A ex-candidata Patricia Bullrich, terceira colocada no primeiro turno da eleição presidencial argentina e fora do segundo turno, declarou apoio ao candidato da direita radical Javier Milei nesta quarta-feira. Depois do anúncio, a aliança opositora Juntos pela Mudança, se dividiu entre uma ala mais à direita, chamada internamente da ala dos falcões, agora unida por um pacto eleitoral com o partido de Milei, A Liberdade Avança, e uma ala de centro, o setor dos “pombos”, que ainda deverá decidir se apoia abertamente a candidatura de Massa, ou optará por uma posição independente.
— Estamos assistindo à demolição controlada do sistema de partidos argentino, tal como o conhecemos há 20 anos — explica Patricio Talavera, professor da Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA).
Para o professor, “as coalizões que o país tinha até agora não refletem mais as tendências do eleitorado”. O apoio a Milei não foi fácil de aceitar para Bullrich, que apareceu em todos os canais de TV do país visivelmente abalada pela derrota de domingo, e pela avenida sem saída que essa derrota a colocou. Fontes próximas à ex-ministra reconheceram que a agora ex-candidata teve de ser convencida sobre os custos para a direita tradicional de manter-se neutra na disputa entre Milei e Massa.
— Com Javier Milei, temos diferenças. Por isso competimos, não as ocultamos. No entanto, nos encontramos diante do dilema da mudança ou continuidade mafiosa para a Argentina e terminar com a vergonha do presente. A maioria dos argentinos elegeu uma mudança. Nós representamos parte dessa mudança. Temos a obrigação de não sermos neutros. — disse Bullrich a jornalistas reunidos em Buenos Aires. — Como dizia San Martín, quando a Pátria está em perigo, tudo é permitido, a não ser não defendê-la.
Domingo passado, Bullrich obteve 23,83% dos votos, um resultado magro para a aliança que venceu as presidenciais de 2015 e que, até o crescimento vertiginoso de Milei, era considerada a grande favorita para as presidenciais deste ano.
O respaldo da ex-candidata a Milei, apontam analistas, vai dar impulso à campanha do candidato da direita radical, mas ainda não está claro quanto esse impulso lhe permitirá crescer e tornar-se mais competitivo na disputa com o peronismo.
—Alguns eleitores tradicionais da Juntos pela Mudança já deixaram de votar em Bullrich no primeiro turno. Uma parte dos 23% conseguidos pela ex-candidata obviamente vai optar por Milei no segundo turno, acho que a magnitude da migração de votos dependerá no nível de antiperonismo que cada pessoa tiver no sangue — afirma Diego Reynoso, pesquisador e professor da Universidade de San Andrés.
Ele explica:
— Se um eleitor de Bullrich tiver mais de 50% de antiperonismo no sangue, provavelmente vai migrar para Milei. Agora, se for um eleitor mais moderado e não antiperonista, poderá votar em branco ou em Massa.
Javier Milei reagiu à declaração de apoio com uma publicação nas redes sociais. O ultraliberal postou na rede X (antigo Twitter) um desenho de um leão abraçando um pato (apelido de Bullrich) usando uma bandeira da Argentina como cachecol. O pilar do acordo entre Bullrich (fortemente pressionada por Macri) e Milei foi a batalha contra o kirchnerismo.
— O kirchnerismo é um limite, e dar liberdade de ação não seria apropriado — alertou ontem Federico Angelini, homem de confiança de Macri e que assumiu o comando do partido Proposta Republicana (Pro, fundado pelo ex-presidente e até a campanha presidido por Bullrich).
No anúncio desta quarta, Bullrich falou mais contra o kirchnerismo do que o a favor de Milei. Antes mesmo de mencionar o ultraliberal, a ex-candidata reafirmou suas tendências liberais antes de começar a atacar Sergio Massa e seus apoiadores peronistas.
— Ratificamos nossa defesa dos valores da mudança e da liberdade. A urgência do momento nos interpela a não sermos neutros frente ao perigo da continuidade do kirchnerismo por meio de Sergio Massa — disse aos jornalistas. — Faz 20 anos que Cristina Fernández Kirchner, Alberto Fernández, Sergio Massa e muitos outros nos jogam nesta decadência. A Argentina não pode reiniciar um novo ciclo kirchnerista liderado por Sergio Massa. Isso implicaria, para o nosso país e nosso povo, uma nova etapa histórica sob o domínio de um populismo corrupto que condenaria a Argentina a uma decadência final e significaria a continuidade do pior governo da história.
Ao mesmo tempo em que a aproximação entre Bullrich e Milei possa ter impacto direto na votação do ultraliberal, a declaração de apoio provavelmente acaba de fato com a coalizão Juntos pela Mudança, que levou Macri a Presidência em 2015.
Partidos aliados, como a UCR e a Coalizão Cívica, anteciparam que não declarariam apoio a nenhum dos candidatos no segundo turno. De acordo com uma fonte da UCR ouvido pelo jornal argentino Clarín, o entendimento na legenda é de que Macri decidiu romper a aliança.
“Há muito tempo Macri decidiu romper o Juntos pela Mudança, e hoje materializou [o plano]”, disse uma fonte ouvida pelo jornal argentino.
A crise, contudo, não deve ficar restrita a coalizão macrista. Assim que as primeiras notícias sobre o acordo surgiram, deputados eleitos pelo partido de Milei, o Liberdade Avança, afirmaram que deixariam a sigla e criariam um novo bloco no Congresso, apontando uma “traição” do candidato à Presidência, ao se aliar com alguns dos alvos de suas críticas até pouco tempo.
Fontes próximas aos candidatos afirmaram à imprensa argentina que Milei foi até a casa de Macri em Acassuso, onde o esperavam o ex-presidente e Bullrich. O motivo da reunião seria “resolver as diferenças”. Anteriormente, Milei chamou Macri de “repugnante” e disse que Bullrich tinha “sangue nas mãos”.
Contudo, logo após o resultado do primeiro turno, Milei começou a fazer acenos por meio da imprensa ao campo Macri-Bullrich.
— Tenho um relacionamento muito bom com o engenheiro Macri e estou disposto a ouvi-lo porque sua experiência é muito valiosa — disse Milei na segunda-feira, admitindo que poderia adicionar Bullrich a um eventual gabinete. — Como posso não incorporá-la? Ela teve sucesso no combate à insegurança.
Durante a campanha, ele a acusou de ser uma “lançadora de bombas com sangue nas mãos”.
Uma reunião a sós com Bullrich foi necessária para deixar as impressões da campanha no passado, disseram fontes de ambos os lados na terça-feira. Esse foi o principal significado do jantar da noite passada.
Com informações de O Globo.





