Se o Méier fosse uma série da Netflix, o primeiro episódio começaria com jesuítas plantando cana e brigando com a Coroa Portuguesa. Depois, num plot twist digno de um blockbuster de longa temporada, Dom Pedro II resolve presentear seu brother Augusto Duque Estrada Meyer com um pedaço generoso dessas terras. Resultado: o que era canavial virou bairro, ganhou estação de trem e, no vai da valsa, um nome que até hoje carrega a marca da amizade imperial.

Mas não pense que Augusto era apenas um sortudo com amigos poderosos. O homem herdou terras que iam da atual Rua Dias da Cruz até a Serra dos Pretos-Forros e ainda ostentava o título de “camarista”, espécie de camareiro de luxo do imperador, com direito a chave dourada e acesso VIP aos bastidores da corte. Foi tanto prestígio que, além de batizar o bairro, seu nome virou rua. E, convenhamos, não é todo mundo que consegue meter esse duplo twist carpado no mapa da cidade.

O tempo passou, os trilhos chegaram e o Méier virou palco de histórias curiosas: tem leão de bronze que garante sorte a quem ousa acariciar suas partes íntimas, coreto tombado onde nasceu a Igreja Universal e até o primeiro shopping center do Brasil (segundo os moradores, claro, porque a associação oficial insiste em dar o título a São Paulo). Mas entre bares, cultura e lendas urbanas, o bairro segue firme e forte como a autoproclamada “capital do subúrbio”. Faz sentido.

Jardim do Méier, um dos marcos do bairro | Crédito: Reprodução

História

O território onde hoje se encontra o Méier era uma fazenda de cana-de-açúcar administrada pelos jesuítas.  Após desavenças com a Coroa Portuguesa, os jesuítas foram expulsos, e as terras foram divididas em três: Engenho Novo, Cachambi e São Cristóvão.

Em 1884, Dom Pedro II deu parte dessas terras ao seu amigo Augusto Duque Estrada Meyer, e foi assim que a região começou a se transformar de um canavial distante para um núcleo que logo ganharia trilhos, trilhas e vida suburbana.

Quem foi Augusto Duque Estrada Meyer?

Augusto era filho de Miguel João Meyer, um comendador de origem portuguesa-alemã, considerado um dos homens mais ricos da capital brasileira na virada do século XIX. Amigo da família imperial, recebeu de Dom Pedro II parte das terras dos jesuítas.

Além do mimo imperial, ele ainda tinha na região vastas terras herdadas de seu pai, que iam desde a antiga Estrada Grande (hoje Rua Dias da Cruz) até a Serra dos Pretos-Forros.

Essas terras formaram a base para o que viria a ser o bairro, e foram loteadas, muradas e organizadas por sua família nos anos seguintes.

Por que ele ficou conhecido como Camarista Meyer?

Durante o Brasil Império, um camarista era um fidalgo que servia diretamente ao imperador, praticamente como um camareiro. Portava uma chave dourada como insígnia e participava de cerimônias e cortejos.

No contexto imperial, isso virou uma posição honorífica. Os camaristas tinham acesso íntimo aos bastidores da corte e podiam exercer influência, servindo às demandas privadas e cerimoniais da monarquia.

Além de batizar o bairro, Augusto ainda emprestou seu nome para a Rua Camarista Méier.

Por que se diz que ele está diretamente ligado à construção da estação do Méier?

Porque a estação, inaugurada em 13 de maio de 1889 pela Estrada de Ferro Central do Brasil foi construída justamente nas terras da família Meyer.

Quando os filhos de Augusto doaram parte dessas terras para a ferrovia, fizeram questão de que a parada se chamasse “Meyer” em homenagem ao pai — e que esse nome jamais fosse mudado, sob pena da doação perder valor. O nome, porém, foi aportuguesado.

No começo os passageiros caminhavam sobre os trilhos para embarcar, pois não havia plataforma. Só em 1903 ganhou prédio de alvenaria. Em 1937 a estação foi eletrificada e modernizada, e é por essas e outras, que se pode dizer que ela é um marco zero simbólico: sem a ferrovia, o desenvolvimento do Méier provavelmente teria sido diferente.

Que história é essa de que patolar um leão no Méier dá sorte?

Calma, segure o pequeno Tarzan que vive no fundo do seu coração. O “Leão do Méier”, é uma estátua instalada em 27 de maio de 1989 pelo Lions Club na Rua Dias da Cruz. A escultura tem juba, testículos (as partes íntimas) e virou point cultural.

Em uma versão Zona Norte carioca do “Charging Bull” de Wall Street, sabe-se lá de onde, surgiu uma lenda urbana garantindo que acariciar as partes íntimas do leão dá sorte.

O leão, claro, permanece impassível diante dos carinhos e da superstição.

A Igreja Universal nasceu aqui?

Exatamente. Foi no coreto do Jardim do Méier que Edir Macedo pregou pela primeira vez em 1977, dando início à Igreja Universal.

O coreto, inaugurado em 1916, tem formato hexagonal, sete metros de altura e seis de largura, fica na Praça Jardim do Méier e é o mais antigo da cidade feito em madeira. O local é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) desde 1985.

Coreto do Méier é o mais antigo do Rio | Crédito: Prefeitura do Rio / Divulgação

O que mais tem para fazer por lá?

O bairro é endereço do Imperator, antigo cinemão que virou palco de shows, foi revitalizado e, agora, com o nome oficial de Centro Cultural João Nogueia, foca em atividades teatrais a preços populares.

Para choro e ranger de dentes de tijucanos e de moradores daquela estranha cidade cinza ao sul do Brasil, o bairro tem também o primeiro shopping center do Brasil, que começou a operarem 1963, mas só foi inaugurado oficialmente (e com festa) em 1965.

Mas aqui há uma controvérsia: a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) não reconhece o Méier como o primeiro “shopping center” tradicional, alegando que o Iguatemi São Paulo, inaugurado em 1966, tinha mais as características que a associação considera como de shopping do que o equipamento carioca. Gente chata…

Além disso, há bares, para todos os gostos e uma vida cultural intensa, que fazem do Méier a autoproclamada “capital do subúrbio”.

Centro Cultural João Nogueira, o antigo Imperator | Crédito: Reprodução

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