Há um produto que entrou no Brasil vindo da Suíça, nasceu de um erro de máquina, sobreviveu décadas graças a uma rede de lanchonetes carioca, foi roubado dessa rede por uma gigante americana, e ainda assim nunca deixou de habitar a memória afetiva de gerações inteiras de brasileiros. Esse produto não é o café, não é a feijoada, nem a caipirinha e definitivamente não é o açaí.
Pergunte a qualquer brasileiro acima dos trinta anos qual é o achocolatado da infância e, ao lado do onipresente Nescau e do Toddy, o nome Ovomaltine vai aparecer com a inevitabilidade de uma lembrança boa. Não importa se você cresceu na Guanabara, em São Paulo, em Belém ou em Pelotas: aquele pó crocante faz parte da paisagem emocional do país. O interessante é que essa história de amor nacional foi construída sobre uma sequência de acidentes, erros e golpes de sorte que qualquer roteirista de Hollywood devolveria ao produtor dizendo que é implausível demais.
O Ovomaltine é, antes de tudo, uma história sobre como o Brasil transforma em coisas nossas, muito nossas, tudo aquilo que recebe de fora. Da farmácia suíça ao milk-shake do McDonald’s, passando pelo sanduíche de mortadela na Dutra e pelo rosto de Pelé nos comerciais, a trajetória do Ovomaltine no Brasil é também a história da própria indústria alimentícia brasileira: adaptável, criativa e profundamente saborosa.

Como surgiu o Ovomaltine?
Nossa história começa em Berna, na Suíça, no ano de 1904. O químico e farmacêutico Albert Wander (1867–1950) era herdeiro de uma pesquisa iniciada pelo pai, Georges Wander, que se dedicava a estudar os benefícios nutricionais do extrato de malte de cevada. Quando o pai morreu, Albert continuou os experimentos e chegou a uma fórmula que combinava extrato de malte, ovos, leite integral e cacau.
Inicialmente a mistura era pensada como suplemento alimentar para crianças doentes, grávidas e pessoas debilitadas. O produto foi batizado de Ovo-Maltine, nome que fundia as palavras latinas para ovo (ovum) e malte (maltum), seus ingredientes centrais na época.
Não demorou muito, porém, para que a bebida caísse no gosto popular. Atletas e esportistas passaram a consumi-la com entusiasmo, e o Ovomaltine começou sua trajetória de popularização que o levaria a mais de 100 países. Em 1927, a fábrica principal se mudou para a pequena cidade de Neuenegg, nos arredores de Berna, onde o produto original ainda é fabricado até hoje.
Por que em muitos países ele é chamado de Ovaltine?
Aqui começa a primeira grande história de acidente bem-sucedido da trajetória do produto. Já em 1909, o Ovomaltine começou a ser exportado pela Europa. Só que quando o nome do produto foi registrado nos cartórios britânicos, ocorreu um erro de grafia: a palavra perdeu o “m” na metade e foi registrada simplesmente como “Ovaltine”. O erro burocrático consolidou-se e a marca nunca mais foi corrigida no mercado anglófono.

Há, porém, quem afirme que os motivos foram mesmo comerciais. Para os ingleses, a pronúncia da palavra do termo original em alemão poderia soar estranho ao público de língua inglesa. Assim, em 1913, quando a empresa construiu sua fábrica em Kings Langley, na Inglaterra, e passou a exportar o produto para os Estados Unidos e outros países de língua inglesa, o nome “Ovaltine” viajou junto.
Até hoje, se você entrar em um supermercado nos Estados Unidos, na Austrália ou no Reino Unido, vai encontrar o produto embalado como “Ovaltine”, fruto da distração de algum funcionário de cartório britânico no início do século passado.
A Suíça, naturalmente, continua usando o nome original, já que foi lá que ele nasceu. Já na Alemanha, França, Brasil, países da América Latina e boa parte da Ásia é vendido como Ovomaltine. E um detalhe curioso: o maior mercado consumidor do mundo é a Tailândia, com o Brasil ocupando o segundo lugar.
A chegada ao Brasil e um detalhe importante
O Ovomaltine chegou ao Brasil por volta de 1930. Mas antes é preciso fazer uma distinção importante que os fãs do produto adoram pontuar: tecnicamente, o Ovomaltine não é um achocolatado no sentido estrito do termo. A fórmula original era à base de malte, ovos, leite e cacau, ou seja, não de chocolate propriamente dito.
O cacau, que é a semente não processada do cacaueiro, dá um sabor diferente e um perfil nutricional distinto do chocolate industrializado. Era essa combinação de malte com cacau que conferia à bebida seu sabor característico, mais complexo e levemente amargo do que os achocolatados comuns.
Com o tempo, no entanto, a fórmula foi evoluindo e se adaptando aos mercados locais. No Brasil ele foi importado até os anos 1940 quando os suíços abriram sua própria fábrica em Resende. A produção nacional começou em 1947. Hoje, a fórmula vendida no Brasil não contém mais ovos nem leite em sua composição. O “ovo” sobreviveu mais como patrimônio afetivo. Um lembrete de quando a bebida era, de fato, quase uma refeição.
E aqui entra um plot-twist que nem Willy Wonka poderia imaginar.
Um erro que virou símbolo da marca

Esta é a história mais deliciosa de toda a trajetória brasileira do produto. Quando a fábrica de Resende começou a operar, em 1947, um problema no ajuste das máquinas fazia com que o pó não se dissolvesse completamente durante o processo de fabricação. Em vez de sair um pó fino e homogêneo, como o produto era fabricado na Suíça, o Ovomaltine brasileiro saía em flocos maiores, com uma textura granulada e crocante.
Segundo registros da própria da Ovomaltine no Brasil, a expectativa da empresa era corrigir o defeito o mais rápido possível, mas a reação dos consumidores brasileiros surpreendeu a todos. Em vez de reclamar do produto “com defeito”, os brasileiros simplesmente adoraram.
A crocância inesperada, aquela textura que gruda no palato e estoura suavemente entre os dentes, tornou-se a marca registrada do Ovomaltine nacional. A fórmula com defeito virou a fórmula oficial do Brasil, e o país se tornou o único no mundo onde o Ovomaltine é vendido na versão de flocos crocantes como produto principal.
A fantástica fábrica de chocolate
A fábrica de Resende ficava às margens da Rodovia Presidente Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, e por décadas foi um ponto de parada obrigatório para quem fazia esse trajeto. Os viajantes podiam visitar as instalações e, ao final do passeio, ganhar um sanduíche de mortadela (ou presunto, segundo alguns relatos) acompanhado de um copo de Ovomaltine bem gelado.
A fábrica de Resende foi desativada em função de uma contaminação no solo causada por vazamento de produtos químicos da Basf, que operava na vizinhança. A produção foi transferida para uma nova unidade no município de Embu, em São Paulo. Assim, a alegria de parar na Dutra e tomar um copo de Ovomaltine gelado pertence à memória afetiva coletiva brasileira, não ao presente. Mas o sabor, esse, ainda está lá.
Pelé foi garoto-propaganda da marca no Brasil?
Aqui o tema fica complexo. Ao longo de sua história, a marca buscou apostar no marketing ligando-se a grandes nomes do esporte. Até Muhammad Ali começou a promover o produto a partir de 1971. Mas a relação com Pelé carece de observação mais rigorosa.
A confusão toda é porque existe uma fotografia de Pelé durante a Copa do Mundo de 1958 na Suécia, onde Sua Majestade ainda com 17 anos aparece com um copo de Ovomaltine nas mãos na concentração brasileira. A foto correu mundo e, em tese ficaríamos por aqui.

Extensas coberturas sobre a trajetória publicitária do Rei do Futebol, publicadas em veículos como Meio & Mensagem, Lance!, Correio Braziliense, IstoÉ Dinheiro e Exame, listam dezenas de marcas com as quais ele trabalhou ao longo da carreira: Vitasay, Bombril, Casas Bahia, Mastercard, Nokia, Atari, Café Pelé, Puma, Emirates, Hublot. O Ovomaltine não aparece nessa lista em nenhuma dessas fontes.
O melhor milk shake do mundo!
É preciso reconhecer um fato. O Ovomaltine pode ter chegado ao Brasil em 1930, ganhado fábrica própria em 1944, mas nunca decolou de verdade nas prateleiras dos mercados até o fim dos anos 1950. Foi quando um daqueles casamentos arranjados por pura conveniência econômica se tornou um incrível romance.
A rede de lanchonetes Bob’s, fundada pelo americano Bob Falkenburg na Guanabara, decidiu incluir o achocolatado crocante como ingrediente de seu mais novo milk-shake. O resultado foi arrasador. O milk-shake de Ovomaltine do Bob’s tornou-se um dos produtos mais icônicos da rede e um dos lanches mais amados em todo o Brasil.
O sucesso foi tão grande que, em 2005, as duas empresas formalizaram um contrato de exclusividade, garantindo ao Bob’s o direito exclusivo de usar a marca Ovomaltine na categoria de milk-shakes no Brasil. Na época, muitos consumidores chegavam a pensar que a marca era uma invenção do próprio Bob’s, e não de um médico suíço.
O palhaço entra em cena
Em 2016, o mercado de fast-food brasileiro assistiu a um terremoto. Embora usada até hoje por alguns fãs radicais, a palavra “roubou” é forte e juridicamente imprecisa. O que aconteceu foi uma operação de mercado legítima, mas que deixou um gosto amargo na boca não só dos fãs como do próprio Bob’s.
O contrato de exclusividade entre o Bob’s e a Ovomaltine na categoria de milk-shakes venceu em 2015 e a rede Bob’s, em situação complicada com a entrada de mais e mais players no mercado, optou por não renová-lo.
Assim, o McDonald’s, que já usava o Ovomaltine como ingrediente em McFlurrys e outros produtos desde 2009, aproveitou a janela e fechou um contrato de exclusividade com a Associated British Foods para usar a marca nos seus milk-shakes. Quase terminou em passeata.
Começava a guerra dos milk-shakes. E nessa, o Bob’s, que havia popularizado o produto por quase 60 anos, foi cariocamente malandro. Continuou manteve no cardápio o mesmo leite batido de sempre, que passou a se chamar simplesmente “Crocante”. De gozação, os consumidores passaram a chamar a versão do McDonald’s de “MilkFake”.
O tempo passou e, no fim das contas, os consumidores saíram ganhando. Seja em qual das duas redes de fast food você for nos dias de hoje, a sexagenária receita estará ali, geladinha e saborosa, à sua disposição.


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