Os refrigerantes zero, por muito tempo, eram vistos como uma alternativa para pessoas com restrições ao consumo de açúcar, especialmente diabéticos. No entanto, de alguns anos para cá, a bebida deixou de ser única para esse público e ganhou espaço nas dietas de quem busca emagrecimento ou estilo de vida saudável. Hoje, influenciadores fitness nas redes sociais defendem o consumo como uma solução prática para evitar calorias extras — alguns chegam a afirmar que “é melhor tomar refrigerante zero do que suco natural”.
Para médicos e nutricionistas, a moda esconde riscos. Não há benefícios comprovados para a saúde, e o consumo frequente pode reforçar hábitos alimentares ruins. Apesar de não conterem açúcar, os refrigerantes zero não são recomendados como parte de uma rotina saudável. Quando são substituídos por água, sucos ou outras bebidas nutritivas, criam ainda uma falsa sensação de alimentação equilibrada.
Mesmo assim, o aumento do consumo no Brasil nos últimos anos reflete a força do discurso digital. O discurso seduz, mas levanta dúvidas: afinal, o que a ciência já sabe sobre os impactos do consumo frequente desses produtos?
Do mundo médico ao hype fitness
A promessa de uma bebida doce, sem calorias, tornou-se atrativo imediato para pessoas em processo de perda de peso. De olho nesse público, a indústria ampliou a variedade de refrigerantes zero, que hoje disputam espaço com os tradicionais nas gôndolas de supermercados.
“Bebidas sem adição de açúcar, no caso com adição de edulcorantes artificiais, ocuparam uma lacuna na sociedade. Mas, vejo que muitas pessoas optam por essas bebidas sem modificar hábitos de vida que seriam muito mais importantes, por exemplo, tomam refrigerante zero mas não controlam o consumo de doces e balas, não comem frutas, legumes e verduras ou ainda utilizam diversos outros ultraprocessados”, pontua a professora Ana Luisa Faller, do Instituto de Nutrição Josué de Castro (UFRJ).
Os adoçantes artificiais em debate
O segredo da fórmula está nos adoçantes artificiais, como aspartame e sucralose, acessulfame-K e estévia. Essas substâncias têm poder de adoçar dezenas ou até centenas de vezes maior que o açúcar comum, o que permite manter o sabor sem adicionar calorias.

“O termo sem adição de açúcar faz parecer que é muito benéfico, mas vale dar destaque para o fato que esse açúcar é substituído por edulcorantes artificiais. Consequências: o poder de adoçar, de dar a percepção de doce na boca, é muito superior ao açúcar e gera uma certa tolerância. Ou seja, o hábito pelo doce não muda e você se acostuma com esse ‘nível’ de doçura a ponto da sua percepção necessitar de mais”, diz Ana Luisa.
Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um parecer desaconselhando o uso de adoçantes não açucarados para controle de peso em longo prazo, destacando que evidências não apontam benefício sustentado na redução de gordura corporal.
Entre janeiro e setembro do mesmo ano, o mercado brasileiro de bebidas dietéticas e de baixa caloria teve um crescimento de 20,6% em relação ao mesmo período de 2022, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad).
Impactos no metabolismo e comportamento
Para o médico endocrinologista Wandyk Allison, o consumo eventual de refrigerante zero pode ser um recurso válido para pessoas com diabetes ou em dietas de restrição calórica. Mas o uso frequente acende um alerta.
“Para diabéticos, pode ser uma ferramenta de redução de glicemia imediata, mas não deve substituir hábitos saudáveis. Para pessoas sem diabetes, o risco é se criar a ilusão de que o refrigerante zero é ‘inofensivo’, levando a excessos e manutenção de compulsão por doces”, afirma.
Ele acrescenta que estudos recentes investigam a influência dos adoçantes na microbiota intestinal, nos mecanismos de saciedade e, em alguns casos, aumento da preferência por sabores doces.
“Entre as possíveis consequências [do consumo] estão alterações na microbiota intestinal, manutenção da compulsão por doces, aumento do risco de síndrome metabólica em consumidores crônicos e perda de oportunidade de ingerir líquidos de melhor qualidade, como água, chás ou sucos integrais”, explica.
Mais saudável que suco?

Um dos argumentos mais repetidos por influenciadores fitness é que o refrigerante zero seria mais saudável do que sucos naturais, devido ao menor teor calórico. Para a professora Caroline Camila Moreira, da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal Fluminense (UFF), essa comparação é reducionista.
“O refrigerante zero não tem nenhum benefício, ele não era nem para ser recomendado o consumo. O que tem lá dentro são formulações químicas, aditivos químicos que mascaram características sensoriais. E nas bebidas naturais, como a própria palavra já diz, só tem alimento de verdade. Vão ser todos os benefícios que uma fruta, hortaliça ou a combinação delas pode propiciar. Então, são vitaminas, minerais, mais diversos nutrientes”, enumera.
Além disso, especialistas lembram que a acidez dos refrigerantes, mesmo sem açúcar, continua sendo prejudicial para a saúde bucal, podendo corroer o esmalte dentário.
“Há presença de corantes, conservantes, o pH é baixo, podendo impactar no esmalte dentário, sensibilidade gástrica, dentre outras consequências”, diz Ana Luisa, que acrescenta: “Há tempos vem sendo trabalhada uma narrativa nas redes contra o consumo de frutas e sucos de fruta focados principalmente no argumento da presença de frutose e o impacto glicêmico do seu consumo, que nesse aspecto seria melhor o refrigerante zero por não ter esse açúcar. É uma visão simplista. Não tem como comparar um suco que terá sua frutose mas diversos compostos bioativos, com uma bebida ultra processada”.
O que dizem os consumidores
Para quem tem uma rotina de treinos e dietas, o consumo desses líquidos já virou parte do dia a dia. É como o caso da publicitária Camila Souza, de 28 anos.
“Antes, eu tomava suco no almoço. Agora só compro refrigerante zero, porque não engorda e auxilia na minha dieta. Ao invés de beber o suco da fruta, eu prefiro consumir ela. Por exemplo: como uma laranja no lugar de tomar o suco, que consequentemente terá mais de uma laranja na composição. Mas, com o tempo, eu percebi que estava consumindo refrigerantes zero em quase todas as refeições”, conta.
O mesmo aconteceu com o estudante de design Artur Coutinho, 22. De tanto consumir os refrigerantes zero pela falsa ilusão de saciedade com alimentos doces, acabou criando um vício, que já gera reflexos na saúde.
“Usava para saciar minha vontade de comer doce, aos poucos fui criando um vício e, hoje, o consumo já está inserido na minha rotina. Eu sei que não faz bem, comecei a sentir dores no estômago frequentemente, como uma azia. Agora, estou tentando cortar de vez”, pondera.
Equilíbrio pode ser a chave?
Entre os especialistas, há um consenso: os refrigerantes zero não devem ser tratados como aliados indispensáveis da saúde. No entanto, existe algum equilíbrio? Para Allison, sim — desde que seja o último recurso na lista de líquidos para a ingestão na rotina.
“A melhor hidratação para quem treina é água. Se a pessoa sente necessidade de variar, pode usar água com gás, limão espremido, chás gelados ou até suco diluído. O refrigerante zero pode ser usado de forma pontual, mas nunca como substituto constante de líquidos mais saudáveis”, afirma.
Já a professora Caroline acredita que eles devem ser cortados de forma definitiva de uma alimentação saudável.
“Na minha visão, o papel dos refrigerantes zero numa alimentação equilibrada é que ele não precisaria existir, não há a necessidade de consumir refrigerantes. Não existe uma recomendação, não é um produto que faz falta na alimentação das pessoas para que elas se alimentem de forma equilibrada”, no entanto, ela reconhece: “É claro, tem pessoas que gostam muito de refrigerante, o ideal é tentar reduzir ao máximo esse consumo, até substituir parar sucos de frutas naturais ou comprar sucos de frutas pasteurizados”.


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