Itaboraí: o museu a céu aberto que pouca gente conhece
Reportagem Especial

Itaboraí: o museu a céu aberto que pouca gente conhece

Entre o açúcar que enriqueceu os engenhos, o barro que moldou cerâmicas e o petróleo que nunca veio, a cidade parece sempre à beira de um novo apogeu

Em Itaboraí, a história parece ter um talento especial para alternar entre o esplendor e o improviso. Foi lá que, em 1579, jesuítas fincaram o primeiro aldeamento português da região, ergueram igrejas, batizaram rios com nomes tupi de significado incerto e inauguraram, sem saber, um curioso ciclo de ascensões e quedas.

Entre o açúcar que enriqueceu engenhos no século XVIII, o barro que moldou cerâmicas e o petróleo que nunca veio, a cidade parece sempre à beira de um novo apogeu — só que ele costuma atrasar.

Seus personagens e símbolos também sabem encenar o drama nacional com elegância. O Visconde de Itaboraí construiu um palacete digno de corte imperial, hospedou a realeza e, um século depois, viu o casarão renascer das cinzas de um incêndio — hoje transformado em sede de prefeitura, cercado por pastas e protocolos, em vez de ministros e marqueses.

Já as ruínas do Convento de São Boaventura seguem firmes, belas e vazias, lembrando que a fé franciscana resiste melhor ao tempo que o asfalto.

Mas é no subsolo que Itaboraí guarda sua ironia mais antiga: enquanto a Petrobras sonhava com o futuro e o Comperj prometia empregos, o chão da cidade escondia fósseis de 55 milhões de anos. O que era para ser uma refinaria virou ruína moderna; e o que sobrou do calcário usado no Maracanã acabou virando patrimônio da humanidade.

Em Itaboraí, o passado é tão pesado que o futuro ainda tenta achar espaço para pousar. Talvez num lindo balão colorido.

Vista aérea do Comperj | Crédito: Reprodução

História

Em 26 de agosto de 1579, foi instalado na região o aldeamento jesuítico de São Barnabé, localizado no atual distrito de Itambi, que serviu como o primeiro ponto de fixação portuguesa no território que hoje compõe Itaboraí.

Foi promovida a vila de São João de Itaboraí em 16 de agosto de 1696 e em 1833 emancipou-se municipalmente, em 15 de janeiro, para ser preciso. 

Para variar, o nome tupi é motivo de controvérsia linguística. “Itaboraí” admite ao menos duas interpretações: ‘rio da pedra bonita’ (itá = pedra, porã = bonita, y = rio) ou ‘rio das pedras brilhantes’ (itá = pedra, berab = brilhante, y = rio).

O que era doce e se acabou

De 1700 a 1800, a freguesia de São João de Itaboraí apresentou um notável desenvolvimento econômico surfando o ciclo do açúcar.

Em 1780, grande parte do açúcar produzido pelos oitenta engenhos das freguesias próximas era embarcado em caixas de madeira nos catorze barcos pertencentes ao porto (daí o nome Porto das Caixas).

O açúcar era também embalado em cerâmicas produzidas nas próprias fazendas, o que gerou a tradição das olarias que persiste até hoje no município.

Mas em 1874, foi inaugurada a Estrada Ferro-Carril Niteroiense, que fazia a ligação de Nova Friburgo e Cantagalo diretamente ao porto da capital da província, Niterói, substituindo o transporte fluvial. A construção da estrada foi uma das principais causas do declínio do porto e, por consequência, da Vila de São João de Itaboraí.

Quem foi o Visconde de Itaboraí?

Joaquim José de Rodrigues Torres, o Visconde de Itaboraí, foi uma das figuras políticas de maior destaque no Brasil do Segundo Império: ministro diversas vezes, presidente da província do Rio de Janeiro e morador do palacete na cidade que leva seu título. 

Construído em 1843 no Largo da Matriz o palacete hospedou a Família Imperial em rumorosa visita à cidade e era uma joia da arquitetura colonial que quase se perdeu em 1968 após um grave incêndio. Comprado pelo Governo do Estado, foi reconstruído.

Visitar esse palacete hoje é pisar no assoalho de abastadas visitas oitocentistas, ainda que hoje ele esteja entre secretarias, corredores e protocolos municipais.  

O que são as Ruínas do Convento de São Boaventura?

Envolvidas por um cenário natural de extrema beleza, as ruínas do convento se destacam majestosas no sítio onde existiu no século XVIII a antiga Vila de Santo Antônio de Sá. 

Seu projeto arquitetônico é considerado semelhante ao convento de Santo Antônio, na Guanabara, ambos da ordem franciscana, com casa conventual, torre sineira, igreja e capela da Irmandade.  

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, também chamada de Igreja de Porto das Caixas, foi fundada em 1595. O Convento, que começou a ser construído em 1660, é cronologicamente a quinta construção conventual da Ordem Franciscana no Brasil.

Ruínas do Convento São Boaventura | Crédito: Reprodução

A Igreja Matriz de São João Batista também é uma das mais antigas do estado?

Sim, a A Igreja Matriz de São João Batista foi erguida inicialmente como capela em 1672 e reconstruída entre 1725 e 1742.

Não é naturalmente “A” mais antiga do estado, pois no Rio de Janeiro existem construções coloniais até anteriores. Mas certamente está entre as mais antigas edificações religiosas preservadas e possui grande valor arquitetônico.

Igreja Matriz de São João Batista, no Centro de Itaboraí | Crédito: Reprodução

Um patrimônio da humanidade descoberto durante a construção do Maracanã

Em 1928, um fazendeiro achou pedaços de calcário em sua propriedade. A área foi comprada pela Companhia Nacional de Cimento Mauá, que aproveitou o material na construção do Maracanã e depois, da Ponte Rio-Niterói.

Ao longo da extração mineral, foram encontrados vestígios arqueológicos. E quando o calcário terminou, em 1984, restou uma depressão de 70 metros, que virou um lago, desapropriado pela Prefeitura para criação do Parque Paleontológico de São José.

Lá já foram encontrados o tatu mais antigo do mundo e o ancestral das emas. Ambos do Paleoceno, datados de cerca de 55 milhões de anos. Além de fósseis de preguiça gigantes, mastodontes e evidências da presença do homem pré-histórico no local.

O Parque é considerado pela Unesco um dos patrimônios da humanidade.

O que mais tem para fazer por lá?

A Capadócia é aqui e taboraí vem se destacando como point para prática do balonismo.  Os amantes do rude esporte bretão podem também conhecer o famoso “Alzirão”, o pequeno estádio do time do Itaboraí.

A turma do ecoturismo tem uma Disneylândia a explorar no Maciço do Barbosão, uma elevação com as altitudes mais elevadas de Itaboraí, na divisa do Tanguá.

Itaboraí já foi o maior produtor de laranjas do Brasil?

Sim: entre as décadas de 1920 e 1980, Itaboraí se destacou pela citricultura e chegou a ser conhecido como “Terra da Laranja”.

Em 1970 a área plantada chegou 12.463 ha e a produção em 809 milhões de frutos.

Essa montanha de frutos espremida daria aproximadamente 404 milhões de copos de suco de laranja de 300 ml.

O que era o projeto do Comperj?

A Petrobras lançou o projeto do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro em 2006, que representava enorme investimento para a região, prometendo refinaria, milhares de empregos e novo polo industrial.

Porém, o projeto foi paralisado em 2015 após escândalos de corrupção e adiamentos, o que gerou forte impacto negativo para Itaboraí: queda de arrecadação tributária, demissões em massa e abandono de canteiros de obras. 

Resumindo: o Comperj era promessa de novo Eldorado para Itaboraí, virou amálgama de expectativas frustradas, impactos econômicos diretos e um símbolo local de um boom econômico que não rolou.

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