Se você acha que o estresse urbano só encontra cura nos clonazepans da vida ou em remédios naturais que aliviam a pressão, precisa conhecer esse pacato distrito na divisa entre os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Porque São José das Três Ilhas parece operar sob uma física temporal própria, onde o relógio não corre, ele cochila na rede. O distrito de Belmiro Braga, formalmente localizado na Zona da Mata mineira, fica a poucos quilômetros de Rio das Flores ou Comendador Levy Gasparian e reúne apenas cerca de 250 moradores, distribuídos ao longo de uma rua principal calçada de pedra que resiste, teimosa, entre casarões coloniais e uma igreja de pedra que mais parece ter se perdido de alguma cidadezinha francesa ou italiana.
É tão perto que muitos turistas que visitam a região do Vale do Café fluminense cruzam a divisa apenas para passar o dia no vilarejo mineiro; aninhado entre colinas verdejantes e acessado por estradas que testam a fé e os amortecedores do seu possante. Lá chegando, o conjunto arquitetônico e paisagístico do distrito funciona como um portal direto para o século XIX, época em que o “ouro verde” do café ditava o ritmo da riqueza nacional e a elite cafeeira ostentava opulência para o futuro, mas esse amanhã decidiu simplesmente esquecer de passar por lá.
São José das Três Ilhas permanece como um precioso testemunho físico de um Brasil aristocrático que se desfez com o tempo. Visitar o distrito não é apenas fazer turismo geográfico, mas sim realizar um exercício de imersão histórica e desconexão mental profunda. Em um mundo governado pela pressa e pelas notificações incessantes das telas, encontrar um refúgio que preserva suas pedras, sua arquitetura neoclássica e seu silêncio é um dos grandes milagres do santo.

Qual é a história de São José das Três Ilhas?
Como em quase todas as cidades do Vale do Café, o primeiro morador da região foi um certo Antônio Bernardino de Barros, que adquiriu duas sesmarias do guarda-mor (uma espécie de governador de uma região na administração colonial portuguesa) João Francisco de Souza no início do século XIX. Foi em torno dessas terras que a história do povoado começou, décadas antes de qualquer igreja de pedra sonhar em existir por ali.
Com a primeira capela erguida pela Irmandade de São José em 28 de agosto de 1828, o vilarejo prosperou rapidamente, transformando-se em um núcleo estratégico onde barões do café acumulavam fortunas e erguiam casarões imponentes para demonstrar poder econômico e influência política.
Já as três ilhas são pura licença poética. Uns dizem que elas até existiram de fato nos rios que correm perto da localidade. Outros, ainda mais criativos, dizem que se referem às pequenas elevações de terra que se veem na paisagem. Pode escolher sua versão.
Quando foi construída a Igreja Matriz de São José?
A atual igreja não nasceu de uma tacada só, como se algum barão tivesse acordado numa manhã e decidido erguer uma catedral de pedra antes do desjejum. Ela teve sua pedra fundamental lançada em 20 de janeiro de 1878 e suas obras principais estenderam-se ao longo da década, sendo a capela-mor formalmente concluída em 1888.
Projetada pelo renomado arquiteto Quintiliano Nery Ribeiro, a construção foi financiada inteiramente pelos ricos cafeicultores da região. O templo reflete perfeitamente a fusão entre a profunda religiosidade da época e o desejo de ostentação da aristocracia rural no ocaso do Império do Brasil. Sua capacidade é de cerca de 500 pessoas, o tamanho de uma igreja média no período, mas onde cabe fácil duas vezes a população do vilarejo.
Sua fachada é uma obra-prima feita em cantaria (pedra talhada manualmente) que impressiona pela imponência de suas linhas. No interior, o visitante depara-se com uma estrutura monumental composta por arcos e colunas imponentes, além de um confessionário antigo ricamente trabalhado.
O piso apresenta detalhes refinados de marchetaria. Embora algumas reformas no século XX tenham infelizmente coberto parte das pinturas murais originais com tinta clara, a atmosfera mística permanece intacta. A igreja é o coração do Centro Histórico de São José das Três Ilhas, tombado em 1997 como o único núcleo urbano preservado do Ciclo do Café em toda a Zona da Mata mineira.

Qual estilo arquitetônico predomina na Matriz?
Taí um dos baratos do passeio. Arquitetonicamente, a Matriz de São José afasta-se do barroco tradicional mineiro e abraça o Ecletismo, com fortes traços do Neoclassicismo em sua composição, com especial relação entre o monumento e a paisagem do entorno.
Um estudo acadêmico sobre o edifício detalha esse contexto de forma mais ampla. A arquitetura eclética do período podia combinar estilos clássico, medieval, renascentista, barroco e neoclássico, sendo esse ecletismo muito difundido na Europa, especialmente pela Escola de Belas Artes de Paris.
A influência francesa moldou o gosto das elites brasileiras a partir da segunda metade do século XIX, que enxergavam em Paris o ápice da civilização e da modernidade. Assim, ao erguerem uma igreja com essa roupagem em pleno interior de Minas Gerais, os barões do café importavam diretamente o refinamento estético francês para demonstrar seu alinhamento com o progresso europeu.

O que mais tem para fazer por lá?
A principal atividade é caminhar pelo centro histórico e observar o conjunto arquitetônico. A rua principal estreita e sinuosa, o casario antigo, a Igreja Matriz e o sobrado associado ao Barão de São José Del Rey formam um cenário que pode ser percorrido sem pressa. São José das Três Ilhas é especialmente adequada para quem gosta de história, arquitetura, fotografia e lugares em que o visitante ainda não precisa disputar espaço com uma excursão de 47 ônibus da CVC.
O município reúne fazendas históricas, mirantes, cachoeiras e trilhas, além de outros elementos do patrimônio do Vale do Café. São José das Três Ilhas fica a cerca de 35 quilômetros de Rio das Flores segundo guias turísticos regionais, e costuma ser incluída em roteiros pela região.
E como tem gosto para tudo, o Conjunto Paisagístico do Cemitério de São José das Três Ilhas, situado no topo de uma colina, oferece uma ampla visão panorâmica de todo o vale e das montanhas circundantes. O local, tombado em 2010, chama a atenção pelos túmulos adornados com esculturas em mármore, entalhes e monogramas que também ostentavam a riqueza das antigas famílias aristocráticas.

Qual é a melhor época para conhecer?
Para quem deseja caminhar pelo centro histórico, fotografar a igreja e conhecer o casario com tranquilidade, períodos de clima mais seco tendem a ser mais confortáveis, especialmente porque parte dos acessos regionais envolve estradas rurais. Isso corresponde aos meses de maio a setembro, quando o índice de chuvas é extremamente baixo. A visita também pode ser combinada com atrações de Rio das Flores, como fazendas históricas, mirantes e trilhas.
Julho tem o atrativo especial da Festa de São José das Três Ilhas, que reúne atividades religiosas e culturais entre os dias 11 e 14. O período, portanto, oferece uma experiência mais movimentada e comunitária. Ou seja, quem prefere festa no interior, com procissão, música, doce de leite e cavalgada já sabe quando aparecer.

Como chegar?
Saindo da Guanabara, a viagem de carro leva cerca de três horas e meia. A rota principal cobre uma distância de cerca de 175 km, subindo a Serra de Petrópolis pela rodovia BR-040 em direção a Juiz de Fora, e depois acessando as estradas da região de Belmiro Braga. O tempo final pode variar um pouco dependendo das condições do trânsito na saída do Rio e do estado das estradas vicinais de terra na chegada ao distrito.
De ônibus, é preciso ir até Juiz de Fora, com tarifas a partir de R$ 115, e de lá pegar um ônibus da Viação Paraibuna até a cidade. A passagem custa em média R$ 17.


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