“Meu diagnóstico era de tetraplegia, eu ia ficar de cadeira de rodas para o resto da vida”, relembra o bancário Bruno Drummond, de 30 anos. Depois de um acidente de carro, ele sofreu uma lesão completa na medula cervical. Não mexia braços, pernas, quadril ou abdômen — parecia o fim de uma vida independente. Meses depois, Bruno voltou a andar. E o que chegou a ser ditado como impossível, transformou-se em realidade graças a uma proteína criada em laboratório na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um avanço que pode mudar a história de quem sofre lesões na medula espinhal.
A descoberta, inédita no mundo, atende pelo nome de polilaminina. Em termos simples, ela age como uma “ponte biológica”: quando aplicada diretamente na medula espinhal durante uma cirurgia, forma uma malha que orienta os neurônios a se reconectarem. Essa reconexão restabelece a comunicação entre as células nervosas e, com isso, devolve funções que haviam sido perdidas.
Ela é inspirada na laminina, proteína natural presente na fase embrionária e que auxilia na comunicação entre neurônios. Na vida adulta, essa proteína praticamente desaparece.
A Agenda do Poder ouviu a cientista e pesquisadora Tatiana Sampaio, da UFRJ, que, nas últimas semanas, dominou a maioria das manchetes jornalísticas ao redor do mundo. Foi ela quem descobriu que era possível recriar essa malha em laboratório, a partir de placentas.

O trabalho, no entanto, não é algo recente, já vem sendo estudado há mais de 20 anos e passou por muitas etapas antes de ser testado em humanos.
“Por acaso, a gente foi descobrindo essas estruturas que chamamos de malhas e, a partir da observação de que essas redes eram parecidas com as redes naturais que temos no corpo, começamos a pensar que elas poderiam ser usada como uma terapia, para tentar trazer de volta no corpo alguma função que a laminina fisiologicamente tivesse esse papel”, detalha à reportagem.
Assumindo riscos
Antes da parte científica, é preciso contar a história de Bruno, um dos pacientes mais promissores no estudo até agora. No dia 28 de abril de 2018, ele fazia uma viagem de carro para Teresópolis, na Região Serrana, acompanhado do pai, a madrasta e o irmão. Durante o percurso, tirou o cinto de segurança e deitou no banco de trás, tentando descansar.
“No meio do caminho, meu pai bateu o carro e capotou. Ele falou que eu fiquei preso no carro, não conseguia mexer nada, só o pescoço, fiquei muito bravo na hora. A equipe de resgate me removeu do carro e me levou para o hospital”, conta o bancário.
A família recebeu primeiro a notícia da lesão na medula — Bruno ainda estava desacordado e sem saber o que ocorrera. Transferido para um hospital particular, ele passaria por uma cirurgia que acabaria mudando sua vida.

Sem saber, a vida do bancário cruzou com a dos cientistas. Antes de entrar na sala, surgiu nos corredores a proposta de fazer parte da pesquisa.
“Uma pessoa da equipe que ia fazer a cirurgia comentou sobre o estudo com meu tio, que é médico. Como eu estava desacordado e não lembrava de nada, eu não participei da decisão. Ele leu, falou que fazia sentido, e assumiu o risco. Falou que era melhor correr o risco de melhorar alguma coisa do que ficar tetraplégico para o resto da vida”, diz.
Como a medicação funciona?
O tratamento consiste em uma única aplicação, realizada durante cirurgia, preferencialmente até 72h após o acidente. Cada paciente é acompanhado por uma equipe de médicos, fisioterapeutas e pesquisadores da universidade.
“A laminina é como se fosse um conjunto de mini proteínas que, ao longo da evolução foram se juntando para fazer uma proteína única […] com aquele combo das coisas juntas, você consegue resolver vários problemas”, explica Tatiana: “O que nos levou a entrar nessa pesquisa é a capacidade que a laminina tem de induzir o crescimento dos axônios, os fios que conduzem a informação entre o cérebro e os membros que vão executar os movimentos”.
O paciente com a lesão da medula, como explica a cientista, tem esses “fios” danificados, interrompendo a comunicação entre o cérebro e o corpo. Isso ocasiona a paraplegia, que é a perda dos membros inferiores, ou tetraplegia, como no caso do Bruno, que é o comprometimento dos movimentos do pescoço para baixo.
“O que a laminina faz? Faz o fio crescer de novo e reconectar. Nós exploramos essa função no laboratório, in vitro que a gente chama, e caracterizamos que a nossa polilaminina tivesse uma capacidade de fazer esse crescimento dos axônios de forma mais poderosa do que a laminina sozinha. Por isso ela poderia ser usada como medicamento, porque ela era superior. Essa foi a base do que nos conduziu para os estudos em animais e, depois, em humanos”, esclarece a pesquisadora.
Inícios e desafios
Antes de chegar em Bruno, a substância foi testada em seis cães que haviam perdido os movimentos das patas por causa de lesões na medula. Eles foram acompanhados durante seis meses e quatro apresentaram uma melhora significativa na capacidade motora.
O resultado trouxe confiança, mas também desafios. Tatiana explica que a fase de testes em humanos foi uma das partes mais trabalhosas do estudo.
“Quando você vai para o ser humano, você acaba tendo que trazer para sua realidade coisas que não estava acostumada. Eu estava acostumada a ser uma cientista, então você tem que isolar sua variável e desenhar o seu experimento. Quando você vai para o estudo clínico, está lidando com seres humanos, então, essa lógica muda”
Tatiana Sampaio
Por isso, a cientista contou com ajuda de médicos para avançar com o tratamento. Dez pacientes participaram, entre eles uma mulher de 27 anos, que sofreu uma queda, e um homem de 33 anos, ferido por arma de fogo.
A resposta foi positiva, além do Bruno, os outros participantes também recuperaram mobilidade parcial ou completa em braços, pernas e abdômen.
“Foi muito impressionante, desde o primeiro caso. No caso do Bruno, a gente já ficou muito impactado. Eu esperava que fosse ter melhora, mas realmente ele teve uma melhora muito grande e rápida. Em um mês, a gente já sabia que ele tinha ultrapassado expectativas. Foi emocionante, sensação de: ‘Meu Deus, parece que tem mesmo alguma coisa aí’”, celebrou.
A força da ciência brasileira
O projeto ganhou fôlego quando contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), que financiou etapas decisivas.
“Esse investimento é extremamente importante para toda a população, porque é nele que você tira alguns resultados, não só um resultado. É um investimento na ciência com qualidade, uma sociedade que acolhe todos os frutos que a gente está tirando dessa entrega”, aponta a presidente da instituição, Caroline Alves.

Ela destaca ainda que o fomento à ciência não se restringe a um único momento ou aporte financeiro, mas se estende por toda a trajetória do pesquisador e de seus projetos.
“A gente sabe que é um investimento de longo prazo, desde o momento do laboratório ela já começa a ser incentivada como nossa bolsista, depois ela entra no investimento que é de bancada, depois no investimento de insumos para manter o laboratório, até a chegada da entrega final, que muitas das vezes é o produto”, enumera.
Quais os próximos passos?
Apesar dos resultados promissores obtidos em pacientes acompanhados pela UFRJ, a polilaminina ainda não tem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso clínico em larga escala.
Em nota ao Agenda do Poder, a agência informou que aguarda dados complementares dos estudos pré-clínicos — testes realizados em laboratório e em modelos animais, que são indispensáveis para avaliar a segurança do produto antes de qualquer ampliação para seres humanos.
Segundo a Anvisa, os primeiros dados foram submetidos no final de 2022 e início de 2023. Desde então, a agência tem mantido reuniões técnicas com a farmacêutica responsável pelo desenvolvimento, orientando sobre os requisitos necessários. O processo em análise é justamente o de avaliação da proposta de ensaio clínico em humanos com a polilaminina.
“Ou seja, não há solicitação referente a este estudo aguardando aprovação da Anvisa. Existe um processo ainda com dados que precisam ser complementados pela empresa”, enfatiza.
Até lá, não é possível fazer qualquer afirmação definitiva quanto à eficácia e à segurança da substância. A agência reforça que esse é um caminho padrão no desenvolvimento de novos medicamentos.
“Este é um processo normal quando se trata da avaliação de candidatos a medicamentos, visto que a ciência é dinâmica e incerta”, destacou o órgão.
A esperança é a última que morre
Bruno ainda tem algumas limitações nos movimentos, no entanto, entende perfeitamente a grandeza da sua evolução.
“Ainda tenho sequela nas pontas dos dedos, mas acho que o mais difícil mesmo foi a terapia ocupacional. Todo mundo que passa por um acidente desses vai tendo pequenas conquistas que, na verdade, são muito grandes. Quando eu consegui segurar um talher foi uma grande conquista, quando eu consegui escovar o dente sozinho, fiquei muito feliz, quando consegui fazer xixi sozinho, sem ter que usar sonda, também fiquei muito feliz”, se emociona.
As notícias de avanço do estudo encheram de esperança milhares de pacientes que, assim como o Bruno, sonham em recuperar os movimentos perdidos após um acidente.
“A nossa ideia, e isso está muito em função do resultado que nós obtivemos em cães com lesões crônicas, é que a regeneração possa ser estimulada mesmo em tempos mais longos, até anos. Agora, com certeza, o efeito vai ser melhor quanto mais cedo [for feito o tratamento]”, explica a cientista.
As próximas etapas do estudo acontecerão no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-USP) e na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Nessas unidades, os participantes serão pacientes com lesões muito agudas — geralmente entre o terceiro e o quarto dia após o trauma.
“A gente tem critérios de inclusão, então o paciente tinha que precisar de cirurgia, porque nossa proposta inicial era injetar durante a cirurgia de descompressão. Tem que ter três dias de trauma, que a gente acabou expandindo até cinco, mas sempre poucos dias. A lesão tem que ser completa, porque só nos casos de lesões neurológicas completas é que a gente pode dizer que se melhorar, foi o tratamento”, destaca Tatiana.
Sobre a esperança, a professora foi enfática: “Nunca é demais! Se temos esperança, sempre podemos ir mais longe. A gente não tem a cura, isso também é um recado. Mas eu acho que podemos ter esperança, porque acredito que o que temos até agora já sinaliza que tem uma coisa nova e boa”.


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