Em plena Praia do Flamengo, ergue-se um palacete tão único e original que se recusa a ser definido por um único estilo arquitetônico. Inaugurado em 1918 como lar do comendador Joaquim da Silva Cardoso e sua esposa Carolina, foi concebido pelo italiano Gino Coppedè, conhecido por criar projetos com forte carga eclética e ornamental, misturando art nouveau, medieval, barroco e até elementos fantásticos em uma espécie de “arquitetura cenográfica”. É um verdadeiro patchwork estilosíssimo de nomenclaturas chiques, com direito a paisagem da Avenida Beira-Mar, que faz pensar se, na dúvida, o arquiteto não cometeu todos os estilos de uma vez?  

Com o passar das décadas, o Castelinho do Flamengo virou cenário de festas, disputas jurídicas e alvo de invasões. Quase alvo de demolição, a construção se manteve por uma trégua arquitetônica: tombado em 1983 após esforços heroicos do escritor Pedro Nava e do prefeito Júlio Coutinho. Poucos anos depois, ressurgiu das cinzas como Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho, com videoteca, auditório e salas diversas; um verdadeiro milagre do bom senso carioca.

E como todo bom casarão antigo, o Castelinho conquistou sua notoriedade sobrenatural: dizem que Maria de Lourdes, a herdeira do comendador que morrera vítima de um atropelamento, foi trancada e maltratada por um tutor miserável, até supostamente cometer suicídio na torre. Uma Cinderela sem final feliz.

O Castelinho do Flamengo é um monumento à exuberância arquitetônica e à resiliência cultural. Sobreviveu à ganância imobiliária, ao abandono, a lendas macabras, invasões e uma carreira meteórica de “quase demolido, volte à vida como centro cultural”. Hoje, ergue-se não como mero esqueleto do passado, mas como um dispositivo vivo, com livros, filmes, arte e, quem sabe, alguma presença espectral bem-intencionada.

Fachada do Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho, conhecido como Castelinho do Flamengo | Crédito: Reprodução

História

Este mágico mashup cultural saiu da mente do arquiteto italiano Gino Coppedè em 1916, que nem precisou tirar o ragu da mesa para enviar as plantas ao engenheiro brasileiro Francisco dos Santos, responsável por colocá-las em prática até 1918.

Coppedè  era um arquiteto e cenógrafo italiano conhecido por seu estilo eclético e fantasioso, que misturava art nouveau, barroco, medievalismo e referências renascentistas como se fossem cenários de ópera.

O palacete foi erguido como residência do empreendedor Comendador Joaquim da Silva Cardoso e sua esposa Carolina — um casal que escolheu viver em um castelo moderninho enquanto, a elite da época salpicava palacetes seguindo as mais rígidas regras arquitetônicas europeias daquele tempo.

Hoje, sobraram raríssimos exemplos daqueles tempos, entre eles o Castelinho, a Casa Julieta de Serpa e a também atemorizante Casa dos Morcegos, na esquina com a Rua Oswaldo Cruz.

A arquitetura

Se você tem dificuldade de definir exatamente o que é art nouveau, neobarroco ou neogótico francês, não se preocupe porque o Castelinho tem todos.

Sua fachada exibe rostos femininos, cabeças de felinos e um portão de borboleta estilo art nouveau saído da mesma linha de produção da Torre Eiffel.

Por dentro, azulejos, vitrais, esculturas de anjos, escadaria de madeira exuberante, estuques, frisos e gradis com abelhas — um verdadeiro pot-pourri.

Por que tem fama de mal-assombrado?

A fama vem direto dos roteiros de filmes de terror urbano: Maria de Lourdes, uma das filhas do comendador, teria sido submetida a torturas por um tutor inescrupuloso, aprisionada na torre e cometido suicídio. Desde então, os boatos persistem: vizinhos relatam toques estranhos, estalos de madeira à noite e aparições fantasmas em corredores.

E de nada adianta os técnicos da Secretaria Municipal de Cultura argumentarem que eventuais barulhos podem ser explicados pela estrutura antiga e pelo uso intenso de madeira no edifício. Por que aceitar a lógica quando o inexplicável rende uma resenha mais bacana com os amigos?

A noite traz contornos sombrios ao imóvel | Crédito: Reprodução

Quando e por quanto tempo ficou fechado?

O Castelinho começou a declinar depois da morte dos proprietários originais, Joaquim da Silva Cardoso e Carolina Cardoso, em 1932. Como em qualquer boa novela de herança, abriu-se um inventário que se arrastou por cerca de dez anos, deixando o palacete fechado e em litígio até o início dos anos 1940.

Após décadas de disputas e herdeiros cada vez menos interessados, o local entrou em abandono profundo entre o fim dos anos 1960 e início dos 1970. Nesse período, moradores em situação de rua o invadiram, cenário que durou boa parte da década.

Em 1975, o imóvel foi oficialmente desapropriado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, e em 1982 a posse passou efetivamente para o município, que cogitou sua demolição. Felizmente, a pressão cultural, na forma de uma campanha liderada pelo escritor Pedro Nava, falou mais alto e o tombamento veio em 14 de novembro de 1983.

Quem foi Pedro Nava?

Foi médico reumatologista de prestígio, membro da Academia Brasileira de Letras e, sobretudo, o maior memorialista da literatura brasileira. Mineiro de Juiz de Fora, formou-se em medicina no Rio de Janeiro e dividiu sua vida entre a prática clínica e a escrita.

A partir da década de 1970, publicou uma série de volumes autobiográficos (Baú de Ossos, Balão Cativo, Chão de Ferro, entre outros) nos quais reconstruiu, com minúcia e ironia, a vida cultural, política e social do Brasil do século XX. Sua prosa combinava memória pessoal e retrato coletivo, transformando lembranças em testemunho histórico.

Além da literatura e da medicina, Nava militou pela preservação da memória urbana. No caso do Castelinho do Flamengo, tornou-se voz importante para que o imóvel não fosse demolido, articulando o tombamento que salvou o palacete.

De forma trágica, Pedro Nava tirou a própria vida em 1984, na Glória, Centro do Rio. Ainda assim, sua obra literária e seu papel na preservação da história arquitetônica o mantêm como figura incontornável da cultura brasileira.

O que funciona ali hoje?

Entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990, sob coordenação da prefeitura foram gastos cerca de U$ 1,2 milhão (na cotação atual, cerca de R$ 5,4 milhões) para restaurar seu interior e adaptá-lo como centro cultural, inaugurado em 1992. 

Hoje o Castelinho abriga o Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho, com videoteca (acervo entre 750 e 1.500 títulos, dependendo da fonte), cabines individuais, auditório Lumiére (40 lugares), várias salas de cursos e exposições, e até uma sala de leitura dramatizada no torreão.

Recentemente, ganhou a Galeria Angelo Venosa, inaugurada com uma exposição de Maxwell Alexandre na ala anexa.

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