Nos anos 1940 e 1950, caruru, vinagreira e taioba entravam no feijão sem precisar de rótulo orgânico, de selo de nutricionista nem de hashtag explicando que “é planta medicinal”. Bastava o quintal, a panela velha e uma avó que temperava tudo no olhômetro e acrescentava sabor com aquilo que tinha, sem precisar ir ao mercado. Hoje, mesmo em cidades como o Rio, muita coisa que é arrancada da terra como erva-daninha, é uma espécie comestível, nutritiva e rica em propriedades medicinais, e que já esteve na sua mesa antes de decidirmos, estupidamente, que comida é aquilo que vem em embalagem de plástico para aquecer no micro-ondas.
Conforme apontam pesquisadores do Instituto Kinupp-Lorenzi, essas plantas serviram para o sustento humano desde a Idade da Pedra, mas a maioria das pessoas não as reconhece mais, o que resultou no desuso, na falta de produção e na ausência de comércio. Traduzindo: a nossa bisavó sabia muito mais de nutrição do que nós jamais soubemos, só que ninguém deu a menor bola para ela. Ingratos!
E o que se perdeu não foi apenas um determinado sabor ou tradição culinária. O que se perdeu foi, em muitos casos, um arsenal nutricional de primeira ordem, disponível gratuitamente, se bobear, num vasinho na sua janela. Libere o Menino do Dedo Verde que mora no fundo do coração e vá (depois de ler esse artigo, claro) imediatamente plantar algo além de manjericão e alecrim.
Contexto
Em 2007, a tese de doutorado do botânico Valdely Kinupp, da UFRGS, cunhou o termo PANC, que apesar do nome que parece de estilo musical, ou de salgadinho barato, é na verdade a sigla para Plantas Alimentícias Não Convencionais. A intenção era batizar algo que, até então, a ciência tratava com certa displicência: centenas de espécies comestíveis, nutritivas e ricas em propriedades medicinais que o Brasil cultiva espontaneamente, ignora soberanamente e, com alguma frequência, arranca do quintal ou do canteiro da rua como erva daninha. São mais de três mil espécies catalogadas, segundo dados da própria Embrapa.
O modelo de cultivo era em boa parte o do quintal doméstico: um espaço que combinava horta, medicina e cozinha, gerido sobretudo pelas mulheres da casa, nossas vovós e bisas que conheciam de cor as propriedades de cada planta, como prepará-las sem risco e para que serviam.
Essa dieta da abundância acessível foi descartada em nome da modernidade sem que ninguém tivesse verificado se a modernidade oferecia algo melhor. Hoje as pessoas não têm mais o poder de decisão sobre o que comem, apenas escolhem seus alimentos dentro do que é ofertado. O controle dos sistemas agroalimentares é realizado por corporações transnacionais, induzindo a uma dieta padronizada e o abandono do cultivo e uso das PANCs.

Taioba: A rainha do quintal que virou vilã
A taioba (Xanthosoma sagittifolium) é uma planta de folhagem exuberante, cujas folhas em formato de seta eram presença obrigatória nos quintais brasileiros dos anos 1940. Era a base da sobrevivência, um refogado constante que acompanhava o feijão, celebrada por sua textura aveludada e sabor suave, que encantava quem não tinha medo de sujar as mãos na terra.
Contudo, a taioba sofreu um duro golpe na década de 1960, quando boatos e campanhas de desinformação a associaram a casos de intoxicação. A taioba entrou no radar de “planta tóxica” porque, quando mal preparada ou ingerida in natura em grandes quantidades, pode causar irritação gastrointestinal, queimação na boca e dificuldade de engolir, devido a substâncias que causam irritação intensa quando comidas cruas.
A taioba jamais deve ser consumida sem cozimento adequado — deve ser fervida em água, com descarte da água de cozimento. Esse detalhe técnico, que qualquer avó mineira conhecia de cor, acabou sendo esquecido junto com a receita. Hoje, a Taioba sobrevive em “ilhas de cultivo”, principalmente no Rio, Minas Gerais e Espírito Santo.

Caruru: o superalimento derrotado pelo Popeye
Caruru é um nome que designa tanto uma hortaliça quanto o prato típico baiano feito com quiabo e camarão seco. A planta, também chamada de bredo, é uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional) de crescimento espontâneo em jardins e terrenos baldios. É uma planta medicinal comum no Nordeste.
E aqui entra o absurdo. Não foi só culpa do Popeye, é claro, embora ele tenha dado uma involuntária mãozinha. Mas efetivamente o caruru foi posto de lado, em favor do espinafre, por uma série de questões agroindustriais. O espinafre é cultivado, embalado e transportado em escala, enquanto o caruru depende de redes locais e de saberes familiares que, em muitas cidades, simplesmente se apagaram.
Uma pesquisa da Universidade de São Paulo de 2020 confirmou que o caruru é muito superior nutricionalmente do que o espinafre. Só de ferro tem o triplo do concorrente arrumadinho. E um pequeno detalhe: suas sementes, tostadas, têm uso semelhante ao do badalado amaranto, que é do mesmo gênero botânico. O amaranto, aliás, é hoje vendido em lojas de produtos naturais a preços que fariam a sua bisavó rir tanto a ponto de não conseguir nem mesmo cozinhar um ovo.

Jurubeba: amargura que cura
A Jurubeba é uma planta arbustiva que, apesar de amarga, ocupou um lugar sagrado na medicina popular e na culinária rural. Considerada tônica e digestiva, era comum encontrar garrafadas de jurubeba em qualquer casa que se prezasse, sendo utilizada para combater problemas hepáticos e estimular o apetite, uma sabedoria passada de mãe para filha que desafiava a necessidade de medicamentos sintéticos.
Ela tem ação hepatoprotetora comprovada, anti-inflamatória, antioxidante e digestiva. Além disso, é amplamente reconhecida por sua eficácia em aliviar os sintomas desagradáveis da ressaca. Uma propriedade que as gerações anteriores conheciam empiricamente e que, convenhamos, explica muito sobre porque a jurubeba nunca sumiu completamente do horizonte brasileiro.
E o mais engraçado é que a planta que a bisa dava praquele genro esquisitão que voltara da noitada, acabou virando uma ampla gama de bebidas amargas que se tornaram ícones da cultura popular brasileira, especialmente no Nordeste.

O mais famoso desses produtos é a Jurubeba Leão do Norte, criada em 1920 por Paulo da Costa Lima e Sinval Costa Lima, em Feira de Santana, Bahia. Hoje, a Leão do Norte é descrita como um “vinho tinto seco composto com jurubeba”, com graduação alcoólica de 17%, que combina extratos de cravo, canela, quássia, boldo e genciana.
Mandioca roxa: um mundo menos colorido
A mandioca roxa é uma variedade de polpa que varia do violeta ao roxo‑escuro, rica em antocianinas, pigmentos naturais responsáveis pela cor e por parte de suas propriedades antioxidantes. Também conhecida como “aipim roxo” ou “macaxeira roxa”, essa variedade era tradicionalmente usada por povos indígenas para preparar o famoso cauim, uma bebida fermentada cerimonial.
Um dossiê do Iphan sobre sistemas agrícolas tradicionais quilombolas no Vale do Ribeira lista explicitamente a “Mandioca Roxa Mansa” e a “Mandioca Roxa Preta” entre as variedades crioulas preservadas por gerações. A mesma fonte registra que, até meados do século passado, os agricultores familiares classificavam suas plantas por nomes poéticos. como “Cacau roxa” ou “Branca‑roxa”, demonstrando que a cor era um atributo valorizado e não um defeito.
Além disso, compostos auxiliam na proteção das células contra danos causados pelos radicais livres, reduzindo o envelhecimento precoce e o risco de doenças crônicas. Estudos do mesmo artigo apontam ainda papel neuroprotetor e melhora da imunidade, graças à vitamina C presente no tubérculo.

Mas aí veio o progresso.
Uma lenda rural garante que a culpa pelo que aconteceu foi do governo, que determinou em portaria do Ministério da Agricultura, o fim do cultivo de variedades coloridas de mandioca. Mas a história verdadeira é bem menos emocionante. Na verdade, foi o sistema agroindustrial como um todo que, ao longo das décadas, tornou economicamente inviável o cultivo de mandiocas coloridas.
Dentre as variedades mais populares, a amarela (rica em betacaroteno), a rosada (rica em licopeno) e a roxa (rica em antocianinas) foram preteridas simplesmente porque não ficavam brancas na farinha. Assim, a padronização não veio por um ato ministerial qualquer, mas pela lógica fria da logística: o que não era branco e não durava não compensava. E a mandioca roxa pagou o preço.


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