Dom Pedro II, caso você não saiba, tinha aquele jeitão sério, mas nas internas era chegado num copo. Em especial de um tal de “Licor de Carapebus”, uma mistureba de cachaça com hortelã, erva-doce, anis, limão, canela, gengibre e ervas misteriosas das restingas de Carapebus, tão secretas quanto a fórmula da Coca-Cola. Mas o tempo é um inimigo sorrateiro, e essa pequena cidade do litoral do Rio de Janeiro parece ter sido esquecida pela marcha da modernidade. Mas, quem decide dar um pulo lá, descobre um mix curioso de antigos engenhos, igrejas empoeiradas, ferrovia aposentada e praias de restinga.

Visitar Carapebus é fazer uma imersão em uma Brasil profundo e autêntico. É um destino para quem valoriza mais as histórias contadas pelas paredes rachadas de seus antigos, impontes e a abandonados empreendimentos do que pelos guias turísticos; e para quem acredita que uma praia deserta e uma lagoa silenciosa valem mais que qualquer infraestrutura cinco estrelas. Ela é, em suma, uma aula de história e humildade com direito a banho de mar. 

Aqui, as ruínas têm mais dignidade do que muitos prédios moderninhos. E é por isso que Carapebus carrega o que muitos destinos turísticos gastam milhões para fingir: história de colonização, herança da cultura açucareira, estação de trem transformada em centro cultural e natureza que exige mais respeito do que apenas selfies.

Prédio histórico do Cine Carapebus está abandonado e em ruínas | Crédito: Reprodução

História

A ocupação da área que hoje é Carapebus começou em 1627, quando a Coroa Portuguesa distribuiu terras entre o Rio Macaé e o Cabo de São Tomé aos chamados “sete capitães”, mercenários que expulsaram os franceses da Baía de Guanabara.

Embora só tenha virado município independente na última década do século XX, sua trajetória remonta aos tempos coloniais, quando era uma simples freguesia. Durante séculos, viveu sob a asa de Macaé, sendo um importante distrito responsável por uma significativa produção agrícola, especialmente a cana-de-açúcar.

Sua emancipação foi o reconhecimento oficial de uma identidade consolidada. Carapebus não surgiu do nada; ela simplesmente decidiu, um tanto tardiamente, se sentar à mesa dos adultos, trazendo na bagagem um vasto patrimônio histórico e cultural que muitas outras cidades gostariam de ter.

Já o que Carapebus quer dizer, pra variar, dá discussão entre quem estuda tupi. Para alguns significa algo como “rio ou água de carapeba (ou acará-peba)”. Ou seja: os indígenas prestaram sua homenagem a um peixe (“carapeba/acará”). Para outros, significa, de forma menos glamourosa, “lugar de capim” ou “capim que flutua”. 

Faz mais sentido. Esta nomenclatura é um retrato bem mais fiel e despretensioso da paisagem local, dominada por restingas e campos de vegetação rasteira próximos à lagoa que também batiza a cidade.

As ruínas do Alambique de Itaquira

Todo mundo conhece a história da tal fórmula secreta da Coca-Cola. O que poucos sabem é que o Brasil Imperial teve uma versão igualzinha, porém beeeem mais alcóolica e com receita tão misteriosa quanto a do refrigerante.

Entre 1872 e 1879 o Alambique de Itaquira, em Carapebus, foi um dos mais importantes engenhos de aguardente da região, testemunhando o apogeu e o declínio da indústria alcoólica local. Mas além da Marvada, ele se especializou na fabricação de um licor de altíssima qualidade, destilado a partir da cana-de-açúcar e aromatizado com ervas e frutas nativas da região. O nome era prosaico “Licor de Carapebus”.  

Segundo registros históricos do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, o licor ganhou fama nos salões da Corte Imperial. Ele era considerado uma iguaria, um produto de luxo que seguia de barco de Macaé para a Guanabara, onde era consumido pelo próprio D. Pedro II, que era bom de copo. 

Hoje, o que restou foi engolido pela vegetação, criando um cenário poeticamente decadente. As chaminés e tanques, outrora fervilhando de atividade, agora são pouso para aves e tema para fotografias melancólicas.

Alambique de Itaquira

O que é a sede da antiga Fazenda de São Domingos?

Erguida em 1863, a sede da Fazenda São Domingos é um monumento à opulência do ciclo cafeeiro e canavieiro e um dos marcos históricos de Carapebus.

Sua arquitetura imponente, com linhas neoclássicas e detalhes em madeira, era o centro nervoso de uma vasta produção. O casarão era a representação física do poderio econômico de seus proprietários.

Hoje, a edificação sobrevive como um belo e melancólico retrato de uma era finda. Tombada, ela não abriga mais o burburinho dos barões do café, mas permanece de pé, desafiando o tempo e servindo como um cenário perfeito para fotografias que precisam de uma dose de nostalgia e elegância decadente.

Se a Igreja da N.S. da Glória é mais nova, por que é mais badalada que as outras?

Sua importância não reside na antiguidade, mas no seu papel central na vida da comunidade. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória, concluída em 1955, é o coração espiritual e social de Carapebus. É para seus degraus que a cidade converge nas festas religiosas, especialmente na da padroeira.

Possui arquitetura em estilo neogótico, com torres pontiagudas que se destacam no skyline baixo da cidade, e oferece um contraponto celestial à horizontalidade da planície. Ela não é apenas uma casa de orações; é um ponto de referência, um local de encontro e a prova de que a fé carapebuense, mesmo em meio a tantas ruínas do passado, continua firme, forte e com um endereço fixo (quase) novo em folha.

Então qual igreja é a mais importante historicamente?

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no distrito de Caxanga, é uma das joias mais antigas de Carapebus. Sua construção, que se estendeu de 1858 a 1875, reflete a mão de obra escrava utilizada no período. Em estilo colonial, com fachada sóbria e interior simplório, ela é a essência da fé rural e resistente.

Contam as crônicas locais que o templo era tido como um dos mais belos da região. Havia até uma torre, mas, com o perdão da piada, ela teria desabado no dia da conclusão da obra. Ambição arquitetônica + terreno traiçoeiro = igreja sem torre.  

Erguida em uma colina, domina a paisagem do Caxanga com uma solidez que beira a teimosia. Tombada pelo Inepac, a igreja é um monumento à perseverança. Enquanto usinas caíam e estações fechavam, a pequena igreja permaneceu, de portas abertas, como um farol de tranquilidade e história para quem se aventura a conhecê-la.

A chegada do trem

Originalmente a Estrada de Ferro Macaé e Campos inaugurou o trecho até Carapebus em 1874.  A estação ajudou a transformar a então vila rural em um centro de maior circulação, atraindo moradores, comerciantes e imigrantes. 

Nos anos 1940 ganhou a arquitetura característica das estações da época: linhas simples, telhado em quatro águas e a presença marcante do relógio, que ditava o ritmo não só dos trens, mas da própria vida local.   

Com o fim dos trens de passageiros no início dos anos 1980 (restando apenas carga), a estação perdeu sua função original. Mas foi restaurada e hoje abriga a Estação Cultural de Carapebus: espaço para oficinas de teatro, música, artesanato, exposições. Ou seja: trocou a locomotiva pelo violão. 

Estação Cultural de Carapebus virou polo para oficinas de teatro, música, teatro e exposições | Crédito: Reprodução

Qual a história da Usina de Açúcar de Carapebus?

Fundada em 1928, ela foi a grande dama da economia local por décadas. Suas imponentes instalações, com maquinário pesado e uma chaminé que dominava o horizonte, simbolizavam o poder da indústria canavieira. Ela era o coração que bombeava riqueza e empregos para a região, um gigante de concreto e aço.

A usina não está mais em operação. O declínio do setor açucareiro no estado a levou à falência, e o que restou foram suas carcaças, hoje envoltas por um silêncio pesado.  Quase um monumento à efemeridade dos ciclos econômicos e uma paisagem industrial testemunha silenciosa de um tempo em que o açúcar era rei e o futuro parecia garantido com trens e engenhos.

O velho cinema

Em 1947 Carapebus realizou o sonho de modernidade de toda cidade pequena, um point de cultura, lazer e um lugar onde as famílias iam tomar sorvete e assistir a filmes em preto-e-branco. A fachada art déco do Cineteatro Carapebus era um símbolo de modernidade e sofisticação em pleno interior fluminense.

Mas o avanço das tecnologias de entretenimento moderno e as mudanças de hábito condenaram suas poltronas ao silêncio. No entanto, o prédio histórico, também tombado pelo Inepac, permanece, mesmo em ruínas, na memória afetiva da cidade.

 O que mais tem para fazer por lá? 

A Praia de Carapebus é o cartão-postal vivo do município. Com mais de 30 km de extensão, é um espetáculo de dunas móveis, cobertas por vegetação de restinga, que constantemente redesenham a paisagem. O mar é forte, ideal para o surfe, e as areias são quase desertas. Há um estreito cordão de restinga paralelo à praia que separa o oceano de diversas lagoas e lagunas, conferindo à região uma paisagem tão diferente que parece de outro Brasil.  

E, bem, além de “colecionar” ruínas históricas e contemplar a passagem lenta do tempo, Carapebus oferece ainda o privilégio de explorar ecossistemas únicos. A Lagoa de Carapebus, parte do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, é perfeita para um passeio de barco, stand-up paddle ou simplesmente para observar a rica avifauna local. É um safari ecológico a poucos quilômetros da agitação.

Para os mais atléticos, há a opção de caminhadas ou trilhas de bike pela restinga, explorando as dunas e a vegetação nativa. A gastronomia local, é claro, é focada nos frutos do mar, e um almoço em um restaurante simples à beira da lagoa ou da praia, regado a um peixe frito na hora, é um programa imperdível.

Praia de Carapebus é um dos pontos turísticos: espetáculo de dunas móveis e areias quase desertas | Crédito: Reprodução

Melhor época para visitar — e por quê

O verão, compreendido entre dezembro e março, é a época mais badalada, com dias ensolarados e ideais para o banho de mar. No entanto, é também quando a cidade recebe seu pico de visitantes. O que, cá entre nós, em Carapebus ainda é uma versão bastante amena do que cariocas e simpatizantes entendem por “aglomeração”.

Para quem busca a verdadeira essência de tranquilidade carapebuense, o inverno (de junho a setembro) é a escolha perfeita. O clima ameno é ideal para longas caminhadas na praia deserta e para explorar as atrações históricas sem suar a camisa. É a chance de ter Carapebus quase que só para si, exatamente como o tempo gosta de deixá-la.

Como chegar?

Partindo da Guanabara, Carapebus está a cerca de 210 quilômetros, o que dá uma viagem de carro por volta de duas horas e meio. De ônibus, há saída diárias da Rodoviária do Rio com tarifas a partir de R$ 95.

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