Convenhamos, há algo de irresistivelmente cômico em imaginar senhoras vestidas com roupas pesadas de lã grossa, sendo amparadas por homens contratados para que não fossem derrubadas pelas ondas do mar ao mergulhar. O Rio, que hoje dita a moda mundial com biquínis e sungas, já foi palco de cenas que fariam a delícia de qualquer escritor de comédia.
No começo do século XX, ir à praia na Guanabara não era exatamente sinônimo de lazer e descontração. O banho de mar, hoje tão natural para cariocas e simpatizantes, era regulado por decretos municipais, cercado de regras de etiqueta e até de horários rígidos. A cidade que hoje se orgulha de sua vocação praiana vivia um tempo em que a areia e o mar eram espaços de disciplina e saúde pública, mais do que de diversão.
Entre regulamentos, roupas pesadas e horários divididos por sexo, o carioca aprendeu “como” frequentar a praia antes mesmo de aprender a relaxar nela. O que hoje parece espontâneo foi, por muito tempo, disciplinado a ponto de ser hilariante. Partiu praia?

Quando as pessoas começaram a ir à praia tomar banho de mar no Rio?
No começo do século XX, ir à praia estava longe de ser o ritual democrático, solar e despojado que hoje se espalha do Leme ao Pontal. O banho de mar era prescrito por médicos, regulado pelo poder público e vigiado por códigos morais rigorosíssimos.
Antes usava-se o mar basicamente para deslocamentos de barco, até a famosa história da mordida do carrapato no príncipe Dom João, que por recomendação médica recorreu às águas da Praia do Caju, inaugurando a moda dos banhos terapêuticos.
Estudos como os de Claudia Braga Gaspar e pesquisas em jornais da época mostram que o banho de mar era indicado como tratamento terapêutico e não como lazer. A prática estava associada à chamada talassoterapia, importada de correntes médicas europeias.
A talassoterapia ganhou prestígio na Europa do século XIX e foi incorporada ao discurso médico brasileiro. No Rio, os médicos recomendavam banhos salgados para tratar fraqueza, problemas nervosos e distúrbios circulatórios.
A visão da praia era como extensão do consultório médico.
Como era ir à praia nesse período?
O ritual era tão curioso quanto complicado. Os banhistas chegavam à praia usando trajes sociais completos: homens de terno e mulheres com longos vestidos. Em seguida entravam nas “casas de banho”, pequenas cabines de madeira, equipadas com espelho e um pequeno banco, onde trocavam essas roupas por um traje de banho especial.
A exposição prolongada ao sol não era valorizada. O bronzeamento só se tornaria moda décadas depois, influenciado por mudanças culturais vindas da Europa e dos Estados Unidos. Além disso, a sociabilidade era marcada por distinções de classe. As elites frequentavam praias centrais, como Santa Luzia e Flamengo, enquanto a expansão para Copacabana e Ipanema só viria mais tarde.
As mulheres mergulhavam mesmo em roupas de lã?
Segundo alguns pesquisadores, as primeiras mulheres a dar um tchibum numa praia carioca usavam roupas de burel. O problema é que o burel é um tecido de lã grosso, tradicional em regiões frias de Portugal que, quando molhado, dava a quem o usasse a sensação de estar enfiado numa pesada armadura medieval.
Logo as meninas trocaram de tecido, e passaram a confeccionar seus “fatos de banho”, com flanelas finas e algodão. Mas elas ainda tinham uma longa batalha pela frente. Para mergulhar, elas precisavam usar vestidos de mangas longas, golas altas e calças bufantes por baixo, além de meias pretas e sapatos de lona.
Pesquisas iconográficas e registros fotográficos mostram que os tecidos eram pesados e pouco práticos para o mergulho. A mobilidade era limitada, e o traje tinha mais compromisso com o decoro do que com o conforto.
O objetivo não era nadar, mas manter a decência.

E os homens no meio disso?
A moda masculina era mais suave, mas também não era nada prática. Os homens usavam macacões ou calças largas, geralmente na altura do joelho ou um pouco abaixo, confeccionados em flanela fina. A parte de cima consistia em camisas de manga comprida, também de tecido grosso, que muitas vezes eram deixadas para fora da calça. Um must have eram os modelos listrados inspirados em uniformes de marinheiros.
O conceito era o mesmo: cobrir o máximo de pele possível. Mostrar peitoral peludo e os braços de fora era uma violação grave dos bons costumes. Assim como as mulheres, eles também usavam sapatos. A diferença básica é que, para os homens, a vestimenta permitia um pouco mais de mobilidade, embora o desconforto fosse generalizado.
Antes da popularização desses trajes, não era incomum ver homens de terno e chapéu na areia, retirando apenas os sapatos e as meias para molhar os pés.
O que eram os “homens-banheiros”?
Aqui não há nenhuma escatologia. Em uma época em que as mulheres vestiam quilos de roupa para entrar no mar, a figura do “banheiro” era essencial. Esses homens, geralmente pescadores ou pessoas com experiência no mar, eram contratados para auxiliar as senhoras e senhoritas durante o banho.
Eles ficavam postados na beira da água e, quando uma onda se aproximava, seguravam firmemente as mulheres para que elas não levassem um caldo ou fossem arrastadas por alguma correnteza. Era um trabalho que exigia força e discrição, garantindo que as damas pudessem desfrutar dos benefícios da talassoterapia sem se afogar ou perder a compostura.
O primeiro “Choque de Ordem”
Se o traje já era restritivo, o relógio também mandava nos banhos de mar. Em 1917, o governo estabeleceu regras rígidas para o uso da praia, não por questões de segurança ou lotação, mas devido ao sol. Isso mesmo: não existia filtro solar, e acreditava-se que os raios solares eram perigosos, especialmente em determinados horários.
O Decreto 1.143 de maio de 1917 estabeleceu que os banhistas só poderiam ir à praia em jejum e em horários específicos: das 6 às 9 horas da manhã e das 16 às 20 horas. Essa regra vigorava de 1º de abril a 30 de novembro. No restante do ano, o período era ampliado em uma hora, incluindo os domingos.
O texto estabelecia ainda horários distintos para homens e mulheres, buscando preservar o “decoro público”. Mulheres deveriam frequentar a praia em determinados períodos, e homens em outros, evitando a mistura considerada imprópria.
Ele também proibia que os banhistas permanecessem trajados com seus “fatos de banho” fora da zona da areia e impunha multas para quem se “exibisse” demasiadamente. A ideia era evitar que a luz do dia revelasse as silhuetas dos corpos molhados, protegendo a moral das famílias que passeavam pela orla. Poder rir que ainda é de graça.
Quais praias eram as mais badaladas?
No início do século, as praias favoritas eram as da Baía de Guanabara, como Santa Luzia (no Centro) e Flamengo. Eram águas calmas e próximas ao centro urbano. No entanto, com a abertura do Túnel Novo em 1906, Copacabana começou a ser “descoberta”. O acesso às praias oceânicas era difícil e considerado uma aventura para os fins de semana.
Machado de Assis talvez tenha sido o primeiro a reparar no ato de ir à praia como um ritual para ver e ser visto: “O banho de mar é, para muitos, um sacrifício que se oferece à higiene, com a condição de que a assistência seja numerosa. Há quem não entre na água sem primeiro verificar se há na areia um par de olhos que valha o mergulho”, escreveu. Ele só não previu a verdadeira revolução que tomaria as praias cariocas décadas depois.
A expansão para o Atlântico mudou a dinâmica da cidade. Copacabana, que era um subúrbio distante tornou-se o novo “Eldorado”. A historiadora Claudia Braga Gaspar observa que essa migração para mar aberto trouxe novos perigos (correntezas mais fortes) e, consequentemente, mudanças urbanas e sociais que transformaram o bairro no símbolo internacional que conhecemos hoje.
1946: o ano em que o mundo (e o Rio) conheceu o biquíni
Os anos 1940 e 1950 foram dominados pelos maiôs de peça única, que, no entanto, já eram significativamente mais ajustados e ousados que os trajes do início do século. Mas a data de 5 de julho de 1946 marca um divisor de águas na história da moda praia mundial. Foi nesse dia que o estilista francês Louis Réard apresentou ao mundo o primeiro biquíni. O nome foi inspirado no Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, onde ocorreram testes com bombas atômicas no mesmo ano: uma referência ao “efeito explosivo” que Réard esperava que a peça causasse.
E causou mesmo. A historiadora Miti Shitara recorda que “o modelo foi um estouro, um escândalo e não pegou” inicialmente. O biquíni era tão reduzido para os padrões da época que Réard teve dificuldade em encontrar uma modelo profissional que aceitasse usá-lo para fotos de propaganda, e precisou recorrer a Micheline Bernardini, uma dançarina do Cassino de Paris, que mesmo assim relutou muito até topar (por um bom cachê).
Na Guanabara, a novidade chegou com atraso e encontrou um terreno cultural bastante peculiar. Enquanto francesas e americanas ainda digeriam a novidade, as cariocas e simpatizantes começariam, anos depois, a adaptar o modelo ao gosto tropical.
A popularização definitiva
A década de 1960 trouxe dois elementos decisivos. O primeiro foi tecnológico: a invenção da lycra, um material elástico e de secagem rápida que revolucionou os trajes de banho, tornando-os mais confortáveis, justos e com melhor caimento.
A lycra contribuiu para a grande virada na moda masculina, e com ajuda de um herói improvável. Desde 1932, quando o nadador norte-americano Johnny Weissmuller apareceu de tanga e torso nu no filme “Tarzan”, os homens tiraram a camisa e foram variando o tamanho e design dos seus calções. Das tangas aos bermudões surfistas.
O segundo foi cultural: a pílula anticoncepcional e a revolução sexual fizeram a mulher se sentir dona do próprio corpo. Segundo Miti Shitara, “a pílula anticoncepcional fez a mulher se sentir dona do próprio corpo e elas começaram a separar o desejo sexual da procriação. Com isso, os biquínis ficaram ainda menores.
Lá e cá
E se a França criou o biquíni, o Rio o adaptou e reinventou. O professor Roberto Rubbo, do Senac, explica que no final da década de 1970 surgiu a moda do “enroladinho”. As cariocas enrolavam as laterais do biquíni para que eles ficassem ainda mais cavados.
Nos anos 1980, surgiu o biquíni asa-delta, que alongava a cintura e valorizava os glúteos. A estilista Dhora Costa afirma que o modelo foi uma febre no país. E como filho do asa-delta, ainda nos anos 1980, chegou ao mercado o biquíni fio dental. Esses modelos, no entanto, tiveram pouca aceitação ao redor do mundo. Curiosamente, a estilista observa que “ainda existem praias na Espanha onde é permitido topless, mas não o fio dental”.
A razão para a difusão desses modelos, segundo a especialista, está na forma física da mulher carioca e na forte cultura de praia da cidade: “O Rio é tropical, quente, a cultura de praia é forte aqui e as cariocas têm uma anatomia privilegiada, além de gostarem de exibir o corpo”.
Hoje, o Brasil é referência em moda praia e exporta suas criações para o mundo inteiro.


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