No final da década de 1960, em uma Cabo Frio que só conhecia engarrafamento se esbarrasse com a palavra no dicionário, o Clube Militar decidiu fincar nas areias de uma restinga um grandioso monumento ao progresso. Uma caixa d’água. Sim, isso mesmo, mas não uma caixa d’água qualquer, dessas de plástico azul ou madeira redonda, tipo em filme de Hollywood. Mas uma caixa d’água em formato de foguete. E novamente, sim, isso não faz o menor sentido. Só que o local virou point, e acabou batizando uma praia e um bairro da cidade.
Cabo Frio é uma cidade acostumada a guardar histórias nas pedras, nas praias, nos fortes que o invasor português deixou para trás no século XVII. O que certamente não estava no roteiro era que no século XX, coubesse a uma peça de hidráulica disfarçada de engenhoca espacial a missão de eternizar um endereço. O Clube Militar ganhou o terreno em Cabo Frio em 1960 como parte de grandes sonhos de iatismo e hipismo. Mas todos os planos foram trocados por uma piscina. O foguete, ao que tudo indica, foi uma espécie de compensação poética.
Há algo de profundamente brasileiro nessa história. O que deveria ser utilitário vira monumento, o monumento vira topônimo, e o topônimo vira identidade de toda uma comunidade. A Praia do Foguete hoje tem pousadas, restaurantes, campeonatos de surf e kitesurf, selo ambiental internacional e bairro registrado. E quanto a caixa d’água que lhe deu o nome? Depende de qual você está perguntando.

Que história é essa?
A Praia do Foguete deve seu nome, a essa estrutura singular erguida dentro do terreno da Colônia de Férias do Clube Militar de cabo Frio. Antes da sua construção, a área era apenas uma extensão selvagem da Praia do Forte; após a instalação do reservatório, a imaginação popular, sempre mais veloz que a burocracia estatal, tratou de ignorar mapas oficiais para adotar o apelido cósmico que até hoje define a região.
É mais ou menos como se um poste batizasse uma rua ou uma lixeira desse nome a uma praça.
Mas de onde saiu essa ideia?
Muito provavelmente da mente inquieta do Dr Miguel Couto Filho, governador e senador pelo Rio de Janeiro, que na década de 1960 doou o terreno onde hoje está o Clube Militar. Sua excelência tinha uma visão grandiosa para a região, que contaria um dia com uma hípica e uma marina (!).
A sede praiana do Clube Militar em Cabo Frio não era, nem é, uma estrutura modesta. Ela conta com diversas opções de lazer e aventura, incluindo churrasqueiras em espaço coberto, quadra de vôlei de praia, futsal e tênis, restaurante e sala de jogos com mesa de totó, sinuca e mesa de carteado.
Detalhe: a sede fica na Avenida dos Astros: um endereço que, por si só, já sugere que alguém ali tinha um senso de humor astronômico desde os anos 1960.
Mas quem foi o responsável pela obra?
A construção da caixa d’água remonta ao ano de 1968, um período em que o modernismo brasileiro flertava abertamente com o futurismo. Era o auge da arquitetura que buscava formas geométricas ousadas, e o Clube Militar em Cabo Frio não quis ficar atrás, encomendando uma obra que pudesse ser vista de longe, desafiando a monotonia horizontal da areia branca e do mar azul-turquesa.
O responsável pelo design foi o arquiteto Ricardo Batalha Menescal, figura proeminente que transitava com habilidade entre o funcionalismo e a ousadia visual. Menescal não era um novato; seu nome está ligado a diversos projetos que buscavam modernizar o Rio de Janeiro, como o Clube Costa Brava, ou o Planetário da Gávea, entre outros. Sua escolha para o projeto em Cabo Frio trazia um selo de prestígio.


Os anos dourados
O foguete não estava sozinho; ele era a peça central de um complexo ambicioso que incluía restaurante, bar, salão de jogos e amplos alojamentos. O objetivo era criar uma bolha de entretenimento onde os oficiais e suas famílias pudessem desfrutar de uma infraestrutura completa sem precisar ir ao centro, à época distante, de Cabo Frio.
Relatos de antigos frequentadores e registros do jornalismo local da década de 70 descrevem o local como um “oásis de sofisticação”. O restaurante, com vista privilegiada para o mar, era o cenário de jantares que tentavam mimetizar o glamour da capital, tudo sob a sombra benevolente da caixa d’água espacial que prometia um futuro que, ao menos para ela, jamais viria.
O Fim da Era Espacial
Com a morte de Miguel Couto Filho em 1969 e a morte precoce de seu filho, problemas de espólio arrastaram-se por longos anos, retardando a legalização definitiva da posse das doações e, consequentemente, acelerando a deterioração das instalações, que foram ficando cada vez mais comprometidas, sendo demolidas no início dos anos 80.
Após as demolições, um novo projeto foi executado e inaugurado sob a administração do General Heraldo Tavares Alves em 8 de junho de 1987. Mas dessa empreitada, apenas a caixa d’água em forma de foguete foi mantida. E com o tempo os sinais de treta começaram a decolar das areias da Praia do Foguete.

A foto que resolveu uma confusão
Com o tempo, versões e lendas urbanas diferentes começaram a correr em torno do nome de batismo da praia. Chegou-se mesmo a conjecturar que a história do grande complexo de lazer sonhado pelo ex-governador Miguel Couto Filho para a região era coisa de que andava com a cabeça nas nuvens.
Na década de 1990, o jornal O Dia fez uma reportagem para recuperar essa história. E a equipe acabou conhecendo o fotógrafo Evandro Pagalidis, um documentarista visual conhecido por registrar a transição entre a Cabo Frio bucólica e a atual.
São de autoria de Pagalidis os raríssimos registros que servem como prova material da grandiosidade da obra de Menescal. Sem elas, o foguete original seria apenas um mito contado por pescadores e oficiais reformados. Sua imagem permite comparar a elegância do projeto antigo com a funcionalidade da réplica atual, imortalizando o design que um dia desafiou os ventos de Arraial do Cabo.

O que mais tem por lá
A Praia do Foguete não vive só de ondas e história de caixa d’água. Para quem curte um banho de água doce, ao sul da praia fica a Lagoa do Meio, que vale a pena visitar durante o pôr-do-sol. A lagoa funciona como contraponto sereno ao mar agitado, e é habitat de garças, biguás e patos, segundo relatos de visitantes do Clube Militar. A combinação praia-lagoa cria um ecossistema raro, onde é possível passar o dia inteiro sem sair do mesmo quilômetro quadrado e nunca se entediar.
A infraestrutura da orla cresceu nos últimos anos, com quiosques, restaurantes e pousadas que atendem tanto ao público geral quanto ao nicho mais específico do kitesurf e do surf. A alta temporada vai de dezembro a março, mas entre março e junho as águas ficam ainda mais cristalinas, o que transforma a baixa estação num segredo bem guardado pelos entendidos.


Deixe um comentário