Cinco anos depois da morte de Ana Clara Gomes Machado, a espera da família para ver o policial militar acusado pelo crime ser julgado voltou ao centro das atenções. A série jornalística Revelando lançou nesta quarta-feira (30), às 10h, o episódio O Julgamento que Nunca Aconteceu, apresentado pela atriz Camila Pitanga.
A produção reconstrói as circunstâncias da morte da criança, que tinha apenas 5 anos de idade, e acompanha o andamento do processo e procura explicar por que, mesmo depois de cinco anos, o policial militar acusado pelos disparos ainda não foi levado a julgamento.
O episódio também aborda a participação de Flávio Bolsonaro (PL), atualmente candidato à Presidência da República, como advogado de defesa do PM. A produção questiona as razões que levaram o então senador a atuar no processo e relaciona sua entrada na defesa aos acontecimentos que antecederam um novo adiamento do julgamento.
Na manhã de 2 de fevereiro de 2021, Ana Clara brincava na porta de casa, no Rio de Janeiro, quando foi atingida por disparos de fuzil.
De acordo com as informações apresentadas pela série, os tiros partiram de um policial militar. O delegado da Polícia Civil que esteve no local afirmou não ter dúvidas de que o autor dos disparos foi o cabo Bruno Delaroli.
O policial foi preso em flagrante e posteriormente denunciado pelo Ministério Público. Apesar disso, o processo não chegou ao julgamento pelo Tribunal do Júri.
Cinco anos de espera e entrada de Flávio na defesa
Durante os cinco anos seguintes à morte de Ana Clara, a família aguardou uma definição da Justiça. Quando a realização do julgamento parecia se aproximar, Flávio Bolsonaro passou a integrar a defesa de Bruno Delaroli.
Naquele momento, Flávio já exercia mandato de senador. Agora, disputa a Presidência da República.
A entrada do parlamentar no processo e os acontecimentos que levaram ao adiamento do julgamento ocupam espaço central no novo episódio de Revelando. A produção busca compreender tanto as razões para a participação do senador na defesa quanto os efeitos das medidas adotadas pelos advogados sobre o andamento do processo.
“Qual era a intenção de um senador em defender o homem preso em flagrante pela morte de uma criança?”, questiona a série.
Flávio assinou, em 2024, um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio que determinava que o policial fosse submetido a júri popular. Nesses casos, conforme explica Camila no vídeo, o júri popular é uma forma de garantir a idoneidade do processo, pois é mais fácil comprar um juíz do que um grupo de pessoas. Bruno Delaroli, entretanto, permanece sem julgamento.
Camila Pitanga acompanha relato da família
Além de reconstruir o processo judicial, O Julgamento que Nunca Aconteceu procura recuperar a história de Ana Clara para além das circunstâncias de sua morte.
Camila Pitanga acompanha a trajetória da família e apresenta uma entrevista exclusiva com a mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva. O depoimento ajuda a reconstruir quem era Ana Clara, sua rotina e os planos interrompidos quando tinha apenas 5 anos. Cristiane continua convivendo com a perda da filha e com a ausência de uma resposta definitiva da Justiça.
A discussão ganhou uma dimensão adicional por ocorrer na reta final da eleição presidencial, na qual Flávio Bolsonaro disputa o Palácio do Planalto. A mãe de Ana Clara diz temer que, caso Flávio seja eleito presidente, o PM que matou sua filha nunca seja julgado.
Novo episódio chega após repercussão de investigação sobre Master
O lançamento de O Julgamento que Nunca Aconteceu ocorreu uma semana depois da repercussão de outro episódio da série, Grandes Igrejas, Master Negócios, apresentado pelo humorista Fábio Porchat.
A produção anterior abordou as relações entre o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e personagens da política brasileira.
Segundo os responsáveis pelo projeto, o vídeo alcançou o primeiro lugar no ranking Hype do YouTube e acumulou milhões de visualizações. A repercussão chegou ao presidente Lula, que, ao comentar a produção, afirmou que ela “merece o Oscar”.
Depois da publicação do episódio, o perfil oficial de Revelando foi retirado do Instagram pela Meta. Segundo o texto de referência, a plataforma não apresentou naquele momento uma explicação específica para a remoção.
A conta posteriormente voltou ao ar após a mobilização provocada pelo caso.
A organização CTRL+Z também apresentou uma denúncia ao Ministério Público Federal (MPF), pedindo que fossem apuradas as circunstâncias da retirada do perfil e que a plataforma informasse qual regra teria sido violada.
Projeto reúne diferentes veículos e organizações
Revelando é uma iniciativa do podcast Calma Urgente realizada em parceria com o ICL Notícias, a Mídia Ninja e a 342 Artes.
A série utiliza produções audiovisuais de caráter jornalístico para reconstruir episódios de repercussão política e social, recorrendo a documentos, processos, entrevistas e outros materiais relacionados aos temas abordados.
Veja, abaixo, o episódio O Julgamento que Nunca Aconteceu, apresentado pela atriz Camila Pitanga.







Deixe um comentário