As Tainhas e os Brejos

A metáfora entre os ecossistemas costeiros e as águas interiores serve para explicar como diferentes processos sociais e eleitorais seguem lógicas próprias, muitas vezes invisíveis aos observadores mais apressados.

* Paulo Baía

Os homens das baías conhecem certas verdades que raramente aparecem nos livros. Não porque sejam mais sábios do que os outros homens, mas porque aprenderam a conviver com os ritmos lentos da natureza e descobriram, ao longo dos anos, que as águas possuem memória. As luas alteram as marés, os ventos modificam as correntes e os peixes, como todas as criaturas, conservam uma antiga fidelidade aos mundos aos quais pertencem. Quem vive entre manguezais, enseadas e estuários sabe que o mar nem sempre é uma presença visível. Muitas vezes ele se anuncia apenas pelo cheiro do sal, pela mudança dos ventos ou pela respiração quase imperceptível das águas. Ainda assim, mesmo quando não é visto, continua presente.

As tainhas pertencem a essa geografia. Crescem nas águas costeiras, nos canais que se abrem para as baías, nos pântanos próximos ao oceano e nas terras alagadas que recebem a visita das marés. A sua existência está ligada a essa intimidade com o mar. Os cardumes podem variar, os ciclos podem mudar e os pescadores sabem que algumas temporadas são mais generosas do que outras. Mas ninguém se surpreende com a presença das tainhas, porque elas fazem parte daquela paisagem da mesma maneira que os caranguejos pertencem ao mangue e as garças às margens alagadas.

Os brejos do interior vivem outra experiência do tempo. Entre lagoas silenciosas, juncos, pequenos peixes, insetos e aves que conhecem os caminhos das águas doces, desenvolve-se uma vida própria, rica e discreta. São terras alagadas distantes das baías litorâneas, separadas do oceano por serras, planícies e longas extensões de terra. Não são lugares vazios. Não constituem uma negação das águas costeiras. Apenas obedecem a outros ritmos. Os homens das lagunas e das enseadas sabem disso. Nenhum pescador experimentado perderia tempo procurando tainhas em pântanos afastados do mar, não por desprezo às águas interiores, mas porque os seres vivos conservam uma admirável fidelidade aos seus habitats e porque a natureza, indiferente às expectativas humanas, raramente abandona os seus próprios desenhos.

Há uma humildade profunda nesse conhecimento. Antes de lançar as redes, convém compreender as correntes. Antes de procurar os peixes, é preciso conhecer as águas. Os homens das baías aprenderam essa lição muito antes dos laboratórios, das teorias e dos instrumentos mais refinados. Aprenderam observando os ciclos das luas, as mudanças dos ventos e os movimentos quase imperceptíveis das marés. Aprenderam, sobretudo, que a paciência é uma forma de respeito.

Também a vida social possui os seus habitats.

As disputas para presidente da República, governador e senador pertencem às grandes correntes visíveis da sociedade. Vivem expostas aos ventos da economia, às paixões coletivas, às crises políticas e às conversas que atravessam o país. Entram nas casas, ocupam os almoços de família, atravessam as redes sociais e os programas de televisão, produzem entusiasmos, rejeições e medos. Como as águas das baías, recebem continuamente a influência de forças maiores. Mesmo aqueles que pouco se interessam pela política acabam sendo alcançados por esses movimentos, porque eles fazem parte da superfície visível da vida coletiva.

As eleições para deputado federal e deputado estadual obedecem a outra natureza. Não se formam nas grandes ondas da vida nacional, mas nas correntes discretas que percorrem a existência cotidiana. Crescem nos movimentos sociais, nas relações comunitárias, nas associações profissionais, nas escolas de samba, nas festas religiosas, nos clubes esportivos, nas rodas de música, nas atividades recreativas, nos sindicatos, nas igrejas, nas amizades antigas e nas pequenas formas de convivência que, lentamente, produzem vínculos, memórias e sentimentos de pertencimento. A sua matéria-prima não é o impacto das tempestades, mas a persistência das relações humanas.

Por essa razão, mesmo quando faltam três ou quatro meses para as eleições de outubro, a maior parte dos brasileiros continua ocupada por outras urgências e outros afetos. O trabalho, os filhos, a saúde dos pais, o preço dos alimentos, as alegrias domésticas, as preocupações do cotidiano e as rotinas culturais e recreativas continuam ocupando o centro da vida comum. Apenas aqueles que vivem mais próximos das pré-candidaturas, familiares, amigos, lideranças locais, militantes e pequenos círculos politicamente organizados, acompanham intensamente movimentos que ainda não alcançaram a consciência da maioria dos eleitores. A sociedade, entretanto, sempre foi maior do que os seus grupos mais mobilizados.

Nasceu dessa tentativa humana de compreender os movimentos coletivos uma das mais elegantes realizações da inteligência: a estatística. Mas toda ciência carrega consigo uma exigência de modéstia. Os números observam tendências, registram regularidades e identificam movimentos. Não produzem os fenômenos que procuram compreender. Existem escolhas que amadurecem lentamente, sentimentos que permanecem dispersos durante longos períodos e decisões que só adquirem forma quando as circunstâncias, os vínculos e os acontecimentos lhes conferem direção.

É por isso que as urnas, tantas vezes, surpreendem os observadores mais apressados. A surpresa não nasce da irracionalidade dos homens nem da inutilidade dos números. Ela decorre do fato de que os fenômenos sociais não pertencem todos ao mesmo tempo e ao mesmo habitat. Alguns se formam sob a luz intensa das grandes correntes visíveis. Outros amadurecem lentamente, alimentados pelas delicadas arquiteturas da convivência humana, pelas solidariedades discretas, pelas identidades coletivas e pelos laços construídos ao longo dos anos.

Os homens das baías provavelmente jamais ouviram falar em sociologia. Desconhecem os modelos teóricos e os refinamentos metodológicos. Ainda assim, aprenderam algo que talvez merecesse maior atenção dos homens das cidades. Antes de lançar as redes, convém reconhecer a natureza das águas. Não porque exista oposição entre experiência e ciência, mas porque toda ciência começa por um gesto de humildade diante da realidade.

Ao cair da tarde, quando a maré retorna lentamente aos manguezais e o cheiro do sal volta a percorrer as enseadas, os velhos pescadores continuam observando as águas em silêncio. Sabem que as tainhas pertencem aos pântanos que respiram o oceano e que os brejos do interior, afastados das baías litorâneas e privados da visita das marés, abrigam outra vida, outros peixes e outros ritmos. Por isso, jamais lhes ocorreria procurar tainhas nas lagoas escondidas entre serras e planícies. E tampouco lhes passaria pela cabeça esperar encontrar, nos manguezais e nas enseadas visitadas pelo mar, os habitantes próprios das águas interiores.

Do mesmo modo, buscar nas grandes correntes visíveis da vida nacional os movimentos que lentamente dão forma às escolhas para deputado federal e deputado estadual é um exercício tão estéril quanto lançar redes em brejos afastados do oceano à espera das tainhas. As primeiras pertencem às marés que visitam diariamente as baías. As outras amadurecem nas águas profundas das relações humanas, nos vínculos de pertencimento, nas memórias compartilhadas e nas formas discretas de convivência que raramente se deixam capturar pela pressa.

E quando a noite finalmente desce sobre os mangues, enquanto as marés continuam o seu trabalho silencioso e os brejos do interior permanecem fiéis aos seus próprios mistérios, as tainhas seguem os caminhos antigos que aprenderam com o oceano. Elas nunca se perderam nas águas distantes do mar. E os velhos pescadores, que há muito conhecem os caprichos dos ventos e das correntes, continuam sem esperar encontrá-las ali.

Porque certas fidelidades são mais antigas do que os desejos dos homens.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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