Assessor de Braga Netto diz ter tido acesso à delação sigilosa de Mauro Cid

Informações da colaboração foram utilizadas para preparar defesa durante CPMI do 8 de janeiro

O coronel da reserva Flávio Peregrino, ex-assessor do general Walter Braga Netto, afirmou em uma troca de mensagens que teve acesso à delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid quando o conteúdo do acordo ainda era sigiloso. A declaração consta de um relatório da Polícia Federal (PF) enviado nesta quarta-feira ao Supremo Tribunal Federal (STF), revelando novos desdobramentos da investigação sobre a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

Segundo o documento da PF, o celular de Peregrino foi apreendido em dezembro de 2024, no mesmo dia em que Braga Netto foi preso preventivamente. Em uma conversa datada de 26 de novembro daquele ano — data da divulgação do relatório final da PF sobre os atos golpistas de 8 de janeiro — Peregrino menciona que já havia tido contato com o conteúdo da delação de Cid, e sugere que as informações teriam sido usadas como subsídio para a atuação de Braga Netto caso ele fosse convocado por comissões parlamentares de inquérito.

“Eu como assessor na campanha recebia muitos documentos que circulavam por diferentes pessoas e eram entregues como sugestão para as autoridades, no caso o General como vice. No caso da delação especificamente, acredito que alguém teve acesso e já me passou as informações. Creio que foi durante o período que estávamos tendo as CPMI do 8 de janeiro e de alguma forma estávamos preparando os argumentos e defesa, caso houvesse a convocação”, escreveu o coronel na mensagem reproduzida pela PF.

O interlocutor com quem Peregrino trocava mensagens não foi identificado no relatório. A revelação reforça a suspeita de que aliados próximos ao ex-presidente Jair Bolsonaro, incluindo o próprio Braga Netto, tiveram acesso antecipado e indevido a dados sigilosos de investigações conduzidas pela Polícia Federal.

A delação de Mauro Cid — ex-ajudante de ordens de Bolsonaro — é peça central nas apurações da PF sobre a articulação de uma trama golpista para manter o ex-presidente no poder, mesmo após a derrota nas urnas. O conteúdo do acordo de colaboração foi mantido sob sigilo por meses, sendo levantado apenas parcialmente com autorização do ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF.

A obtenção indevida das informações sigilosas levanta questionamentos sobre vazamentos e uso político de provas durante as investigações e os trabalhos das CPIs. A defesa de Braga Netto ainda não se manifestou sobre o relatório da PF.

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