BC.

“Eu tenho uma proximidade muito grande com o Gabriel, foi indicado por mim para diretor do BC, e acredito que está fazendo um bom trabalho no BC, do ponto de vista de uma série de procedimentos que estão sendo adotados pelo BC para coibir uma série de abusos do sistema financeiro, que na verdade ele herdou. Eu falo especificamente da regulação de fintechs que está sendo feita pelo BC, a mudança de crédito imobiliário”, afirmou Haddad em entrevista à CNN.

Enquanto o governo cobra mais flexibilidade, o Banco Central reforça que a política monetária seguirá “dependente dos dados” e que não antecipa mudanças até ter segurança de que a inflação convergirá de forma sustentável para a meta.

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