A construção política dos conservadores e a candidatura de Eduardo Paes

RICARDO BRUNO Prognósticos precoces sobre resultados eleitorais devem ser tomados sempre com reserva; são suscetíveis a falhas grosseiras dada a falta de elementos sobre a conjuntura em que a disputa efetivamente se dará. As avaliações proferidas com demasiada antecedência são, portanto, capengas, inconclusivas –  por incompletas. O confronto inerente ao processo eleitoral estimula comparações; atiça…

RICARDO BRUNO

Prognósticos precoces sobre resultados eleitorais devem ser tomados sempre com reserva; são suscetíveis a falhas grosseiras dada a falta de elementos sobre a conjuntura em que a disputa efetivamente se dará. As avaliações proferidas com demasiada antecedência são, portanto, capengas, inconclusivas –  por incompletas.

O confronto inerente ao processo eleitoral estimula comparações; atiça percepções a respeito do perfil dos contendores e produz cenas inesperadas: candidatos, por mais treinados, são postos à prova e acabam despidos da carapaça com que se apresentam. Mostram-se por inteiro, desnudos nas virtudes e nos defeitos. O script falha e o improviso  revela a essência de cada um. É deste embate – vibrante, um tanto passional e de lógica nem sempre cartesiana – que se extraem conceitos que ajudam a confirmar ou não a intenção de voto.

A 11 meses das eleições municipais de 2024, o cenário é  provisório; sujeito a mudanças a depender da correlação final das forças do pleito. Hoje, o prefeito Eduardo Paes lidera a disputa, descolado de todos os adversários. Mas eles não estão mortos e deram demonstração inequívoca de vida  na reunião promovida pelo governador Cláudio Castro no Palácio Laranjeiras, em torno do provável candidato do campo conservador, Alexandre Ramagem.

Cinco partidos com máquinas bem azeitadas e fartura no fundo eleitoral começaram a se articular visando a construção de aliança para o enfretamento do candidato do campo progressista.  Obedecem a lógica de se contrapor às forças alinhadas ao presidente Lula, representadas pela candidatura de Eduardo Paes. O ajuntamento do grupo repete o sentido clássico da frase histórica de Alexis Tocqueville, em uma de suas pensatas sobre a disputa de poder em ambiente democrático:” Na política, os ódios comuns são a base das alianças”.

O movimento dos conservadores obedece a uma correta visão estratégica nesta  construção que, se vingar, poderá fazer do obscuro Ramagem um candidato relativamente competitivo, agregando as forças do bolsonarismo. Os partidos ali representados – MDB, PP, PL, SD e União Brasil – lhe garantem de 20 a 25 % das intenções de votos, o que pode favorecer um inesperado segundo turno.

A unidade aparente do grupo é, em boa medida, decorrente da própria fragilidade dos nomes disponíveis para a disputa neste campo. Todos, pigmeus eleitorais diante de Eduardo Paes. A falta de alternativas viáveis ajuda a aglutinação de forças para o embate nas urnas.

No terreno oposto, o favoritismo acachapante do prefeito produz resultados contrários. Não desperta o mesmo sentimento de juntar forças para o fortalecimento ainda maior da candidatura.  Fia-se mais na estupenda capacidade eleitoral do atual chefe do Executivo do que na construção coletiva de uma chapa que poderia ser ainda mais competitiva.

Há outro perigoso efeito secundário neste contexto: a superioridade do candidato do PSD estimula um clima de disputa interna em torno da indicação do vice. Todos pleiteiam a vaga na suposição de que seria um passaporte carimbado para comandar a prefeitura a partir de 2026, quando Eduardo Paes deve renunciar para disputar o Governo do Estado.

A competição intramuros pode trazer frustrações e sequelas e quebrar a unidade do grupo durante o processo eleitoral. Se não houver uma solução muito bem negociada, essas forças, ainda que se apresentem formalmente coligadas, podem não se engajar de fato na campanha, bandeando-se para a candidatura do professor Tarcísio Motta, do Psol.

Pesquisas eleitorais mostram que o eleitor de Eduardo Paes, em sua maioria, se situa no campo progressista – mais exatamente na centro-esquerda. Portanto, a construção política de sua candidatura para despertar engajamento deve obedecer a essa lógica. Se a identidade pública da campanha diferir do ideário de seu eleitor médio há possibilidade de ocorrer certa frustração em setores propensos a lhe dar o voto.

Não basta a formalidade da aliança, o engajamento é essencial. Eduardo Paes sabe que Lula não dispõe de outro nome no Rio para derrotar Bolsonaro em sua base. Mas ainda que o petista lhe garanta a coligação, as forças deste campo podem se fracionar se não se verem representadas. O antológico Napoleão Bonaparte, o mais espetacular dos estrategistas, já advertia: “É melhor ter um inimigo reconhecido do que um aliado forçado.”

De resto, está nas mãos do prefeito a possibilidade de, através da política, ampliar o seu já enorme potencial eleitoral e liquidar a fatura no primeiro turno. Os predicados pessoais de Eduardo Paes se somados à correta construção política seriam infalíveis.

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