A força da polarização e a centralidade de Lula e Flávio Bolsonaro

Levantamento mostra Lula à frente de Flávio Bolsonaro, confirma a força da polarização e indica que a corrida presidencial segue concentrada nas duas principais lideranças

Antes da campanha ganhar as ruas, as pesquisas eleitorais oferecem mais do que uma estimativa de votos. Elas registram estados da sociedade, identificam identidades políticas e revelam a forma como os brasileiros organizam suas expectativas sobre o futuro. Cada percentual é um indicador da dinâmica social e das forças que disputam a direção do país.

A pesquisa Nexus, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-08521/2026, revela que a polarização permanece como a principal característica da política brasileira. No voto espontâneo, Lula aparece com 38%, enquanto Flávio Bolsonaro alcança 27%. No primeiro turno estimulado, Lula registra 42% e Flávio Bolsonaro oscila entre 34% e 35%. No segundo turno, Lula vence por 47% a 44%.

Os números mostram que, até o momento, nenhum outro nome consegue romper a centralidade dessa disputa. Ronaldo Caiado aparece com até 5%, Renan Santos chega a 4% e Romeu Zema registra cerca de 3%. Todos permanecem distantes da capacidade eleitoral demonstrada por Lula e Flávio Bolsonaro. A sucessão presidencial continua organizada em torno dessas duas lideranças, que concentram a maior parte das preferências do eleitorado e estruturam o debate político nacional.

Do ponto de vista sociológico, Lula mantém uma coalizão social construída ao longo de décadas. Seu desempenho é mais forte entre mulheres, idosos, beneficiários do Bolsa Família, eleitores de menor renda e moradores do Nordeste. Flávio Bolsonaro, por sua vez, confirma a permanência do bolsonarismo como um fenômeno político consolidado, com maior presença entre homens, evangélicos, eleitores do Sul e do Centro-Oeste e segmentos de renda média.

Outro aspecto relevante é a consistência desses eleitorados. Entre os que declaram voto em Lula, 83% afirmam que sua decisão está tomada. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, esse índice alcança 76%. O voto deixa de representar apenas uma escolha eleitoral e passa a expressar uma identidade política relativamente estável.

A pesquisa também identifica cerca de 20% de brasileiros que não se alinham integralmente a nenhum dos dois polos. Esse grupo representa a principal área de disputa da campanha e poderá influenciar o resultado final, embora ainda não tenha produzido uma alternativa capaz de competir com as duas principais candidaturas.

A vantagem de Lula é real, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Entretanto, ela não configura uma situação confortável. A diferença de três pontos na simulação final demonstra uma liderança consistente, mas também evidencia que a eleição permanece competitiva.

A principal conclusão é clara. Até este momento, nenhum nome supera Lula e Flávio Bolsonaro na capacidade de mobilizar votos, organizar identidades políticas e representar projetos nacionais. A eleição de 2026 continua sendo, acima de tudo, uma disputa entre duas lideranças que simbolizam diferentes interpretações da sociedade brasileira e diferentes caminhos para o futuro do país.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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