Estamos em meados do século XVI, o Império Otomano aterroriza o Mediterrâneo com seus corsários, quando o imperador Carlos V, o homem mais poderoso da Europa, bateu na porta do rei português D. João III. Não para pedir uma xícara de açúcar ou um tanto de pau-brasil. Ele queria um navio. Um navio específico. O maior e mais bem armado que o mundo havia visto. E, no pacote, parte da tripulação. 

O tal navio era um galeão que, tudo indica, saiu dos estaleiros de Lisboa entre 1533 e 1534 com mais canhões do que a maioria dos países pequenos conseguiria reunir em terra firme naquela época. Chamava-se oficialmente São João Baptista, um nome bonito, mas não mete medo em ninguém, soava melhor dizer que ele “cuspia fogo”. 

Um apelido que não colou só por acaso. O galeão era armado com 366 canhões de bronzes. Quase cinco vezes o número de obuses que um navio de guerra da época carregava.  Para fazer essa orquestra explosiva tocar sem desafinar, ou afundar o navio, recorreu-se a um mestre, um nobre originário da cidade de Elvas chamado João Pereira de Sousa, que acabou acrescentando ao sobrenome o apelido da embarcação: Botafogo. 

Botafogo se destacou em uma batalha épica no norte da África e, como recompensa, ganhou uma sesmaria que com o tempo ficou conhecida por seu sobrenome. E foi assim, com a sobriedade e o planejamento urbanístico característicos do Império português, que uma alcunha de artilheiro atravessou o Atlântico e se tornou o bairro mais cool do Rio. 

O nascimento de um Titã 

Construído em 1534 nos estaleiros de Lisboa, o galeão São João Baptista não foi planejado para ser apenas mais um barco na frota de Dom João III; ele foi concebido para ser o terror dos mares. Segundo o historiador e oficial da Marinha Portuguesa, António Marques Esparteiro, em sua obra Dicionário de Navios Portugueses, o navio era tão imponente que recebeu o apelido de “Botafogo”, uma referência direta à sua capacidade de vomitar fogo pelas amuradas. E isso não era propaganda militar. 

O navio tinha mais de 40 metros de comprimento e deslocamento de cerca de mil toneladas, e 366 canhões, o que o tornava o mais poderoso navio de guerra do mundo em sua época. Para efeitos de comparação, um galeão bem-armado no século XVI costumava carregar não mais de 80 canhões. 

Mas aqui cabe um porém. Que o navio estava armado com 366 bocas de fogo de bronze, não há divergência histórica. Mas é preciso entender que “bocas de fogo” era uma categoria ampla que incluía desde grandes peças de artilharia pesada até canhoneiras de pequeno calibre, instalados ao longo da amurada e nas superes­truturas de proa e popa. 

Um comparativo bélico 

A Revista Panorama de 1841 registra, em texto recuperado por historiadores, que o galeão “jogava 366 peças de bronze, e sendo redondo continha 600 mosqueteiros, 400 soldados de espada e rodela, e 300 artilheiros”. Um contingente que faria inveja a muitas guarnições terrestres daqueles tempos. 

Para transpor esse poder de fogo para os dias de hoje, imagine que o São João Baptista fosse o equivalente a um porta-aviões navegando entre barcos de pesca. Se um navio padrão do século XVI fosse um rifle comum, o Botafogo era uma metralhadora giratória montada em um tanque de guerra blindado. A diferença era tecnológica e psicológica. Ele não apenas tinha mais armas; ele operava em uma dimensão de força que tornava a resistência dos oponentes uma baita falta de bom senso. 

Os engenheiros do caos 

Ser artilheiro em um navio de guerra português do século XVI não era apenas um trabalho de fazer explodir coisas. Ele coordenava carregamento de pólvora, posicionamento das peças, manutenção dos canhões e cálculo básico de disparo. Em resumo, era uma profissão que exigia tanto conhecimento matemático quanto uma absoluta falta de medo da surdez prematura. 

Era uma função de elite, pois um erro de cálculo, ou uma ordem mal interpretada poderia virar o navio ou transformar o glorioso galeão em uma pilha de lenha flutuante em segundos. Num navio com 366 bocas de fogo e 300 artilheiros, a coordenação desse trabalho era uma gestão operacional de altíssimo risco, com a diferença de que o erro não resultava em um esporro da chefia, mas em uma explosão catastrófica. 

E o primeiro homem escolhido para esta função foi um nobre originário da cidade de Elvas chamado João Pereira de Sousa, que aprendeu com tamanha maestria como fazer essa orquestra infernal tocar junto sem desafinar que ganhou da Coroa o direito de acrescentar ao sobrenome o apelido do navio: João Pereira de Sousa Botafogo. 

A Batalha de Túnis 

O momento de glória máxima do galeão (e de seu artilheiro) ocorreu em 1535, durante a Conquista de Túnis. A cidade norte-africana havia caído nas mãos do lendário corsário otomano Barba Ruiva (Khair ad-Din, conhecido também como Barbarossa), que a usava como base para aterrorizar as rotas comerciais cristãs no Mediterrâneo. 

Isso naturalmente desagradou a Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, que organizou uma força colossal de cerca de 400 navios e dezenas de milhares de soldados para cancelar o CPF do Barba Ruiva. Antes de zarpar ele fez um único pedido ao rei de Portugal: que lhe emprestasse o São João Baptista. 

De acordo com relatos da época, a artilharia do galeão era tão excepcional que superava em alcance os canhões da fortaleza inimiga de La Goleta, que se dizia inexpugnável, permitindo que as forças aliadas disparassem sem sofrer retaliação significativa. Mas havia um problema. Os otomanos haviam passado uma forte corrente de ferro na entrada do porto, impedindo o avanço da frota cristã. 

Foi quando o capitão do galeão, o infante dom Luís, duque de Beja, irmão do rei de Portugal e cunhado do imperador Carlos V, um homem tão habilidoso que segundo as crônicas da época “só faltou ser rei”, convocou o Botafogo. 

O artilheiro ponderou que, à bala, eles jamais iriam romper as correntes. E sugeriu usar da força bruta. O galeão se lançou sobre a barreira, mas não conseguiu arrebentá-la. Botafogo então ordenou ao piloto que se fizesse ao mar com volta mais larga e, dadas as velas todas ao vento, bateu na corrente com impulso tão furioso que a fez em pedaços. 

Este evento, amplamente documentado nas crônicas da época, não apenas consolidou a fama do navio, que serviria por mais 40 anos na Marinha portuguesa, mas também elevou João Pereira de Souza Botafogo ao status de herói nacional, provando que, às vezes, a melhor diplomacia é jogar um navio de mil toneladas em alta velocidade sobre o inimigo. 

Mas como ele veio a batizar um bairro do Rio de Janeiro? 

A resposta é mais mundana do que se imagina:  o artilheiro foi agraciado pelo rei com duas sesmarias, uma delas a de Francisco Velho, uma bela enseada na então cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Seus documentos pessoais, seus registros militares, enfim, sua identidade oficial incluía agora o nome Botafogo. E quando você é o proprietário de uma extensa faixa litorânea e seu nome nos papéis é “João Pereira de Souza Botafogo”, é bem provável que o lugar onde você mora passe a ser conhecido pelo mesmo sobrenome. Nascia ali a Enseada de Botafogo, que com o tempo deu nome à praia, ao bairro e, séculos depois, ao clube de futebol. 

E é delicioso imaginar que o nome derive não do galeão em si, mas do apelido do galeão que foi apropriado por um militar português que depois se estabeleceu no Rio. O bairro, portanto, não foi batizado em homenagem direta ao navio; foi batizado em homenagem ao homem que conhecia tanto aquele navio que carregava o apelido do galeão como se fosse seu próprio sobrenome.  

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