Um ano depois, transplantes com órgãos contaminados por HIV ainda sem punições

Pacientes seguem com sequelas e processo judicial se arrasta; laboratório responsável por exames falsos foi interditado em Nova Iguaçu

Passados doze meses desde a revelação do caso de infecção por HIV em transplantes realizados no Rio de Janeiro, nenhum dos responsáveis foi condenado, revela o telejornal RJ2 da TV Globo. O escândalo, descoberto em outubro de 2024, envolveu seis pacientes que receberam órgãos contaminados após exames com resultados falsos negativos emitidos pelo Laboratório PCS Saleme, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

A vida após o transplante
Um dos pacientes, um idoso de 77 anos, tenta retomar a rotina após receber um fígado infectado. Ele precisa tomar dois antirretrovirais diariamente e ainda teme que o vírus volte a se manifestar. “A carga viral diminuiu, mas não está onde deveria. Fico com medo”, diz. Entre o transplante e a descoberta da infecção, passaram-se cinco meses marcados por internações, perda de peso e momentos críticos de saúde. “Fui entubado, cheguei a achar que não ia resistir. Meus filhos me salvaram”, recorda.

Como o erro aconteceu
As investigações apontaram que o Laboratório PCS Saleme deixou de realizar exames obrigatórios para reduzir custos. Os laudos falsos, assinados por Walter Vieira e Jaqueline Íris Bacellar de Assis, indicavam que os órgãos dos doadores eram “não reagentes” para HIV. Contratado sem licitação pela Fundação Saúde, o laboratório foi interditado logo após o caso vir à tona.

Os réus e as acusações
O processo tramita na 2ª Vara Criminal de Nova Iguaçu. São réus os sócios do laboratório, Walter Vieira e Matheus Sales Teixeira Vieira, além dos funcionários Jaqueline Íris Barcellar de Assis, Ivanilson Fernandes dos Santos, Cléber de Oliveira Santos e Adriana Vargas dos Anjos. Todos chegaram a ser presos, mas cinco respondem em liberdade; apenas Jaqueline cumpre prisão domiciliar. Eles são acusados de associação criminosa, lesão corporal gravíssima, falsidade ideológica e falsificação de documentos.

Relatos de sofrimento
Outra vítima, uma mulher de 62 anos que recebeu um rim contaminado, descreve como o diagnóstico mudou sua vida. “Fiquei depressiva, sem vontade de comer. Eu trabalhava, viajava, e de repente tudo acabou. Sinto dores constantes nas pernas e nos pés”, relata.

Tentativas de reparação
Em julho deste ano, o Ministério Público firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o governo estadual para garantir indenização às vítimas. O idoso que recebeu o fígado, no entanto, recusou o acordo e busca reparação judicial. Segundo sua advogada, Maria Isabel Tancredo, “não se trata apenas de compensar financeiramente, mas de dar uma resposta à sociedade diante de um caso grave envolvendo o sistema público de transplantes”.

Medidas após o escândalo
A Secretaria de Estado de Saúde afirmou que aprimorou os protocolos do programa RJ Transplantes, automatizou o processo de exames e determinou que as sorologias sejam feitas exclusivamente pelo Hemorio. A pasta declarou ainda que todos os contratos foram revisados e que o laboratório responsável permanece interditado.

Posicionamento das defesas
As defesas de Ivanilson dos Santos e Adriana Vargas afirmaram que seus clientes são inocentes e confiam na absolvição. Já as defesas de Walter Vieira, Matheus Sales, Cléber Santos e Jaqueline Barcellar não responderam aos pedidos de posicionamento.

Enquanto o caso segue sem sentença, os seis pacientes continuam lutando não apenas contra o vírus, mas também contra a lentidão da Justiça.

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