A imagem mais reproduzida do mundo: o retrato de Che Guevara completa 65 anos como símbolo político

Fotografia feita por Alberto Korda em 1960 atravessa gerações e ainda inspira revoluções

Em 2025, a famosa fotografia de Che Guevara, registrada pelo cubano Alberto Korda, completa 65 anos e mantém vivo seu impacto como símbolo político global. A imagem, feita em Havana em março de 1960, é considerada a fotografia mais reproduzida da história, segundo o Instituto de Arte de Maryland (EUA). A reportagem é do jornal O Globo.

O retrato que imortalizou o semblante sério e o olhar penetrante do líder da Revolução Cubana foi feito durante o funeral das vítimas da explosão do navio La Coubre, que matou mais de 100 pessoas no porto de Havana. O fotógrafo Alberto Díaz Gutiérrez, conhecido como Korda, trabalhava para o jornal Revolución e foi escalado para registrar o evento — sem imaginar que clicaria uma das imagens mais icônicas do século XX.

“Estava fotografando as pessoas na tribuna quando, de repente, vi o Che com esse olhar fixo no infinito, essa expressão decidida. E pensei: ‘será um ótimo retrato de sua personalidade’”, contou Korda em entrevista à AFP, republicada por O Globo em 1989. Ele ainda admitiu: “Nunca pensei que a minha foto rodaria o mundo”.

Na época, a fotografia foi desprezada pelos editores cubanos, que preferiram destacar imagens de Fidel Castro e dos intelectuais franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, presentes no funeral. Korda, porém, guardou a imagem, que passou a ter circulação global após a morte de Che em 1967, na Bolívia.

O retrato ganhou nova vida ao ser transformado em pôster pelo artista irlandês Jim Fitzpatrick e, mais tarde, reinterpretado por Andy Warhol, nos moldes dos retratos de celebridades como Marilyn Monroe. Décadas depois, em 2003, Madonna usou a estética da imagem de Che na capa do álbum American Life.

Eduardo Marchesan, professor e pesquisador da linguagem fotográfica de Korda, destaca o impacto da obra: “O mundo conheceu a Revolução Cubana a partir dos trabalhos de Korda. Ele levou a estética da moda e da publicidade ao jornalismo, sem perder a sensibilidade artística”. Marchesan chegou a entrevistar Diana Diaz, filha do fotógrafo, em Cuba, e afirma que a amizade entre Korda, Che e Fidel Castro era íntima e marcada por afinidade ideológica e pessoal.

O retrato de Che, vestido com boina e estrela, ultrapassou fronteiras políticas e temporais. Nos anos 1960, virou estandarte em protestos na Europa e nos Estados Unidos. Até hoje, aparece em camisetas, bandeiras e murais em manifestações pelo mundo, usado como emblema contra autoritarismos, desigualdade social e opressão — mesmo que muitas vezes descolado de seu contexto histórico original.

Apesar da massiva reprodução, Korda nunca foi amplamente reconhecido por direitos autorais. Em 1967, o empresário e editor italiano Giangiacomo Feltrinelli obteve a foto diretamente com Korda, sem pagamento, com o objetivo inicial de ilustrar o diário do guerrilheiro. Após a morte de Che, Feltrinelli comercializou milhões de cópias da imagem em pôsteres e livros, sem atribuir crédito ao autor.

Em 2000, Korda se manifestou pela primeira vez contra o uso indevido de sua imagem — especificamente em uma campanha publicitária de vodca, que considerou ofensiva à memória de Che. “Utilizar a imagem de Che para vender vodca é uma ofensa. Ele nunca bebeu”, protestou o fotógrafo ao The Guardian. Korda entrou na Justiça e obteve uma indenização.

“Sou partidário dos mesmos ideais de Che, por isso não me oponho à reprodução da imagem para promover a justiça social, mas não posso aceitar seu uso comercial inadequado”, declarou, pouco antes de falecer em 2001, aos 72 anos.

A imagem de Che Guevara, eternizada pelo clique de um fotógrafo de moda convertido ao fotojornalismo, continua a ecoar como um símbolo de inconformismo e utopia — um ícone gráfico que sobrevive às décadas e às contradições de sua difusão.

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