Essa cidade do RJ carrega uma história que começa no século XVIII com tropeiros e bandeirantes e termina em turistas que ainda se surpreendem ao descobrir que sim, há quatis em Quatis. O nome inicial, Encruzilhada dos Quatis, já entregava a fauna local e a vocação de ponto de passagem.
O município que nasceu, literalmente, de uma encruzilhada, cresceu em torno de uma fonte de água que até hoje é motivo de lendas. A “Biquinha”, o marco zero da cidade, já foi parada obrigatória de viajantes e continua sendo ponto de curiosidade para quem acredita na lenda que a água muda de sabor ao longo do dia.
Quatis consegue ser tão diferentona que quando se emancipou de Barra Mansa não teve tempo de eleger um prefeito. O jeitinho brasileiro entrou em ação e por dois anos a cidade foi administrada por um conselho de lideranças comunitárias presidido por uma freira.
Entre cachoeiras, trilhas e casinhas coloniais, Quatis se apresenta como um destino que mistura simplicidade e ironia. Afinal, não é todo dia que uma cidade pequena consegue se orgulhar de ter estátuas enormes de quatis espalhadas pelas ruas, como se ainda fosse realmente necessário lembrar aos visitantes de onde veio o nome da cidade.

Qual a origem de Quatis (RJ)?
No século XVIII bandeirantes buscavam caminhos mais curtos entre Rio e São Paulo sem precisar fazer um pit stop em Paraty ou adjacências. O nome inicial foi Encruzilhada dos Quatis, referência aos animais que circulavam pela região.
A ocupação definitiva foi registrada em 1744, quando Simão da Cunha Gago, vindo de Aiuruoca (MG), encontrou “uma extensa clareira” na mata e a partir dali se iniciou um povoamento voltado à criação de gado, plantação de cana-de-açúcar e produção de anil.
Desde então, Quatis se consolidou ali na dele como ponto de passagem e descanso, até se tornar município em 1990. Só que sem prefeito. E a solução foi colocar uma freira para pôr ordem na casa.
Mobilização popular e um imbróglio daqueles
A emancipação de Quatis ocorreu de forma um tanto quanto peculiar porque, bem, não houve eleições imediatas para prefeito e vereadores.
Quatis era distrito de Barra Mansa e, após mobilização popular, conseguiu aprovação da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) para se tornar município. A lei estadual nº 1.741/1990 oficializou a emancipação.
O problema é que tudo isso foi bacana e coisa e tal, mas aconteceu em novembro, ao arrepio do calendário eleitoral. Não havia previsão legal nem tempo hábil para organizar eleições extraordinárias assim de estalo naqueles tempos de internet discada.
A solução provisória
O jeito foi criar um Conselho Popular que tinha uma composição bastante singular. Ele não era formado por políticos eleitos, mas lideranças religiosas, professores, trabalhadores locais e representantes de associações comunitárias.
E no comando uma freira, Irmã Maria do Carmo, ligada à Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria. Esse conselho governou e estruturou administrativamente a cidade até que a primeira eleição municipal fosse realizada.
O que é a Biquinha?
A Fonte Antônio Jacinto Sampaio Filho, conhecida popularmente como “Biquinha”, é (óbvio) uma fonte de água natural situada bem no centro de Quatis e que simboliza o “marco zero” da cidade.
Historicamente, tropa de tropeiros que passavam pela região se detinham na Biquinha para reabastecimento. E não era porque ela fosse a única fonte de água do pedaço.
Segundo as lendas locais, a “Biquinha” (cuja torneira tem um formato de cabeça de leão) jorra água de pelo menos três sabores diferentes ao longo do dia. Antigamente água não tinha gosto, mas hoje em dia tem sommelier pra tudo.
Em 2024 a prefeitura publicou um laudo técnico atestando a qualidade da água “Biquinha”, mas sem entrar em detalhes se de manhã é mais leve, ou mais encorpada ao entardecer. Menos é mais e, na dúvida, publique-se a lenda.
E tem mesmo quatis por lá?
Não em abundância como o nome sugere. O primo do Rocket Racoon de Guardiões da Galáxia é um animal típico da Mata Atlântica, que ainda pode ser visto em áreas verdes do município.
E sim, o quati é um mamífero da família dos Procionídeos, parente do guaxinim como o personagem invocado da trilogia espacial da Marvel. Ele vive em grupos e é conhecido pelo focinho alongado e pela habilidade de escalar árvores.
No imaginário popular, o quati é símbolo de esperteza e adaptação, características que Quatis parece ter herdado. A cidade aproveitou o nome e espalhou esculturas de quatis enormes em diversas praças e ruas, garantindo que mesmo quem não encontre o bicho real possa levar para casa uma lembrança fotográfica.

O Centro Histórico lembra mesmo Paraty?
Pior é que sim. O Centro de Quatis guarda ruas com casinhas coloniais que lembram Paraty, com arquitetura colonial simples e colorida criando uma atmosfera nostálgica.
Passear por ali é como estar andando pela famosa sede da Flip, sem precisar enfrentar multidões de turistas, e deixar que a comparação com Paraty venha da sua imaginação.
O que é a Trilha do Morro do Cruzeiro?
É uma rota de trekking que leva ao topo de um morro próximo à cidade, oferecendo vista panorâmica da cidade de Quatis e região entorno.
A caminhada até exige algum esforço, mas é bacana mesmo para quem gosta de ar fresco, subida, vista e uma ou outra pausinha contemplativa.
Leve água, bons tênis, chapéu e prepare-se para ver a paisagem abrir-se sob seus pés.
O que mais tem para fazer por lá?
O Parque Natural Municipal de Quatis preserva áreas de Mata Atlântica e oferece trilhas ecológicas, mirantes e espaços para observação de fauna e flora.
Para apreciar uma vibe de vida na roça, a Fazenda São João é uma antiga propriedade rural que preserva a casa-sede, o terreiro e os antigos engenhos, e oferece visitas guiadas.
A antiga estação de trem de Quatis é patrimônio histórico. Embora não funcione mais, guarda memórias da época em que o transporte ferroviário era vital para a região.
Quatis oferece festas populares, como a Festa de São Sebastião, feiras de artesanato e gastronomia típica. A cidade aposta na simplicidade como diferencial, mostrando que não é preciso grandiosidade para encantar.

Como chegar?
Partindo da Guanabara de carro, a viagem do Rio até Quatis leva cerca de 2 horas e percorre aproximadamente 130 quilômetros pela Via Dutra.
De ônibus, os horários são limitados, geralmente com saídas às 17h em dias úteis e 7h30 aos sábados e domingos com tarifas a partir dos R$ 59.


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