O empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria financiado uma rede internacional de prostituição que recrutava mulheres para festas privadas frequentadas por empresários, autoridades e pessoas próximas ao banqueiro. Segundo reportagem publicada por Natália Portinari no portal UOL, mensagens obtidas do celular de Vorcaro mostram que ele participava diretamente da seleção das mulheres, autorizava pagamentos e discutia a estrutura de uma agência destinada a organizar as contratações.
O esquema descrito nas conversas teria começado em 2023 e envolvido intermediários no Brasil e no exterior, além de investimentos de pelo menos R$ 4,3 milhões. Entre as mulheres recrutadas estavam russas, ucranianas, venezuelanas, argentinas e polonesas, incluindo refugiadas da guerra na Ucrânia.
A Polícia Federal abriu um inquérito em maio para investigar possíveis irregularidades na contratação de estrangeiras para os eventos. As apurações incluem suspeitas de exploração sexual e possíveis situações de tráfico de pessoas, ainda sem conclusão definitiva.
No Brasil, a prostituição exercida voluntariamente por adultos não constitui crime. A legislação, entretanto, prevê punições para determinadas formas de exploração sexual por terceiros e para o tráfico de pessoas nas circunstâncias previstas em lei.
Refugiadas ucranianas estavam entre as mulheres recrutadas
Uma das situações mais delicadas reveladas pelas mensagens envolve uma refugiada ucraniana de 19 anos, que chegou ao grupo de Vorcaro em outubro de 2023, durante a organização de uma festa de Halloween.
A jovem permaneceu no Brasil enquanto seu país enfrentava bombardeios. Em novembro daquele ano, o promotor de eventos Diogo Batista, apontado como um dos principais intermediários, relatou ao banqueiro a presença de refugiadas ucranianas.
“Tem 3 refugiadas aqui? Ucranianas”, escreveu Diogo. Vorcaro respondeu: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”.
Em dezembro, ao ser questionado sobre quantas estrangeiras ainda permaneciam no país, Diogo informou que uma delas não tinha para onde retornar.
“1 só. Ela não tem pra onde ir. Estão bombardeando a cidade dela”, respondeu.
Em outra mensagem, o intermediário afirmou que havia impedido a saída da jovem para a Itália, onde ela pretendia buscar refúgio.
“Segurei ela pq ela ia sair pra se refugiar na Itália”, escreveu.
Os diálogos também mostram discussões sobre a possibilidade de incorporar essas mulheres a uma agência de modelos vinculada ao grupo.
Em abril de 2024, Vorcaro determinou uma nova avaliação das estrangeiras que permaneceriam no Brasil. “Ucrania e Russia vamos mandar embora”, escreveu ao intermediário.
As circunstâncias em que essas mulheres foram recrutadas, mantidas no país e contratadas estão entre os pontos que exigem esclarecimento das autoridades.
Agência de modelos teria recebido investimento de R$ 1,5 milhão
A reportagem também revela negociações envolvendo a Allure Eventos, empresa que seria utilizada para organizar o recrutamento e a contratação das mulheres.
Em dezembro de 2023, Vorcaro recebeu um contrato para adquirir 50% da agência por R$ 1,5 milhão. A empresa pertencia ao empresário Felipe Nisti Cataldo.
Segundo as mensagens, o pagamento seria realizado em três parcelas de R$ 500 mil. Um comprovante encontrado no celular do banqueiro indicaria que uma das transferências foi feita pela Super Empreendimentos, empresa ligada a operações financeiras de Vorcaro.
Em janeiro de 2024, Diogo Batista comunicou ao empresário que o contrato havia sido assinado. “Assim estamos blindados!”, escreveu.
O proprietário da Allure, entretanto, apresentou uma versão diferente. Procurado pelo UOL, Felipe Nisti afirmou que Vorcaro demonstrou interesse na empresa, mas que as negociações não foram concluídas.
Sobre uma transferência de R$ 500 mil identificada nas mensagens, declarou que precisaria verificar a origem e a finalidade do pagamento.
As conversas também indicam que o banqueiro pretendia utilizar a agência para ampliar o recrutamento de mulheres em diferentes regiões brasileiras.
Em janeiro de 2024, Vorcaro pediu que fossem buscadas candidatas no Sul do país para o “cadastramento Allure”.
Festas reuniam dezenas de mulheres no Brasil e no exterior
O material obtido pelo UOL descreve eventos organizados em São Paulo, Rio de Janeiro e cidades estrangeiras, incluindo Londres, Paris, Roma e Dubai.
A logística internacional ficava principalmente sob responsabilidade de Leonardo Serrano, proprietário da SL Consulting, empresa sediada na Flórida. Ele organizava hospedagens, passagens aéreas, pagamentos e a contratação de mulheres por meio de intermediários locais.
Na ocasião, Serrano contabilizou 74 participantes, enquanto Diogo Batista teria levado outras 40, hospedadas em 21 quartos do hotel Rosewood.
Em Londres, durante um evento realizado em abril de 2024 que contou com a presença de autoridades brasileiras, as conversas apontam que 99 mulheres foram contratadas.
Em junho daquele ano, durante a organização de uma festa na França, Serrano sugeriu disponibilizar 3 mil euros para compras a cada uma de oito mulheres. Vorcaro autorizou um valor superior.
“Pode ser 4”, respondeu o banqueiro. “Essas meninas escravas são demais.”
As mensagens revelam ainda o uso recorrente de expressões depreciativas para se referir às mulheres. Vorcaro e seus intermediários utilizavam termos como “escravas” e “kengas”, além de apelidos para identificar participantes dos eventos.
Em uma conversa, Diogo Batista descreveu a relação de subordinação que mantinha com o empresário.
“Eu e vc somos o time! Vc é o chefe e eu seu Cavaleiro PitBull!”, escreveu. “Chefe manda e a gente executa”.
Faturas milionárias e pagamentos ligados a empresas
A investigação jornalística identificou 21 faturas emitidas pela SL Consulting entre abril de 2024 e março de 2025, que somam aproximadamente US$ 70 milhões.
Os documentos foram direcionados à Moriah Asset, gestora sediada em Belo Horizonte, e descreviam despesas com eventos, hospedagens, hospitalidade e fretamentos.
Segundo a reportagem, Vorcaro encaminhava essas cobranças ao setor financeiro do Banco Master.
O valor total das faturas, entretanto, não corresponde necessariamente a despesas com prostituição, uma vez que os documentos também incluíam outros serviços relacionados à realização dos eventos.
No Brasil, parte dos gastos com passagens e hotéis das mulheres seria direcionada à Prime You, conforme mensagens trocadas entre os envolvidos.
Diogo Batista também recebia pagamentos próprios. De acordo com o material divulgado, o promotor de eventos tinha uma remuneração mensal de R$ 120 mil paga por Vorcaro.
Em setembro e outubro de 2024, Serrano solicitou autorização para quitar despesas relacionadas ao grupo de Diogo nos valores de R$ 350 mil e R$ 260 mil.
Em janeiro de 2025, o banqueiro determinou a interrupção dos repasses ao intermediário.
“Não é pra ter pagamento nenhum seu de qualquer coisa de Diogo a partir deste ano”, escreveu.
Polícia Federal investiga suspeitas de exploração sexual
As mensagens indicam que Vorcaro não se limitava a frequentar os eventos. Segundo o material divulgado, ele participava de decisões sobre recrutamento, pagamentos, permanência das mulheres e organização das festas.
Em novembro de 2023, o banqueiro chegou a determinar a substituição de integrantes do grupo.
“Vamos mandar embora. Depois trazemos quem quisermos. Ficou muito burburinho. Vamos zerar e recomeçar”, escreveu.
Em outra conversa, pediu a realização de uma seleção de aproximadamente 20 mulheres.
A Polícia Federal apura se a estrutura descrita nos diálogos envolveu crimes relacionados à exploração sexual e ao tráfico internacional de pessoas.
A eventual caracterização de tráfico depende da comprovação dos elementos previstos na legislação, como ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, associados às finalidades ilícitas investigadas.
Leonardo Serrano e Diogo Batista, apontados como personagens centrais na organização dos eventos, não responderam aos contatos feitos pelo UOL, segundo a publicação.







Deixe um comentário