No coração da Bela Vista, região central de São Paulo, um terreno vazio de cerca de 11 mil metros quadrados virou símbolo de uma das disputas urbanísticas e culturais mais longas da cidade. Depois de décadas de embates entre o Teatro Oficina e o grupo empresarial de Silvio Santos, a Prefeitura paulistana decidiu transformar a área no futuro Parque do Bixiga, um projeto que tem como ideia central algo quase impensável numa metrópole asfaltada: desenterrar um córrego escondido sob o solo da cidade.
A proposta parece saída do sonho acordado de algum bicho-grilo. Um rio soterrado reaparece. Um teatro histórico deixa de ser encurralado por torres de concreto. Um bairro sufocado por ilhas de calor ganha árvores, jardins e espaço público. E onde dezenas de rios desapareceram sob avenidas e galerias subterrâneas, o Córrego Saracura virou personagem destacado de uma batalha que misturou arquitetura, memória, especulação imobiliária e ativismo cultural.
Durante anos, o terreno ao lado do Oficina serviu como um estacionamento cercado por disputas judiciais. Mas para artistas, urbanistas e moradores, ali sempre existiu algo invisível correndo sob a terra: o antigo córrego do Saracura. Reabri-lo passou a representar mais do que uma obra ambiental. Tornou-se um manifesto contra uma cidade que enterra rios para abrir espaço aos carros e aos novíssimos prédios-bunker, com dezenas de andares e a recorrente arquitetura metida a neoclássica para parecer chique.
Silvio Santos vs o Teatro Oficina
Ela foi uma das maiores batalhas judiciais e culturais da história daquela estranha cidade cinza ao sul do Brasil. Tudo começou na década de 1980, quando o Grupo Silvio Santos adquiriu um lote de 11 mil metros quadrados no bairro do Bixiga com a intenção de construir um grande empreendimento imobiliário que incluía três torres de 100 metros de altura. O projeto colidia frontalmente com a visão de preservação cultural e ambiental defendida pelos integrantes do Teatro Oficina, vizinho imediato da área.
E caso você não entenda nada de teatro, fica a dica: o Teatro Oficina, oficialmente denominado Teatro Oficina Uzyna Uzona, é uma das companhias teatrais mais importantes, longevas e revolucionárias do Brasil. Fundado em 1958 por estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, entre os quais se destacava Zé Celso Martinez Corrêa, o grupo se tornou um símbolo de resistência artística e política, especialmente durante os anos de ditadura militar no país. O Oficina revolucionou as artes cênicas ao romper com o modelo de teatro burguês tradicional, propondo espetáculos imersivos, performáticos e de forte contestação social.

Por que não havia acordo entre as partes?
A sede atual do teatro, inaugurada na década de 1990 com projeto arquitetônico assinado por Lina Bo Bardi (a mesma do Masp) e Edson Elito, é uma obra-prima da arquitetura mundial e um patrimônio tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O edifício possui um formato de passarela estreita ladeada por galerias de andaimes, com uma imensa parede lateral de vidro que integra o espaço cênico diretamente ao ambiente externo e ao bairro.
Em 2017, Sílvio Santos e Zé Celso tentaram um acordo sem sucesso, e a reunião foi divulgada pelo teatro, o que teria incomodado o dono do SBT. A batalha jurídica que se seguiu foi longa. E o final foi mais um desses episódios que mostram que a história do Brasil tem um roteirista muito criativo.
Em 2024 a Prefeitura resolveu encerrar o imbróglio e comprar o terreno para fazer um parque. Tudo foi devidamente acertado entre as partes, mas nem Zé Celso, nem Silvio Santos, assistiram ao final da novela. O diretor morreu em julho de 2023 e o apresentador em agosto de 2024. A compra foi oficializada um mês depois.

Bixiga para cariocas e simpatizantes
Para explicar o Bixiga a um carioca, a analogia mais fácil é imaginá-lo como uma mistura cultural e geográfica entre a Lapa e a Santa Teresa, com um fortíssimo tempero italiano. Assim como a Lapa, o Bixiga, que na verdade é o nome popular de parte do bairro da Bela Vista, é o coração boêmio e teatral do Centro da cidade, pulsando com uma vida noturna vibrante, bares tradicionais e uma efervescência artística que tem no Teatro Oficina o seu maior símbolo de resistência.
A grande alma do bairro, no entanto, reside na fusão histórica entre a imigração italiana do final do século 19 e a cultura negra e nordestina. Enquanto a herança italiana se manifesta nas cantinas familiares, nas pizzarias tradicionais e na famosa festa de Nossa Senhora Achiropita, a negritude do bairro fincou raízes profundas na história do samba paulistano, sendo o Bixiga o berço da tradicional escola de samba Vai-Vai.

Mas que história é essa de desenterrar um rio?
Comprado o bendito terreno, a Prefeitura tinha de dar alguma utilidade a ele. Após exaustivas discussões em 2025, decidiu-se por fazer um concurso público no início deste ano. O projeto vencedor foi apresentado pelo escritório Democratic Architects , um coletivo liderado por Antônio Roberto Zanolla, arquiteto, urbanista e geógrafo que nasceu no Bixiga, assim como sua mãe e avó. E ele ainda se casou na Igreja da Achiropita, que fica localizada no minibairro.
Mas a renaturalização do Córrego Saracura, hoje canalizado e soterrado, não foi uma ideia que surgiu do projeto vencedor: ela era a diretriz central do próprio concurso. No projeto aprovado, o rio passará a correr a céu aberto e servirá também para captar água da chuva.
O que é “renaturalização”?
Também conhecida no meio técnico como daylighting quando aplicada a cursos d’água, é o processo ecológico de restaurar ecossistemas degradados ou modificados pela ação humana, devolvendo-lhes as suas características e funções naturais. No contexto do urbanismo moderno, essa prática consiste em retirar rios e córregos de galerias subterrâneas de concreto e devolvê-los à superfície, recriando as suas margens com vegetação e solo permeável.
Essa técnica substitui a antiga lógica de engenharia que via os rios urbanos praticamente apenas como canais de escoamento de esgoto. A renaturalização reduz as ilhas de calor e ajuda na drenagem urbana por meio de jardins de chuva que absorvem o excesso de água em períodos de cheia. Em cidades como Munique, na Alemanha, ou Seul, na Coréia do Sul, os governos desfizeram obras de canalização do século 20 e devolveram os rios Isar e Cheonggyecheon ao espaço público, com resultados positivos em qualidade ambiental, redução de temperatura e bem-estar urbano.

O parque será integrado ao Teatro Oficina?
Sim, e essa integração era um sonho antigo. O projeto original de Lina Bo Bardi já previa um parque atrás do teatro, um espaço contemplativo público, mas integrado à vida cultural do Oficina. O que o projeto do Parque do Bixiga faz, décadas depois, é finalmente dar forma a essa visão.
A famosa parede de vidro do teatro passará a se abrir diretamente para o interior do parque, permitindo que as manifestações artísticas e a natureza se fundam em um único cenário vivo. A transição entre o espaço teatral e o parque será feita por meio de uma arquibancada-arrimo que conecta os diferentes níveis topográficos do terreno. Essa estrutura criará uma grande área de permanência e anfiteatro ao ar livre, permitindo a realização de apresentações culturais, ensaios e intervenções artísticas na parte externa. O parque foi planejado para ser uma extensão natural da vocação cultural do Oficina, transformando o antigo terreno disputado em um espaço de celebração da arte pública.
A inauguração está prevista para janeiro de 2027. Com festa do pessoal do Oficina, claro.

O Rio comportaria um projeto assim?
Um só não, muitos. Só que a maioria das iniciativas está, digamos assim, em estado embrionário. Um dos exemplos mais citados por geógrafos e urbanistas é o Rio Carioca, um curso d’água de imensa importância histórica e cultural que nasce no Parque Nacional da Tijuca e corre inteiramente canalizado sob bairros populosos como Cosme Velho, Laranjeiras e Flamengo antes de desaguar na Baía de Guanabara. A reabertura de trechos em praças ou áreas subutilizadas da Zona Sul poderia criar parques lineares fantásticos e mitigar os crônicos problemas de enchentes da cidade.
Há, também, um grupo de trabalho coordenado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima estuda a requalificação do Rio Maracanã com base em soluções naturais. A ideia é apresentar um projeto até o fim deste ano.
E outra alternativa viável seria o Rio Comprido, que dá nome ao seu próprio bairro na Zona Norte. Conforme registros de intervenções da Fundação Rio-Águas, a bacia do Rio Comprido e de seus afluentes, como o Rio Trapicheiros, passa constantemente por obras de manutenção de galerias e controle de cheias.
A criação de um parque urbano focado no daylighting em áreas degradadas dessas sub-bacias traria benefícios imensos para as comunidades locais, ajudando a reduzir o efeito das ilhas de calor e qualificando o espaço público da Zona Norte de forma inovadora.


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