Se o Rio de Janeiro fosse um poema, esta cidade seria o verso torto que escorrega e suja a rima. Mas caso você esteja procurando um destino turístico que combine falésias vendidas como deslumbrantes e uma desigualdade social de assustar qualquer estudante de Economia, São Francisco de Itabapoana é o lugar ideal.

Localizada no extremo oriental do estado do Rio de Janeiro, essa cidade de 1.118 km² e aproximadamente 45 mil habitantes oferece praias (quase) paradisíacas e uma natureza exuberante, mas também ostenta índices de desenvolvimento humano que fariam qualquer cidade do interior parecer uma metrópole. Não à toa, figura em qualquer pesquisa como a pior cidade do Rio de Janeiro.

São Francisco de Itabapoana combina desigualdade extrema, serviços precários e baixa qualidade de vida, enquanto uma pequena elite acumula riqueza, a maior parte da população sobrevive com rendas mínimas e infraestrutura quase inexistentes.

Com uma renda média de apenas R$ 302, a cidade aparece em último no Índice de Progresso Social (IPS) de 2024, com magros 51,12 pontos, entre os 92 municípios do estado. E, agora, vê no ecoturismo uma alternativa de desenvolvimento, embora a infraestrutura turística limitada, com acesso precário e escassez de serviços básicos, tornam a experiência do visitante um verdadeiro teste de resiliência.

São Francisco de Itabapoana é uma obra-prima do esquecimento institucional: espaço e gente separados por quilômetros, serviços que não chegam e uma elite que está confortável demais para se incomodar. Se fama de pior fosse troféu, a cidade seria a diva absoluta nesse concurso fluminense. Mas o que brilha ali mesmo é só o descaso convertido em estatísticas tristes. 

Se fama de pior fosse troféu, cidade seria diva no concurso fluminense | Crédito: Reprodução

História de São Francisco de Itabapoana

 As origens dessa joia inacreditável do atraso remontam ao tempo das Capitanias Hereditárias, quando Pero Góis da Silveira, donatário da Capitania de São Tomé, estabeleceu em 1539 um núcleo original na região próxima ao Rio Itabapoana para plantação de cana-de-açúcar.

Só que ele precisou voltar para Portugal e mandou o filho Gil de Góis tomar seu lugar. O plantio cresceu. Mas Gil, tal qual um Napoleão tupiniquim, conseguiu tretar ao mesmo tempo com as tribos coroados ao norte e as dos goitacás ao sul, e, após diversos ataques, o cultivo foi abandonado.

Precisou de mais um século até juntar gente o bastante ali para formar uma vila, que se desenvolveu aos trancos e barrancos, até se emancipar do atual município de São João da Barra em janeiro de 1995. O nome homenageia São Francisco de Paula, o “Eremita da Caridade”, e “Itabapoana” vem do tupi e quer dizer “correnteza de água”.

Por que é a pior cidade para se morar no Rio?

Além de raspar o fundo do IPS, a cidade sofre com mortalidade infantil alarmante (31,89%) e índices de desenvolvimento sofríveis, como o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de apenas 0,639, bem atrás da média do estado (0,762).

Enquanto a renda média é de míseros R$ 302,21, a pequena elite local (6,31% da população) detém um patrimônio médio de R$ 470 mil, superior até à elite de Niterói em valor acumulado por pessoa.

A arquitetura em São Francisco de Itabapoana é mais “pé no chão” do que palacete no litoral.  Casas baixas, térreas, muitas de alvenaria simples e fachadas pintadas com cores vivas se misturam a construções de madeira rústica.

Ou seja, enquanto a maioria vive com renda pequena, um punhado vive em relativo conforto, mas sem casarões monumentais. Não há mansões, sedes de fazenda imponentes ou sobrados históricos: aqui sobra dinheiro e falta bom gosto para alguns.

Então não tem nada de bom lá?

Honestamente? As falésias de 10 metros da Praia da Lagoa Doce são o tipo de cartão-postal que os guias turísticos locais adoram vender como “tesouro geológico”, mas que na prática são paredões de terra avermelhada erodida pelo tempo e pela chuva, lembrando muito mais uma ferida aberta na paisagem do que uma maravilha natural. 

Já o barracão de Gargaú, por sua vez, é um monumento à improvisação brasileira: uma grande construção comunitária usada para festas, shows e eventos religiosos, que já foi palco tanto de bailes populares quanto de missas campais.

Em São Francisco de Itabapoana, as praias oferecem uma experiência singular que mistura charme rústico e desafios naturais. A temperatura da água é geralmente morna, proporcionando conforto para os banhistas e as condições do mar variam ao longo do ano, com ondas que podem atingir até um metro de altura e ventos moderados, criando um ambiente onde dá até para pegar umas ondas.

No entanto, a infraestrutura local é limitada, com ausência de guarda-vidas e sinalização deficiente, o que pode comprometer a segurança dos banhistas.

Falésia em São Francisco de Itabapoana: mais erosão que ‘tesouro geológico’ | Crédito: Reprodução

Como chegar?

São Francisco de Itabapoana fica no extremo oriental do Rio de Janeiro. De carro, prepare-se para umas cinco a seis horas de estrada saindo da Guanabara pela BR-101 via Campos dos Goytacazes e depois pela RJ-224. De ônibus, a viagem leva em torno de sete horas, com passagens começam em R$ 131. 

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