Num país que só pisou pela primeira vez em uma Copa do Mundo em 2002, depois de muuuuitas décadas tentando, o Equador conseguiu comprimir em um breve espaço de tempo, todos os ingredientes de uma telenovela sul-americana de alto padrão: misticismo xamânico exportado para a Europa, um atacante que fugiu da polícia numa ambulância no meio de uma partida, um lateral-direito colombiano que era equatoriano no papel, e três heróis da geração histórica que trocaram as chuteiras por mandatos parlamentares. O Equador é, sob qualquer critério razoável, uma das seleções mais interessantes do futebol mundial, o que não é pouca coisa para um time que acumulou fracassos classificatórios por décadas antes de descobrir, de repente, que não era tão ruim nisso de jogar bola.
A história da “La Tri” nas Copas pode ser curta em número de edições, mas generosa em episódios que demandariam vários roteiros. O Equador participou de quatro Copas do Mundo até 2022, tendo estreado na competição em 2002 e alcançado seu melhor resultado em 2006, quando foi eliminado nas oitavas de final. Há no futebol equatoriano uma vocação para o caos administrativo, o improviso institucional e a criatividade jurídica, que por acaso são qualidades valorizadas no gênero literário da tragicomédia política.
É bom dizer, para quem chegou até aqui esperando apenas estatísticas e escalações, que o verdadeiro jogo do Equador raramente acontece dentro dos noventa minutos regulamentares. Acontece nos corredores da FIFA, nos cartórios de registro civil de cidades colombianas, nos estádios onde policiais tentam prender o centroavante durante a partida e, claro, nas câmaras legislativas em Quito, onde ex-jogadores da geração histórica foram eventualmente enviados pelo mesmo eleitorado que antes os adorava nas arquibancadas. É um país que leva o futebol tão a sério que mistura futebol com tudo o mais que leva a sério, inclusive a política, a espiritualidade e o direito penal.

Desde quando o Equador disputa uma Copa do Mundo?
Tudo bem porque algumas vezes passou despercebido. O Equador demorou para encontrar o caminho que leva ao Olimpo do futebol, mas, quando descobriu, decidiu que não iria mais sair dali. A seleção equatoriana já participou de exatamente de quatro edições da Copa do Mundo: 2002 na Coreia do Sul e Japão, 2006 na Alemanha, 2014 no Brasil e 2022 no Catar. E cada uma dessas campanhas carregou um peso histórico diferente para o amadurecimento do esporte no país
A Seleção Equatoriana é conhecida como “La Tri”, que faz referência direta às três cores da bandeira do Equador. o amarelo representa a riqueza e os recursos naturais, o azul simboliza o céu e o oceano Pacífico, e o vermelho lembra o sangue derramado pelos heróis da independência do país.
Nas suas três primeiras participações, o Equador acabou se despedindo ainda na fase de grupos, deixando um rastro de lampejos técnicos e, invariavelmente, histórias extraordinárias fora das quatro linhas que rivalizam com o próprio desempenho dos atletas. Mas a melhor campanha da história equatoriana ocorreu em solo alemão, em 2006, quando a equipe conseguiu avançar para as oitavas de final, sendo eliminada pela Inglaterra graças a um gol de falta de David Beckham.
Mas nessa Copa rolou uma ajudinha extracampo.
Um xamã na comissão técnica
Para a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, a Federação Equatoriana de Futebol decidiu que o planejamento científico e a preparação física precisavam de um reforço que os mais modernos manuais europeus de táticas de futebol e nem a fisiologia moderna conseguiam oferecer. A comitiva oficial do Equador convocou formalmente o xamã Tzamarenda Naychapi para blindar o elenco contra energias negativas.
A presença do líder espiritual não era um segredo de vestiário, mas uma estratégia de Estado desportiva. Ele viajou com a delegação e visitou os doze estádios alemães antes do início do torneio, realizando rituais específicos para afastar os maus espíritos e purificar os gramados onde “La Tri” pisaria. Os jornais da época registraram as imagens do curandeiro espalhando fluidos e entoando cânticos nas arenas, o que gerou espanto nos organizadores alemães e na mídia global.

Mas quem era Tzamarenda Naychapi?
Bom, ele não era um personagem inventado por alguma agência criativosa de marketing esportivo, mas um autêntico líder espiritual da etnia Shuar, uma comunidade indígena nativa da Amazônia equatoriana. Conforme documentado pelo antropólogo equatoriano Plutarco Naranjo em seus estudos sobre a medicina andina, os Shuar possuem uma longa tradição de conexão com as forças da natureza, e Tzamarenda era respeitado como um curandeiro capaz de canalizar a energia dos ancestrais para trazer proteção e vitalidade.
A imprensa esportiva internacional tratou o episódio com bom humor, especulando que o xamã poderia ser uma das “figuras-surpresas” da Copa, dada sua incumbência de percorrer todos os estádios expulsando maus espíritos. E foi mesmo. Circulou com miss Equador, deu entrevistas para o mundo todo e, anos depois, em 2023, Tzamarenda foi eleito prefeito de Palora, na província de Morona Santiago. Mais uma prova de que, no Equador, a carreira política é o passo natural após o xamanismo ou o futebol.

A Seleção como propaganda de Estado
Durante o mandato de Rafael Correa (2007-2017), o governo utilizou intensamente a imagem da seleção equatoriana como peça central de propaganda para o seu projeto de “Revolução Cidadã”. O futebol tornou-se um dos vetores de construção da identidade nacional que Correa perseguia com obstinação comunicacional.
A comunicação política de Correa se caracterizava pelo uso habilidoso de símbolos com os quais a população se identificava, incluindo a bandeira, a figura do ex-presidente Eloy Alfaro, líder da Revolução Liberal Equatoriana e demais representações de unidade nacional. “La Tri” encaixava-se perfeitamente nesse repertório simbólico: uma seleção que havia classificado o Equador para sua primeira Copa do Mundo em 2002 e chegado, pela primeira vez, às oitavas logo depois era o tipo de conquista que qualquer governo gosta de incorporar à sua narrativa. O esporte funcionava como veículo de uma retórica que pregava a superação histórica do país e seu protagonismo no cenário mundial.


A fuga cinematográfica de Enner Valencia
O ápice do surrealismo no futebol sul-americano aconteceu no dia 6 de outubro de 2016, em Quito, durante uma partida das Eliminatórias contra o Chile. O atacante Enner Valencia entrou em campo carregando nas costas uma ordem de prisão emitida pela justiça equatoriana por dívidas acumuladas de pensão alimentícia. Na beira do gramado, policiais aguardavam o jogador para prendê-lo assim que o jogo terminasse.
A presença do atacante do Everton, da Inglaterra, naquele jogo esteve em dúvida até o apito inicial, quando finalmente chegou a notícia de que a Justiça equatoriana emitira uma ordem de prisão com base em uma dívida de pensão alimentícia de sua filha, estimada em cerca de US$ 17.000. O problema é que os times já estavam em campo.
Aos 35 minutos do segundo tempo, Ennner desabou no gramado simulando um colapso médico severo. Com uma rapidez cirúrgica, os médicos da seleção o colocaram em uma maca, instalaram uma máscara de oxigênio em seu rosto e o transportaram em direção a uma ambulância que aguardava na pista de atletismo. A cena seguinte entrou para a história: vários policiais de farda começaram a correr atrás da maca e da ambulância tentando interceptar o jogador, que conseguiu chegar ao hospital e, dias depois, revogar a ordem de prisão após um acordo financeiro.

Um colombiano fake?
O caso Byron Castillo foi um dos maiores suspenses das eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo do Catar, em 2022. O Chile entrou com um processo na FIFA após documentos indicarem que Byron Castillo, lateral do Equador em oito jogos das Eliminatórias teria nascido em Tumaco, na Colômbia em 1995, e não no Equador em 1998. A implicação era grave: se o lateral havia jogado com documentos falsos em 8 partidas, os pontos conquistados nessas partidas poderiam ser cassados, colocando o Chile na vaga equatoriana para o Catar.
Mas a FIFA nunca nos decepciona. O Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) considerou que o Equador havia utilizado sim documentos falsos ao inscrever Byron Castillo. Mas a seleção recebeu como punição apenas a perda de três pontos nas eliminatórias seguintes e uma multa. Os chilenos ficaram enfurecidos, mas nada podiam fazer. Caso encerrado. O Equador disputou o torneio no Catar, embora Castillo tenha sido cortado da lista final para evitar quaisquer novos problemas jurídicos.

Os heróis que passaram a usar terno e gravata
A classificação inédita do Equador para a Copa de 2002 transformou os jogadores praticamente em semideuses. De tão populares, o elenco “produziu” um ministro e três parlamentares. O presidente Rafael Correa, em 2011, nomeou o goleiro José Cevallos como Ministro do Esporte. Em 2013, o partido Alianza País lançou como candidatos a deputados o atacante Agustín Delgado (maior artilheiro da história da seleção), o lateral Ulises de la Cruz e o zagueiro Iván Hurtado. A ideia era clara: se eles levavam o país à Copa, podiam muito bem levar o país ao parlamento.
E não é que deu certo? Todos os três, pilares da campanha de 2002 conseguiram se eleger para o parlamento equatoriano, trocando as chuteiras pelas caneladas da atividade política. Hurtado não permaneceu muito tempo como parlamentar. Renunciou ao cargo para disputar a prefeitura de sua cidade natal, Esmeraldas, mas acabou derrotado e se afastou da vida pública.


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