A hora da mamadeira, assim como o penteado para ir à escola e a roupa do passeio, têm sido cada vez mais ministradas por homens nos lares brasileiros. A realidade é fruto de uma sociedade que está aprendendo a desassociar a parentalidade ao cuidado exclusivamente materno. Neste Dia dos Pais, três solteiros compartilharam suas histórias com o Agenda do Poder. Junto a especialistas, eles ensinam o porquê do termo “pãe” já estar fora de moda.
Você já parou para pensar quantos pais solteiros conhece? Talvez não muitos mas, com um esforcinho, pode vir alguém na lembrança. No geral, são homens que assumem a função integral e buscam, na exceção, cumprir a tarefa de dar uma boa educação aos filhos.
Apesar de o cenário de mães solteiras ser predominante no Brasil, o recorte não exclui a parcela expressiva de pais que assumiram sozinhos a criação dos rebentos — um percentual de 11%, segundo dados do último censo do Instituto de Brasileira e Estatística (IBGE). A diferença? Os homens assumem as atividades sem referências de cuidados e conhecimento cultural sobre as tarefas domésticas.
“Os meninos não são socializados para o cuidado como as meninas são. Eles, geralmente, não brincam de bonecas e de cozinhar e aí não entendem essas tarefas como suas. Na vida adulta, ao serem pais solo, terão que se reconstruir, terão que ir contra os modelos infantis e, possivelmente, ao modelo do pai que tiveram”, chama atenção a professora do Departamento de Cognição e Desenvolvimento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Edna Ponciano.
Marco e Gael
Quando descobriu que seria pai solo, Marco Máximo, de 45 anos, sentiu medo. Não sabia como lidaria com a responsabilidade. “No início, fiquei com um pouco de receio, porque não tinha experiência nenhuma com criança. Fiquei pensando: ‘será que vou dar conta?’ Mas aí, com o tempo, você vai aprendendo”. O tempo ensinou Marco a trocar fraldas, acalmar febres e entender silêncios.
O empresário, morador da Taquara, na Zona Oeste do Rio, descobriu que seria pai ao se relacionar com uma mulher que não tinha planos para a maternidade. Hoje, ele assume os cuidados do filho Gael, de 7 anos.
“Começou quando eu me envolvi com uma mulher que não queria ter filhos e engravidou. Tentamos ficar juntos, mas não deu certo. Então, como um acordo, resolvemos que eu ia criar o Gael. Até hoje estamos aí, graças a Deus, com saúde, estudando e uma criança maravilhosa”.
Juntos, os dois vivem uma rotina exaustiva, que começa às 6h30 — que passa pelo trabalho, cuidados com o filho e tarefas domésticas; Gael, tem escola e jiu-jitsu. Para ambos, o dia a dia não deixa espaço para descanso, e os olhares curiosos das pessoas acrescentam um peso invisível à jornada de Marco como pai solteiro.

‘Cadê a mãe?’
A pergunta: ‘mas cadê a mãe?’ é frequente, feita até na frente do filho, o que exige explicações cuidadosas para não afetar sua autoimagem, explica o carioca.
“Geralmente, mulheres me abordam perguntando: ‘Cadê a mãe?’. Sempre respondo que ela está trabalhando, e o mais curioso é que perguntam na frente dele. Sei que isso mexe com ele, mas, com o tempo, aprendeu a lidar. Entre os 4 e 5 anos, ele sentia mais. Hoje, acho que sente menos ou disfarça melhor”, conta.
A curiosidade alheia não respeita a ideia de que as estruturas familiares são cada vez mais diversificadas. A Constituição de 1988 considera núcleos familiares os vínculos:
- Entre pais e filhos: nuclear
- Entre um dos pais com filhos: monoparentais
- Famílias homoafetivas: entre casais do mesmo sexo
- Famílias reconstituídas: com filhos de relacionamentos anteriores
- Famílias extensas: formadas por outros parentes como avós e tios
- Famílias anaparentais: sem pais, como irmãos que vivem juntos,
- Famílias unipessoais: formadas por uma única pessoa.
Independentemente do tipo de estrutura parental, o que dita o relacionamento é o tipo de vínculo e afeto estabelecido entre as pessoas. É o que explica a educadora especialista em infância e adolescência Priscilla Montes:
“O fator mais protetivo para uma criança não é a estrutura familiar considerada ‘ideal’, mas sim a qualidade do vínculo que ela estabelece com pelo menos um adulto emocionalmente disponível. Quando esse adulto é o pai, presente de forma ativa e afetuosa, os efeitos são profundamente positivos”, destaca.
O herói cansado
Com o pequeno ainda com cinco anos, Marco aprendeu a primeira lição da paternidade solo: não há ninguém responsável além de si próprio.
“O dia em que percebi que éramos apenas eu e ele, foi no quarto do hospital, quando ele pegou pneumonia. Ele segurou minha mão e pediu para eu não sair. Depois, trouxe-o para casa e cuidei dele 24 horas por dia, durante cinco dias seguidos. Ele me agradecia sempre que podia. Foi mágico. Naquele dia, vi que tudo o que fiz para tê-lo comigo valeu a pena. Até hoje, o sentimento é o mesmo”, conta, emocionado.
Ser pai solo também se resume em assumir uma carga emocional e prática intensa, que, em muitos casos, pode pesar mais sobre os ombros dos homens do que se imagina. A sociedade, ao mesmo tempo que questiona sua capacidade, frequentemente os coloca em uma posição de “heróis” que dão conta do recado sozinhos, uma condição que esconde o cansaço e a solidão por trás do cuidado integral.
“Os pais que assumem sozinhos seus filhos são ainda mais questionados e observados como suspeitos de não dar conta ou de não serem homens o suficiente, já que o cuidar é considerado uma tarefa feminina. Por outro lado, também podem ser heroicizados, caso a mãe não assuma nenhuma tarefa de cuidado. Heroicizar também não é uma boa ideia, porque parece que o pai está fazendo além do que deveria, o que reforça os papéis tradicionais de gênero, excluindo o homem da perspectiva de quem também cuida”, indica a professora Edna Pocianco.
Marco Máximo sabe bem disso e percebe que seu esforço é comparado com o que os outros não fazem, de forma sexualizada. “Percebo que a paternidade solo acaba sendo associada ao caráter, principalmente pelas mulheres, porque me comparam aos ex que não ligam para os filhos e notam a diferença na forma como trato o meu”, conta.
Fora dos padrões
Se para o empresário a decisão de assumir a criação do filho Gael foi digerida aos poucos, para Cristiano Brito foi paralisante, mas só por algum tempo. Depois, teve que assumir as noites em claro cuidando do filho Cristian Francisco, de 3 meses.

“O momento em que me vi responsável pela criação do meu filho foi congelante. Eu não esperava, sabe? Não esperava que fosse acontecer tão rápido, da forma que aconteceu. A sensação que tive foi como se o tempo tivesse parado. Tive uma leve crise de ansiedade. Foi meio louco, mas também foi uma sensação de realização”, lembra.
A experiência veio com uma carga extra de medos e julgamentos. Aos 34 anos, e assumidamente gay, Cristiano vivenciou um choque quando assumiu a responsabilidade solo. Segundo o carioca, o desafio veio não só na prática cotidiana, mas no enfrentamento interno dos medos e da responsabilidade emocional. Já a pressão para se manter forte e responsável, sem espaços para fraquezas, se apresenta como um dos maiores obstáculos.
“O maior desafio que enfrentei emocional e, na prática, foi me colocar como responsável por uma criança, com toda essa responsabilidade de criar, cuidar e zelar por ela. Acho que meu maior desafio hoje é me manter de pé por ele. Diante de todas as circunstâncias, não posso pensar em adoecer, chorar ou ser fraco. Não posso perder meu emprego. Esses são meus maiores desafios”.
Mesmo que ainda não tenha enfrentado preconceito direto por sua orientação sexual, Cristiano percebe o olhar da sociedade quando sai com o filho em espaços públicos. Uma insegurança que acompanha muitos pais solo, em especial os que fogem dos padrões heteronormativos.
“Tenho receio apenas de sair com ele para lugares como um shopping, porque ele é muito novinho e pode chorar, e as pessoas olharem de forma diferente. Mas isso está passando.”
Além da romantização, o olhar de julgamento também cai em peso por cima de pais solos homossexuais. Este tipo de dificuldade pode instaurar um sentimento de isolamento e solidão, explica Priscilla.
“Muitos pais e mães solos ainda enfrentam julgamentos e suposições equivocadas. Mães solos costumam ser vistas como ‘negligentes’ ou ‘fracassadas’, enquanto pais solos, embora muitas vezes romantizados, recebem pouco apoio prático. Isso contribui para o que chamamos de solidão parental, um sentimento de isolamento subjetivo, que persiste mesmo quando há alguma rede de apoio”.
Na sequência das descobertas, a sensação de assumir a paternidade foi quase de ‘cegar os olhos’ para o empresário Alexandre Figueiredo, de 54 anos.
“Senti-me cego: nos horários, na organização, na forma como comunicar. Para mim, tudo era 1 + 1= 2. Mas com crianças, a lógica muda. Aos poucos, fui percebendo que ser pai não é uma versão paralela de mim mesmo. É uma extensão de quem eu sou, com todas as dúvidas, medos, mas também com a vontade real de crescer com eles. A parentalidade deixou de ser uma luta e passou a ser uma descoberta. E isso mudou tudo”, expõe.
A ausência de uma fórmula para a paternidade solo faz com que cada pai precise reinventar seu próprio caminho. Para Alexandre, esse processo exigiu desapego a velhas ideias e coragem para construir uma nova relação consigo mesmo e com os filhos.
Homem não chora
Essa transformação também passa pela superação dos estigmas da masculinidade tradicional, que cobra silêncio, força e racionalidade dos homens, como ele bem reconhece.
“Durante muito tempo fomos ensinados a calar, pelo menos a minha geração. A ser fortes, racionais, práticos, machos. Falar de sentimentos era sinal de fraqueza e mostrar dúvidas sobre como ser pai era quase como admitir falhanço. Crescemos com a ideia de que os homens têm de ‘dar conta do recado’ sem reclamar, e isso reflete-se diretamente na forma como vivemos a parentalidade”, compartilha.

A presença paterna tem impacto profundo no desenvolvimento emocional das crianças, reforça a educadora Priscilla Montes. Segundo ela, a qualidade da relação entre pai e filho vai além da presença física e atua como fator fundamental para a autoestima e segurança afetiva das crianças.
“A presença de um pai atento, afetuoso e disponível impacta diretamente o desenvolvimento emocional da criança. Ajuda a fortalecer sua autoestima, construir segurança emocional e desenvolver habilidades sociais e afetivas. Já o oposto, a ausência emocional, mesmo quando o pai está fisicamente presente, pode deixar marcas profundas. É o chamado abandono afetivo, silencioso, mas com consequências que acompanham a criança até a vida adulta.”
Para construir uma paternidade que desse gosto, Alexandre procurou terapia. Nas sessões, acabou percebendo muitos padrões no próprio comportamento, que refletem nos filhos. Também criou uma página no Facebook para compartilhar as vivências da parentalidade com outros pais solteiros.
‘Pãe’ ou não?
Em meio às transformações da paternidade solo, surge também o debate sobre como a sociedade percebe o papel do pai cuidador. Muitas vezes, para valorizar o envolvimento masculino, surgem termos e expressões que tentam equiparar o pai à mãe, como forma de reconhecer o cuidado e a dedicação.
No entanto, essa associação pode gerar um desconforto entre os próprios pais, que desejam ser vistos em sua singularidade, sem ter seu papel reduzido a uma comparação que reforça o modelo feminino como padrão do cuidado. Afinal, amor e cuidado não têm gênero.
“A expressão ‘pãe’, por exemplo, indica que há um esforço desse homem de ser como uma mãe ao mesmo tempo que o parâmetro se mantém feminino. Por isso, alguns pais recusam essa expressão, porque gostariam de ser valorizados como homem pai e não comparados à mulher mãe, indicando que homens também sabem cuidar.”
Aos três, quando questionados o que esperam de seus filhos, as respostas exprimem um desejo comum: criar pessoas boas.
“Educar crianças exige mais do que regras e horários, exige consciência. Elas observam tudo, imitam-nos, guardam lá dentro cada gesto, cada palavra. E esse é talvez o maior lembrete diário: estamos a formar pessoas”, diz Alexandre Figueiredo.
“No meu caso, o que pretendo é simples e ao mesmo tempo profundo, quero fazer deles bons homens. Homens humanos, com base emocional e espiritual. Porque acredito, mesmo, que é disso que o mundo mais precisa: pessoas conscientes, empáticas e boas por natureza”, finaliza.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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