Uma rua do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, pode se tornar o ponto de partida para um projeto de urbanismo social inspirado em experiências de Medellín, na Colômbia. A proposta envolve representantes da Redes da Maré, do Instituto Manu e do Insper, além do arquiteto colombiano Edgar Mazo, conhecido por projetos de transformação urbana na cidade sul-americana.
A iniciativa prevê a escolha de um trecho da Rua Sargento Silva Nunes para receber um jardim comunitário, mesas, cadeiras e uma cozinha pública. A ideia é criar um espaço destinado à convivência dos moradores, com circulação restrita de carros e motos e regras para impedir a presença de armas e drogas.
O projeto ainda está em fase inicial e não tem prazo definido para ser concluído. Segundo a Redes da Maré, o momento atual é dedicado principalmente à escuta dos moradores, considerada uma das etapas mais importantes para definir os próximos passos da intervenção.
Rua reúne equipamentos e atividades da comunidade
A escolha da Rua Sargento Silva Nunes está relacionada à concentração de equipamentos da Redes da Maré, incluindo a sede e uma biblioteca. O local também reúne restaurantes, barbearias, salões de beleza e estabelecimentos comerciais, além de ficar próximo a quadras de futebol, uma escola pública e o 22º BPM.
Durante a visita à Nova Holanda, Edgar Mazo caminhou pela comunidade, conheceu espaços da Redes da Maré, esteve no polo gastronômico do Parque União e conversou com moradores sobre as principais necessidades do território. Para ele, a dinâmica das ruas da Maré apresenta semelhanças com aspectos que marcaram Medellín, como a presença de comércio e serviços, mas também problemas relacionados à falta de saneamento, ocupação intensa, insegurança, construções irregulares e fiação desorganizada.
O arquiteto destacou, porém, a capacidade de resistência e mobilização dos moradores. Na avaliação dele, o envolvimento da própria comunidade é essencial para que as mudanças sejam construídas de maneira duradoura.
Mesas e cozinha pública estão entre as ideias
Durante as conversas com moradores, uma cozinheira chamou a atenção de Edgar ao relatar memórias relacionadas ao pai e à importância das mesas nas ruas. A experiência fez o arquiteto ampliar a visão inicial do projeto, que estava mais concentrada na criação de áreas verdes.
A partir daquele relato, ele passou a imaginar um espaço com mesas, alimentos, pessoas reunidas e atividades comunitárias. A proposta é que o local possa receber aulas, encontros e momentos de convivência, além de contar com um jardim cuidado coletivamente.
O arquiteto colombiano defende que a intervenção não precisa começar com um grande plano. Para ele, uma pequena área transformada com a participação dos moradores pode servir como referência para novas iniciativas e estimular uma mudança mais ampla no território.
Urbanismo social busca conectar espaços públicos
Edgar Mazo participou de um workshop ao lado do arquiteto colombiano Juan Sebastian Bustamonte, coordenador do Núcleo Arquitetura e Cidade, do Insper. Os dois defendem uma abordagem de urbanismo social voltada à valorização dos territórios e à criação de espaços públicos de qualidade.
Sebastian avalia que uma etapa futura poderia conectar inicialmente as ruas onde estão localizados equipamentos da Redes da Maré. A intenção seria aproximar os programas oferecidos pela organização de estruturas públicas já existentes, como escolas e quadras esportivas.
Para o arquiteto, a discussão central é entender para quem as ruas são planejadas. Na visão dele, em muitos locais da Maré esses espaços acabam destinados principalmente à circulação de veículos, enquanto faltam áreas públicas para convivência. Ele considera esse tipo de transformação especialmente importante em comunidades onde as residências são pequenas e com pouco espaço disponível.
Projeto ainda depende de novas etapas
A experiência de Medellín é apontada pelos arquitetos como uma referência para pensar possíveis mudanças na Maré. A cidade colombiana, que enfrentou períodos marcados pela violência e pelo crime organizado, passou por processos de transformação urbana que buscaram associar melhorias nos espaços públicos à qualidade de vida da população.
Na Maré, entretanto, o projeto ainda não possui data para ser concluído. Depois da etapa de escuta dos moradores, estão previstas conversas com representantes da Prefeitura do Rio e com instituições parceiras que desenvolvem serviços nas comunidades.
Para Edgar Mazo, a transformação precisa partir das pessoas que vivem diariamente no território. Ele defende a organização comunitária e a participação de diferentes setores da sociedade para que projetos de melhoria urbana possam avançar mesmo diante de mudanças políticas e administrativas.
A proposta, portanto, é começar pequeno, em um trecho específico de uma rua, e construir a mudança com a participação direta dos moradores. A expectativa é que um espaço de convivência, cuidado coletivo e valorização da vida comunitária possa servir como referência para futuras intervenções no Complexo da Maré.






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