Deve ser uma certa invejinha dos tempos nos quais a Guanabara era capital da coisa toda. Mas quase toda cidade do interior do Rio de Janeiro cisma de querer ser tratada como capital de…as opções são vastas. Enquanto algumas se contentam em ser a capital da uva, do arroz ou da batata, essa brava cidade litorânea acordou um dia e decidiu elevar o sarrafo e virar a “Capital Nacional do Petróleo”, prova do orgulho de Macaé em sua transformação meteórica de uma pacata vila de pescadores para metrópole petrolífera.

Mas a grana que ergue e destrói coisas belas, tem suas contradições. Macaé figura no Top 5 de arrecadação, novos hotéis pipocam e avenidas se estendem, contudo, a população ainda reclama da falta de esgoto tratado em algumas regiões e da lotação dos hospitais — afinal, quanto mais tem, mais quer, já cantava Rita Lee.

E nem tudo ligado ao mar é petróleo. Macaé tem praias para todo tipo de banhistas, uma serra que é um playground para quem ama o verde, aprecia trilhas e tem disposição. A mistura de todos esses temperos gerou uma explosão hoteleira, que levou até redes cinco estrelas internacionais a abrirem ali suas filiais, o que acabou gerando outro apelido: Dubai Brasileira. Pretensioso? Guardadas as devidas proporções talvez. Mas será que Macaé é isso tudo mesmo?

Orla da Praia dos Cavaleiros | Crédito: Reprodução

História

Não foi nenhum geólogo da Petrobras que fundou Macaé, mas sim uma comunidade de monges Jesuítas, que estabeleceu no século XVII uma fazenda que cultivava açúcar, farinha e madeira.  Logo a primeira ocupação se desenvolveu e em 1813 já havia virado município.

Mas o salto quântico veio nos anos 1970, quando a Petrobras escolheu Macaé para coordenar atividades na Bacia de Campos. Desde então, a cidade virou um canteiro de obras petrolíferas, atraindo milhares de empresas e trabalhadores.

Segundo o IBGE, a economia local cresceu 600 % desde 1997. Em 2007, o PIB per capita já era cerca de 200 % maior que a média nacional. Hoje, Macaé ostenta uma das maiores rendas do estado.

O impacto do petróleo na economia

O marco zero da revolução econômica do município foi o dia 13 de agosto de 1977. Nessa data, começou a produção comercial no campo de Enchova, o primeiro a jorrar óleo na Bacia de Campos. Em 1978, Macaé foi oficialmente escolhida como a sede das operações na região. Essa decisão funcionou como um ímã.

Nos anos seguintes, mais de 4 mil empresas, de gigantes multinacionais a pequenos fornecedores de serviços, se instalaram na cidade para atender à demanda da indústria. O orçamento da prefeitura, que era de R$ 1,2 bilhão em 2022, saltou para R$ 4,86 bilhões este ano. Para sustentar a gigantesca operação offshore, uma infraestrutura especializada foi construída.

O Aeroporto de Macaé se tornou a maior base de helicópteros da América Latina, funcionando como uma ponte aérea que transporta milhares de trabalhadores para as plataformas todos os dias. O Porto de Imbetiba, por sua vez, foi o elo marítimo, garantindo o envio de suprimentos e equipamentos para o alto-mar. Mas viver de petróleo, como se sabe, muitas vezes é um passeio em uma montanha-russa.

A cidade, já enfrentou períodos de instabilidade devido à volatilidade do mercado global de petróleo. A falta de leilões de novas áreas para exploração e a redução de investimentos no setor afetaram as perspectivas de crescimento econômico. Hotéis e muitos restaurantes badalados na Guanabara que abriram filiais na cidade baixaram as portas para sempre.

Mas após oito anos de queda, em 2023 a produção da bacia voltou a crescer. Macaé parece ter aprendido com o remédio amargo. E hoje a cidade enfrenta o desafio de diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo.

De onde surgiu o apelido de ‘Dubai Brasileira’ 

Macaé é tão servida de hotéis que mais parece um resort vertical do que mais um balneário litorâneo do Rio de Janeiro. A rede hoteleira é robusta e conta com 84 hotéis e pousadas, mais de oito mil camas e nada menos do que 8.623 quartos disponíveis, com destaque para nomes como Hyatt Place, Royal Atlântica e Hotel Habitare. 

Mas não espere barganhas: as diárias variam começam em torno dos R$ 200, em um quatro estrelas mais acessível como o Golden Tulip, mas podem chegar a mais de R$ 600 se você quiser acrescentar mais uma estrelinha no orçamento e mergulhar na sofisticação de uma pousada como a Renovo da Serra.

A cidade se tornou símbolo enciclopédico de boom econômico, com especulação imobiliária, preços altos e população crescente. Quase mesmo uma Dubai à brasileira, só que com mais areia de praia do que do deserto.

Hotel Hyatt Place é um dos destaques no balneário litorâneo de Macaé | Crédito: Reprodução

O que mais tem por lá?

Em boas ondas para o surfe, pôr do sol e infraestrutura Macaé não economiza. A Praia dos Cavaleiros, com bares, quiosques e diversos esportes de areia, é o point de quem quer ver e ser visto. A Praia do Pecado é o reino do surf, bodyboard e dos campeonatos. A cidade conta com outras praias bacanas como Campista, Imbetiba, Praia do Forte e a minúscula Prainha do Farol com um farol (óbvio) do século XIX.

E ainda tem o show solar. Impagável no encontro da Lagoa de Imboassica com o mar — com aluguel de bikes, pedalinhos, música ao vivo e até o Beco das Artes parao momentos mais papo-cabeça.

Para quem prefere o mato, a Área de Proteção Ambiental (APA) de Arraial do Sana oferece diversas trilhas. A do Escorrega é simpática, já a do Peito do Pombo leva cerca de 6 h de caminhada guiada. Os rios são palco de rafting e canoagem. Ainda há os Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, único do tipo no país com várias opções de esportes aquáticos. E o Parque Municipal Atalaia, com seus 235 hectares de Mata Atlântica intocada, trilhas e fauna típica.

As amargas contradições

Apesar de todo o petróleo, pobreza e desigualdade persistem. A população se queixa de trânsito infernal, falta de esgoto tratado, hospitais abarrotados e especulação imobiliária absurda. O índice de Gini de Macaé é 0,56 (em que 1 é concentração total de renda), sinal de uma enorme disparidade econômica.

Dados do IBGE de 2021 evidenciam o paradoxo: enquanto uma minoria ganhava salários altíssimos, 31,5% da população vivia com até meio salário-mínimo por mês. A riqueza gerada pelo petróleo não foi distribuída de forma igual, criando uma cidade de contrastes, com bolsões de pobreza coexistindo com a opulência da indústria.

A Firjan já apontou Macaé entre os municípios com melhor qualidade de vida no Rio de Janeiro e a A FGV já considerou a cidade o segundo melhor lugar para trabalhar. Entretanto, a realidade dos serviços públicos não tem acompanhado esse hype todo. A prefeitura investe, faz pontes na serra, recupera estradas, mas parece que o petróleo despeja riqueza no caixa, enquanto o cidadão continua pagando a conta mais pesada.

Como chegar?

De carro leva-se entre cerca de 2h 30min a 3h para cruzar os 187 km entre a Guanabara e Macaé pela BR-101. A cidade conta com um aeroporto, mas atualmente, não há voos regulares programados de passageiros, apenas fretados.

Se você não quer perder tempo e faz questão de chegar voando a alternativa são os helicópteros, com capacidade para 3 a 6 passageiros podem custar cerca de R$ 5 mil por hora, dependendo do tráfego e da rota escolhida.

De ônibus, há saídas a cada hora e meia da Rodoviária do Rio, com tarifas que começam em torno dos R$ 70.

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