Apoiado por Mujica, o progressista Yamandu Orsi vence as eleições presidenciais no Uruguai

Ao longo da campanha, Orsi buscou tranquilizar os eleitores, afirmando que não planeja uma mudança política drástica no país tradicionalmente moderado

O progressista Yamandu Orsi, da Frente Ampla (FA), venceu o segundo turno das eleições presidenciais no Uruguai, realizado neste domingo (24), de acordo com projeções de boca de urna citadas pela mídia local.

O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, ligou para o candidato de centro-esquerda, Yamandú Orsi, para parabenizá-lo como presidente eleito do país e para ajudá-lo no processo de transição.

Lacalle Pou fez uma postagem no X depois que as principais pesquisas de boca de urna indicaram que Orsi venceria o candidato de centro-direita, Álvaro Delgado.

A participação nos pleitos deste domingo atingiu 89,4%, segundo dados da Corte Eleitoral divulgados pela imprensa local.

Orsi contou com o apoio do ex-presidente José “Pepe” Mujica, que, apesar da idade avançada e de seu delicado estado de saúde, o apoiou durante a campanha.

Ao longo da campanha, Orsi buscou tranquilizar os eleitores, afirmando que não planeja uma mudança política drástica no país tradicionalmente moderado e relativamente próspero de 3,5 milhões de habitantes, conhecido por suas praias, cannabis legalizada e economia estável.

Todas as eleições às quais concorreu ele venceu, diz um aliado próximo de Yamandú Orsi, 57, como se a apertada vitória nas eleições para presidente do Uruguai, de acordo com as projeções, fosse a mera ordem natural das coisas. Orsi era conhecido, mas nunca havia tido tamanha projeção.

O homem que em março do próximo ano assumirá a Presidência em um contexto simbólico importante no país —os 40 anos de retorno da democracia— foi por duas gestões consecutivas (2015-2020 e 2020-2024) governador do departamento de Canelones, que com 520 mil habitantes (15% da população nacional) circunda Montevidéu no mapa.

Formado professor de história, ele cresceu trabalhando com o pai em um armazém da região e também ali começou a militar na Frente Ampla, o agrupamento de forças de esquerda e centro-esquerda fundado em 1971, quando Orsi ainda era criança. Não ter nascido na capital Montevidéu tem sido um dos motes de sua campanha.

Desde a redemocratização, nenhum outro presidente do Uruguai era de outra região que não Montevidéu. De Julio María Sanguinetti, 88, o primeiro eleito nas urnas, passando por José “Pepe” Mujica, 89, que é padrinho político de Orsi, até o atual presidente, Luis Lacalle Pou, 51, todos haviam nascido no centro do poder. Orsi fugiu à lógica

No prólogo que fez em um livro sobre outro de seus “professores”, como chama o ex-governador de Canelones Marcos Carámbula, ele escreve sobre o objetivo compartilhado de “promover e alimentar narrativas para além das fronteiras montevideanas”.

E faz autocrítica inclusive para a Frente Ampla: “Os frente-amplistas começaram a processar um novo relato do qual faz parte entender que não há apenas um interior, mas muitos e bem distintos”.

Foi um argumento muito usado em sua campanha para apontar que Orsi seria uma peça-chave para fortalecer a articulação entre o Uruguai rural e o urbano —a ver o que ele fará nos próximos cinco anos.

Com Orsi a esquerda voltará ao poder após uma janela de cinco anos ocupada por Lacalle Pou, quem interrompeu 15 anos consecutivos da Frente na Presidência ao ser eleito em 2019.

O futuro presidente pertence à mesma força política de Mujica, o MPP (Movimento de Participação Popular), que, fundado em 1989, marcou a entrada dos ex-guerrilheiros tupamaros na política institucional.

Orsi é uma renovação de antigos quadros nacionalmente conhecidos, como Tabaré Vázquez, morto em 2020, e Pepe Mujica, a velha guarda da esquerda uruguaia. Chama Pepe de uma espécie de professor, mas a bem da verdade é muito diferente do “maestro”.

Conhecido por seus discursos com quê filosófico, Pepe Mujica sempre aderiu à arte do improviso. Na última eleição municipal no Brasil, em outubro, enviou vídeos de apoio a vários candidatos da esquerda. Gravava-os assim: um assessor colocava à sua frente um papel com o nome do(a) candidato e pronto, Mujica começava a falar para a câmera do celular como se conhecesse aquela pessoa de longa data.

Bem distante da espontaneidade, Orsi chegou a reservar um dia no primeiro turno da campanha, derrubando agendas, para preparar o discurso que faria no momento do resultado. As palavras pareciam milimetricamente calculadas.

Na noite do domingo que antecedeu o segundo turno, quando ele participou de um debate televisionado com o adversário Álvaro Delgado (Partido Nacional), não fugiu do script previamente acordado para eixos temáticos. Delgado fez várias perguntas para que Orsi respondesse, mas ele não respondeu a nenhuma.

Durante os próximos cinco anos, uma centro-esquerda renovada, mas ainda altamente influenciada pela velha guarda, governará o Uruguai. E Orsi terá inevitavelmente que sair do roteiro para lidar com desafios domésticos mas também os internacionais —este último um tema no qual até aqui demonstrou pouco traquejo político.

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