Desde antes de ter asfalto, Brasília já tinha visitantes não identificados sobrevoando o cerrado. Nos primeiros anos da nova capital, ainda mal inaugurada, relatos de luzes estranhas no céu começaram a circular entre operários, religiosos e até parlamentares. Enquanto Oscar Niemeyer erguia suas cúpulas, algo que ninguém sabia nomear parecia contemplar a obra de cima, com distância e provável superioridade arquitetônica. Para além das zonas norte e sul da capital, havia uma terceira dimensão, repleta de objetos de geometria incerta e comportamento inexplicável.
A ufologia brasileira tem em Brasília um dos seus capítulos mais ricos e, ao mesmo tempo, mais negligenciados pela história oficial. Desde o início da construção da capital, já se ouvia falar de avistamentos de estranhos objetos metálicos durante o dia e objetos luminosos e esféricos à noite. Comentava-se, na época, que o próprio presidente Juscelino Kubitschek teria visto um desses objetos sobrevoando a região. A informação é do ufólogo Thiago Luiz Ticchetti, presidente da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU). Nenhum registro oficial confirma a versão sobre JK, mas ela sobrevive no folclore local com a resistência das lendas bem nutridas.
O que existe, porém, é documentado: relatórios militares, reportagens de jornal, depoimentos de policiais, pilotos da Força Aérea Brasileira e civis de variados pesos biográficos. Desde a regulamentação da Lei de Acesso à Informação, em maio de 2012, a Defesa havia recebido 107 pedidos de entidades ligadas à ufologia para a publicação dos documentos. Hoje, estão disponíveis no Arquivo Nacional mais de 10 mil páginas, que abarcam relatos de avistamentos e investigações sobre o assunto. Brasília, cidade planejada para ser o futuro, parece ter atraído o interesse de algo que, por ora, não se enquadra em nenhum plano diretor.
A nova moda dos UFOS em 2026
O debate sobre OVNIs, UFOS ou UAPs no Brasil voltou com força em 2026, impulsionado por dois acontecimentos distintos. No Sul do país, o influenciador digital Mayk Leão compartilhou o registro de um objeto não identificado com luzes atípicas em formato circular pairando sobre uma região de mata e serra em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba. O influenciador relatou ter percebido uma forte agitação entre os animais da propriedade antes do avistamento e descreveu ter ouvido ruídos estranhos, semelhantes a tons metálicos sobrepostos. A Força Aérea Brasileira (FAB) informou que não registrou qualquer ocorrência anormal no espaço aéreo da região na data mencionada.
Enquanto isso, em maio de 2026, o governo dos Estados Unidos, por ordem do presidente Donald Trump, divulgou um lote de 161 documentos ultrassecretos sobre OVNIs, incluindo relatos de astronautas da missão Apollo. As transcrições mostram que Buzz Aldrin, da Apollo 11, viu “uma fonte de luz bastante brilhante” durante a viagem à Lua. Os arquivos, que abrangem décadas, foram disponibilizados online e incluem memorandos militares e relatos de civis que afirmam ter testemunhado objetos voadores de origem extraterrestre. A divulgação faz parte de um esforço global de transparência sobre o fenômeno, que também mobiliza pesquisadores brasileiros.
E isso sem falar na expectativa gerada em torno do próximo filme do diretor norte-americano Steven Spielberg, Dia D, que será lançado semana que vem e aborda a existência de vida extraterrestre e a repercussão que isto causa na sociedade.

Padre Raimundo e sua câmera lambe-lambe (1959)
O mais antigo registro de um avistamento de OVNI especificamente vinculado à região de Brasília, segundo a ufologia brasileira, envolve um personagem cuja identidade permanece parcialmente no anonimato. Um dos primeiros casos de avistamento de OVNIs em Brasília teria sido registrado em 1959, por um religioso identificado apenas como “padre Raimundo”. Segundo o ufólogo Thiago Ticchetti, o padre fotografou o OVNI com uma câmera “lambe-lambe”, na região do Núcleo Bandeirante. O Núcleo Bandeirante era então chamado de “Cidade Livre”, o acampamento improvisado que antecedeu a capital planejada, um lugar de barro, barracos e, ao que tudo indica, visitas não agendadas.
A imprecisão da data é relevante: algumas fontes situam o episódio em 1959, enquanto outras o colocam em 1960. O site Conexão UFO, por exemplo, localiza o registro do padre Raimundo no ano de 1960, descrevendo a câmera e o local com os mesmos detalhes. Em todo caso, seja 1959 ou 1960, tratava-se de um período em que a capital mal havia sido inaugurada e o céu do cerrado ainda não disputava atenção com satélites, drones ou a constelação Starlink. A fotografia existe, está catalogada no acervo do ufólogo Ticchetti, e representa um dos raros casos em que um registro imagético acompanha um relato tão recuado no tempo. Mundo UFO
Quanto à trajetória posterior do padre Raimundo e ao destino do negativo original, as pesquisas não produziram dados verificáveis. A lacuna é, em si, parte do mistério.

Onze reportagens, um jornal e o disco voador com hora certa (1960)
Por óbvio, nenhum jornal cobriu melhor os UFOs de Brasília como o Correio Braziliense, o diário que nasceu junto com a cidade, em 21 de abril de 1960. De 1960 a 1977, o veículo publicou onze matérias sobre objetos voadores não identificados em Brasília. Com o título “Disco voador no céu de Taguatinga”, a publicação apresenta o relato do dia 29 de novembro do mesmo ano, quando, às 21h30, um objeto não identificado, parecido com uma bola de fogo, atravessou o céu da cidade. A princípio, pensou-se que o objeto fosse uma estrela cadente, porém o trajeto em zigue-zague em direção a Anápolis despertou a atenção dos observadores, que se reuniram para acompanhar as movimentações do objeto incomum, que não se assemelhava a nenhuma estrela.
O fenômeno foi tão regular que mereceu um título com ar de tabela de horários: “Taguatinga: discos voadores em hora certa”. As primeiras aparições aconteceram em Taguatinga, em novembro de 1960, com três avistamentos em dias diferentes, mas na mesma hora. As testemunhas garantiram que não se tratava de ilusão de ótica nem de fenômeno corriqueiro, e as aeronaves que logo depois sobrevoaram a área em direção a Anápolis deram ao episódio um sabor de perseguição real.

Alexânia, a fazenda das assombrações e a interdição da Aeronáutica (1969)
Em março de 1969, Brasília acordou para um escândalo ufológico nos seus arredores imediatos. O Correio revelou aparições misteriosas em Alexânia (GO): “Disco voador, ‘assombração’ ou ‘coisa de outro mundo’, o certo é que há cerca de três meses aparecem objetos voadores não identificados numa fazenda a 25 quilômetros de Alexânia, Nova Florida, o que está atraindo o interesse da imprensa e a curiosidade do público, principalmente de Brasília, Anápolis e Goiânia, provocando, até, por dever de ofício, a interdição da área pela Aeronáutica.” A edição era de 7 de março daquele ano. A Aeronáutica, ao cercar a área para investigação, fez o que qualquer instituição racional faz diante do inexplicável: criou um perímetro.
Uma fazenda a 25 quilômetros de Alexânia chamou atenção de moradores da região, de cidades vizinhas e da imprensa, todos indo ao local ao entardecer e início da noite para ver um objeto voador que emitia luzes intensas e intermitentes. De acordo com relatos da época, os objetos foram vistos a uma distância de 10 a 20 metros do solo. O caso era suficientemente robusto para atrair figuras de calibre nacional.
A repercussão levou o General Moacyr Uchôa, um dos maiores nomes da parapsicologia e da ufologia na época, até o interior de Goiás. O pesquisador narrou a história nos livros “A Parapsicologia e os Discos Voadores: o Caso Alexânia” (1973) e “Mergulho no Hiperespaço: Dimensões Esotéricas na Pesquisa dos Discos Voadores” (1976). Dois livros dedicados a um único episódio rural de Goiás são, por si só, uma medida do impacto que aquela fazenda deixou no imaginário ufológico brasileiro.

Eduardo Stuckert e o OVNI que baixava sobre a Asa Sul às 20h (1977)
Em 1977, Brasília ganhou seu avistamento mais bem documentado do ponto de vista fotográfico, e o responsável pelas imagens carregava um sobrenome que, nos meios de imprensa da capital, funcionava como garantia de idoneidade. Em 1977, ao visitar um amigo na SQS 404, o fotógrafo Eduardo Stuckert, na época com 20 anos, conseguiu captar um evento que começou a assustar moradores da SQS 205. Na época, um objeto voador aparecia todos os dias, por volta de 20h, sobrevoava os blocos e começava a descer pelas entrequadras até sumir subitamente antes de tocar o solo.
A lente de que Stuckert dispunha no momento, de 50 mm, não permitiu reproduções satisfatórias. Mas, curioso, ele resolveu armar no quarto do amigo, sobre tripé, uma Nikon F-2 com teleobjetiva de 400mm. No dia seguinte, exatamente às 20h, conseguiu registrar o objeto, que demorou duas horas para se esconder, nesta segunda aparição. A foto foi publicada no Correio Braziliense e teve repercussão suficiente para convocar uma investigação. A publicação teve tamanha repercussão que o fotógrafo foi convocado para prestar depoimento a um grupo de pesquisadores.
O jornal contextualizou o assunto com ironia ilustrada: em 1977, a publicação “Os discos rondam o Planalto” colocou o tema em pauta com tom crítico, argumentando que “um fenômeno pesquisado com os maiores rigores da ciência, os Objetos Voadores Não-Identificados, só se prestam a exercícios de mistificação quando quem manipula o tema apenas visa a obter lucros fáceis com teses estapafúrdias”. O desfecho científico do episódio foi decepcionante para os entusiastas: especialistas afirmaram que o registro mostrava o planeta Vênus. Mas nada ficou provado.
O caça que tentou abater um OVNI no céu de Brasília (1977)
Enquanto a polêmica das fotos de Stuckert ainda esquentava os laboratórios e as redações, o céu da capital viveria, alguns meses depois, um episódio militarmente muito mais sério. Na noite de 29 de maio de 1977, um fenômeno alertou a Força Aérea Brasileira. Foi registrada a presença de um objeto voador não identificado que sobrevoou o céu de Brasília, passando sobre o Palácio da Alvorada e a Esplanada dos Ministérios. A conversa entre o piloto de um caça da FAB e a torre de comando, relatada em documentos mantidos secretos pelas Forças Armadas por décadas, mostrava que algo anormal estava ocorrendo no espaço aéreo do país.
O diálogo, depois transcrito e arquivado, é de antologia. A torre perguntou ao piloto se avistava tráfego na sua proa, informando velocidade pequena, altitude e tipo desconhecidos. “Negativo, nada avistado”, retornou o aviador. Logo em seguida, a torre informou: “Apareceu novamente, está sobre o aeroporto.” O piloto então confirmou: “Positivo, consigo vê-lo. Tem uma luz azul, como se fosse uma estrela, mas está se deslocando.” O piloto ainda tentou alvejar o objeto, mas não conseguiu atingi-lo. Um segundo piloto, voando nas proximidades, sugeriu que poderia ser o planeta Vênus, ao que o primeiro respondeu pelo rádio que conseguia ver os dois ao mesmo tempo, o objeto e Vênus, concluindo tratar-se de um disco voador. O objeto chegou a ser detectado pelos radares do Centro de Aproximação do aeroporto de Brasília, mas até hoje ninguém sabe o que era.

O objeto que pairou sobre as águas da Barragem do Paranoá (1996)
A Barragem do Paranoá, obra de engenharia que transformou o cerrado em espelho d’água, tornou-se também cenário de um dos avistamentos mais movimentados da história ufológica do Distrito Federal. O episódio de 21 de agosto de 1996 envolveu, além de civis, uma patrulha policial inteira. A região onde está localizada a represa do Paranoá, palco de outros acontecimentos relativos à aparição de UFOs, foi novamente alvo de um episódio envolvendo não só os empresários Hildo de Oliveira, Agamenon Nascimento e Antonio Rodrigues Cassimiro, como também cerca de 20 policiais militares. O fato aconteceu quando os três empresários retornavam de Palmas (TO), por volta das 04h, quando observaram um estranho fenômeno no céu.
O UFO acompanhava o veículo a uma distância aproximada de 200 metros. Quando estavam próximos à Barragem do Paranoá, o objeto parou sobre o lago, a uma distância de 20 metros de altura. De acordo com o relato do senhor Hildo, nesse instante houve uma grande movimentação na água. A essa altura, o objeto pousou sobre algumas pedras. Nascimento desceu do carro para ir verificar de perto a luz, porém retornou logo em seguida. Hildo ligou para o número 190, e em menos de 20 minutos várias viaturas chegaram ao local, inclusive uma ambulância. O filho de um dos empresários, Marcelo Oliveira, fotógrafo, chegou a tempo de registrar o objeto. Segundo relato de um dos policiais, o OVNI apresentava forma retangular na tela do radar e seguia em velocidade calculada em 700 km/h, com uma forte luz azul mudando para vermelha.


Deixe um comentário