Por: Manuela Carvalho e Thiago Antunes
Em poucos meses, o morango do amor conquistou corações — e mercados. A mistura simples de morango fresco, brigadeiro branco e calda vermelha viralizou nas redes, lotou feiras, invadiu vitrines e reascendeu a memória afetiva da clássica maçã do amor.
Mais que uma tendência gastronômica, o doce movimentou a cadeia produtiva: elevou o preço do morango, aqueceu a demanda por insumos e transformou a rotina de centenas de confeiteiras, muitas delas mulheres que viram na receita uma chance de renda e autonomia.
O morango do amor não é só sobremesa — é um recorte de como o desejo coletivo molda comportamentos, impulsiona mercados e revela o poder de transformação social por trás de um simples pedaço de fruta coberto de açúcar.
Em Bangu, na Zona Oeste do Rio, a doceira Fabíola Wassita, de 36 anos, vende mais de 100 unidades por dia.
“Comecei a produzir o doce no começo do hype, há 3 semanas atrás. Queria chamar a atenção das pessoas para a minha marca, captar novos clientes, atrair mais olhares. Comecei cobrando R$ 12 e hoje está R$ 14. Se o preço do morango não cair, vou precisar reajustar os valores”, detalha a profissional.
Comida, afeto e desejo
Para a pesquisadora Daniela Neiva, do Núcleo de Estudos sobre Cultura e Alimentação da Universidade do Estado do Rio (Uerj), o sucesso do doce se explica por três fatores: visual, memória e prazer.
“Além do apelo estético, estes alimentos ativam um sistema de recompensa no cérebro. A experiência de consumir e compartilhar algo que viraliza, recebendo curtidas e visualizações, cria um ciclo de consumo, em que o componente emocional tem grande peso. No caso de doces que remetem à infância ou memórias afetivas positivas, o fascínio pode aumentar”, diz.

Essa estética é fator central do sucesso. O morango do amor atual é milimetricamente montado para o feed — vermelho vibrante e cremoso.
“Ele se inspira na clássica maçã do amor das festas juninas, mas é reinventado com a estética das redes sociais. Sua ascensão das redes para o mercado demonstra o poder das tendências digitais para impulsionar negócios. Para além do produto em si, este fenômeno reflete como o valor percebido na alimentação atual está ligado à imagem e à experiência que proporciona”, explica a pesquisadora.
Porta de entrada para empreendedores
Para a analista do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Juliana Sant’Ana, o morango do amor virou uma porta de entrada para muitas mulheres que empreendem com comida em casa.
“Com a febre que virou o morango do amor, com certeza ele é um facilitador para quem quer começar a empreender. Estamos falando, especialmente, de mulheres ou de jovens, mães solos, que buscam uma renda ou até mesmo uma renda extra com uma flexibilidade. É muito comum encontrarmos entre as pessoas que estão começando o empreendedorismo por necessidade, enxergar nos doces uma oportunidade de renda”, detalha.
Mas Juliana alerta: transformar uma tendência em negócio exige mais que seguidores.
“Para os empreendedores que querem surfar nessa onda, é muito importante que eles tenham consciência para não cometer alguns erros que são extremamente comuns. Vamos citar aqui a falta de planejamento financeiro, ignorar a importância do visual, da identidade visual, da embalagem do produto, de não adaptar o produto dele ao gosto do público local”, alerta, ainda pontuando outros fatores: “’Quando essa onda passar, o que eu vou fazer?’ ‘O que eu vou entregar para o meu cliente?’ Por isso a importância da diversificação. E um erro muito grande é não buscar capacitação. Com isso, você limita muito o crescimento do seu negócio.
‘As unidades esgotam no mesmo dia‘

O prato virou o carro-chefe de muitas confeiteiras que já estão no ramo há alguns anos e para outras foi a porta de entrada no mundo do empreendedorismo, como salientado pela analista do Sebrae.
A oportunidade chegou até Sara Araujo, de 23 anos. Ela iniciou no ramo em Cabo Frio, na Região dos Lagos, em 2019, quando engravidou. Com a chegada da pandemia, as vendas caíram gradualmente — até que o ‘morango do amor’ se tornou o impulso que precisava para reerguer o negócio.
“Eu estava em um momento muito difícil da minha vida financeira e espiritual também. Sempre acreditei em Deus e pedi a ele uma resposta. Quando eu vi no Instagram que um doce simples, que eu já sabia fazer, estava em alta, fiquei com esperança de que iria dar certo. Gravei um vídeo mostrando os morangos que produzi e muita gente começou a me pedir, vi que deu super certo”, relembra.
O mesmo aconteceu com Letícia Siqueira, de 24 anos, em São Gonçalo, na Região Metropolitana. Acostumada a vender doces na faculdade, ela aproveitou o período de férias para testar a produção e o sucesso veio logo em seguida.
“Comecei testando receitas, ajustando a calda, o ponto… E os retornos positivos me motivaram muito. Quando percebi que poderia transformar isso em renda, abracei a ideia com tudo e decidi investir. Desde que comecei, todas as unidades esgotam no mesmo dia. A procura só aumenta, e eu venho ampliando a produção e o estoque para acompanhar a demanda”, explica.
Na confeitaria da Fabíola, já são duas pessoas a mais ajudando na produção do doce. “Começamos a produção dos morangos um dia antes, com as massas de brigadeiro. No dia em que vamos montar, higienizamos os morangos, porcionamos as massas, modelamos, banhamos na calda, fazemos o acabamento final e embalamos. Para ser rápido e não atrapalhar o andamento do delivery, cada uma fica responsável por uma etapa”.
Ela apostou em algumas novidades no cardápio: o morango do amor de brigadeiro, uva do amor e morango do amor de doce de leite.

Na cozinha de Cristina Ruffatto, 57, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a produção dos doces não é diária, mas a demanda continua muito alta. “Cada dia que eu fazia, ia aumentando mais a demanda. Já trabalho com confeitaria há 29 anos, essa tendência foi uma coisa admirável no nosso ramo porque deu uma oportunidade muito grande para as pessoas ganharem dinheiro. Desde o pequeno produtor até a pequena confeiteira”.
Comerciantes comemoram sucesso
Na outra ponta da cadeia de produção, lojistas da Central de Abastecimento do Estado do Rio (Ceasa-RJ), o 2º maior entreposto comercial da América Latina, comemoram o boom do produto. A fruta se tornou destaque nas bancas e preferência entre compradores e revendedores.
O comerciante Ygor Martins, 32 anos, responsável pelo Raiz Frutas, referência no comércio de morangos, ressaltou o bom resultado das vendas. Há 15 anos no mercado — dez deles vendendo a fruta — ele destacou a rápida aceitação do público à novidade. “Morango sempre foi uma fruta bem-vendida, mas igual essa febre em tão curto prazo eu nunca tinha visto. De terça-feira passada (22) em diante, o pessoal começou a compartilhar sobre na internet, mas o ápice aconteceu de quinta a domingo, que foram dias de loucura. Parecia Natal, a época em que a fruta mais vende no ano”, salienta.
“A gente se assustou com a questão do preço, que valorizou demais — basicamente dobrou. A procura, em vez de diminuir, aumentou até três vezes mais. Agora deu uma diminuída, mas acredito que vai voltar. Muita gente com quem converso ainda não provou o morango do amor. Eu mesmo ainda não provei, mas vou provar”, adianta.
Se tudo que sobe tem que descer, Ygor é direto ao falar sobre o futuro do morango do amor — e da sua coirmã mais famosa: “Ouvi dizer que vão lançar uma maçã do amor recheada com chocolate. Acho que tem tudo para virar tendência e estourar como o morango. E eu sigo aqui, porque também trabalho com maçã”, diverte-se.
O aumento expressivo nessa demanda gera benefícios também para quem revende o produto. Alexandre de Oliveira Alves, 40 anos, precisou se adaptar ao rápido crescimento das vendas. “Antigamente, eu tinha uma prateleira de morangos. Agora, tive que triplicar a quantidade e colocar na frente da loja — quase um paredão de morango. Antes, eu vendia 10 caixas; hoje, vendo de 25 a 30, principalmente da variedade tradicional”.
Fabiano Lima, 40 anos, veio atrás da fruta para a cunhada, que tem uma doceria. “Eu vendo alho há cerca de 10 anos e nunca vi uma movimentação dessas pelo Ceasa. Minha cunhada me pediu e compro aqui pela qualidade, é o melhor lugar para isso. Virou uma febre e estou até pensando em mudar de área”, brinca. “É bom demais comer um docinho de forma moderada. Eu acho muito bom e, para mim, veio tomar o lugar da maçã do amor”, aposta.
A curiosidade aliada ao apelo do doce também trouxe a dermatologista Hysllana Pereira, 58 anos, à Ceasa. “Hoje comprei quatro caixas. Quando vi um vídeo do morango do amor, me atraiu muito. É praticamente irresistível, muito impactante. Acho que aguça muito nossa vontade de experimentar. Vou fazer alguns para minha família e, lógico, comer bastante também”, conta.
Alerta para segurança e moderação
Apesar da explosão de vendas, nem tudo é doce. A nutricionista e doutora em vigilância sanitária Priscila Rodrigues alerta para o risco da informalidade na produção de um alimento tão sensível.
“Como todo produto artesanal, o morango do amor é perecível e precisa ser mantido sob refrigeração para preservar sua integridade, além de ter um tempo adequado para comercialização. O processo de caramelização aumenta a durabilidade do doce, pois protege a fruta da oxidação. São necessários cuidados na manipulação dos ingredientes, o que reforça a importância das boas práticas de higiene e da preferência por adquirir o produto em locais com procedência e qualidade conhecidas”, enumera.

Do ponto de vista nutricional, ela também chama atenção e deixa claro que não há riscos no consumo, desde que seja de forma moderada, principalmente levando em consideração a quantidade de açúcar, componente principal da cobertura vermelha que torna tudo mais atrativo.
“O consumo excessivo de açúcar pode trazer riscos à saúde, principalmente se falarmos de indivíduos que não possuem um equilíbrio no consumo alimentar, privilegiando os alimentos in natura ou minimamente processados como cereais integrais, frutas, legumes, verduras e carnes magras. No entanto, o doce em si não é um vilão e, de forma equilibrada, pode ser consumido sem gerar maiores consequências”, informa.
A nutricionista avalia que a compra do doce está mais atrelado ao fator do “se sentir parte do meio”, do que uma real vontade de consumir o produto.
“Se analisar as reações, na maioria das vezes as pessoas o descrevem como ‘muito doce, enjoativo ou grudento’. Ao que sabemos, essa iguaria parte de doces já conhecidos como a maçã do amor e coxinha de leite em pó, logo, a ideia de unir isso em um único doce o rotulando como morango do amor teve um apelo afetivo-emocional que está acima dos padrões de consumo”, explica Priscila.
Recompensa no fim do dia
Para muitos, no entanto, comer um doce depois de um dia difícil funciona como uma espécie de recompensa. Como, hoje, a comida que mais se fala na maioria das redes sociais é o morango do amor, o desejo circula em torno dele.
“As clientes falam: ‘Nossa, que coisa maravilhosa, isso aqui é viciante. Só relatos de ser muito bom, todo mundo gostando’”, conta Cristina Ruffatto.
Daniela explica que esse tipo de fenômeno ajuda a entender o tempo em que vivemos: “Está atrelado às ideias de recompensa, autocuidado, gratificação ou compensação emocional. A participação em uma trend viral e a recepção de interações nas redes sociais podem funcionar como uma recompensa imediata ao gerarem prazer. O doce, nesse sentido, é tanto objeto de consumo quanto meio para uma validação social, alimentando um ciclo de consumo recompensa-repetição”.
Os especialistas não conseguem prever se essa onda de consumo em torno do morango do amor será passageira. No entanto, as confeiteiras garantem: enquanto durar, será com bastante brigadeiro e calda crocante.


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