O Rio de Janeiro começou 2026 confirmando uma tendência que vem se fortalecendo nos últimos anos: a de se consolidar como um dos destinos turísticos mais procurados do mundo. Dados da Embratur, do Ministério do Turismo e da Polícia Federal mostram que a cidade recebeu 289.255 turistas internacionais apenas em janeiro, um crescimento de 17% em relação ao mesmo período de 2025, quando 240.151 visitantes estrangeiros desembarcaram em território fluminense. 

O desempenho reforça o protagonismo do Rio no cenário nacional e acompanha o avanço do turismo internacional em todo o Brasil. Somente no primeiro mês deste ano, o país recebeu mais de 1,4 milhão de visitantes estrangeiros. 

O estado fluminense, no entanto, continua se destacando como uma das principais portas de entrada desse fluxo, beneficiado por uma combinação de fatores que envolve promoção turística, ampliação da malha aérea, grandes eventos e uma agenda cada vez mais diversificada de atrações. 

A cidade recebeu 289.255 turistas internacionais apenas em janeiro |Crédito: Marcos de Paula / Prefeitura do Rio

Para especialistas ouvidos por Agenda do Poder, os números não são fruto do acaso. Eles refletem uma estratégia construída ao longo dos últimos anos para reposicionar o Rio de Janeiro no mercado internacional e ampliar sua capacidade de competir com outros destinos globais. 

Promoção internacional e mudança de imagem

Professor da Faculdade de Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo (Anptur), Osiris Marques avalia que o crescimento atual é resultado de um processo de consolidação iniciado há décadas, mas que ganhou novo impulso recentemente.

“Primeiro, pelos grandes eventos que tradicionalmente o Rio tem, como o Carnaval, o Réveillon, mas não só esses que são fixos. A gente teve Copa, Olimpíada, Jornada Mundial da Juventude, o Todo Mundo no Rio, que é um evento que, nos últimos três anos, tem trazido artistas de renome internacional. Então, nos últimos quatro anos em especial, a Embratur tem feito um trabalho muito bacana de mudar a imagem do Rio”, avalia.

Para o especialista, outro elemento importante foi a transformação da imagem do Brasil no exterior. 

“A gente estava com uma imagem muito deteriorada no cenário internacional e, com essa mudança de postura, de um marketing mais assertivo, mostrando mais as origens do Brasil, isso mudou a imagem do país lá fora.” 

Osiris Marques, professor da UFF e presidente da Anptur
Osiris Marques avalia que o crescimento atual é resultado de um processo de consolidação iniciado há décadas | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

A secretária municipal de Turismo, Daniela Maia, também atribui o resultado a uma política contínua de fortalecimento do destino Rio. Segundo ela, a cidade deixou de depender exclusivamente dos períodos tradicionais de alta temporada. 

“Na cidade do Rio, não tem baixa temporada. O turismo não para de crescer, porque somos e sempre seremos a grande porta de entrada do Brasil”, enfatiza.

Na avaliação de Osiris, a valorização da cultura brasileira nas campanhas promocionais ajudou a tornar o país mais atrativo para visitantes estrangeiros, mas fatores globais também acabaram contribuindo para a escolha do destino.

“Tem a ver com o cenário internacional. Temos uma política externa do Trump [presidente dos EUA] muito hostil, de perseguição, de completa falta de hospitalidade, evitando visitantes nos Estados Unidos. Na Europa, a gente também tem um ambiente bastante inóspito, os residentes se revoltando contra o turismo. As guerras, que são muito próximas… A própria guerra na Faixa de Gaza, a guerra da Ucrânia, a guerra, agora, com o Irã”, enumera.

Calendário permanente e novos atrativos

Um dos pilares dessa estratégia é o programa Rio O Ano Inteiro, criado para distribuir os eventos ao longo dos meses e reduzir a sazonalidade da atividade turística. A iniciativa reúne atrações culturais, esportivas, de entretenimento e de negócios, oferecendo motivos constantes para visitar a cidade. 

Nos últimos anos, o calendário ganhou ainda mais força com a chegada do projeto Todo Mundo no Rio, responsável por trazer artistas de alcance internacional para apresentações gratuitas em Copacabana. Após os shows de Madonna, Lady Gaga e Shakira, a expectativa é que novas atrações mantenham a cidade em evidência no cenário global. 

Outro eixo importante tem sido a gastronomia, segundo Daniela. A realização de duas edições do Latin America’s 50 Best Restaurants e de duas cerimônias do Guia Michelin ajudou a reforçar a imagem do Rio como um destino gastronômico de relevância internacional. 

“Temos reforçado a presença do Rio em feiras internacionais, ações promocionais e campanhas voltadas para diferentes perfis de viajantes, mostrando que a cidade oferece muito mais do que seus atrativos tradicionais”, completa Bernardo Fellows, presidente da Riotur.

Voos, Galeão e competitividade internacional 

A ampliação da conectividade aérea aparece como um dos fatores mais citados pelos especialistas e representantes do setor. A recuperação do Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão) e a retomada de rotas internacionais vêm sendo apontadas como peças centrais para sustentar o crescimento observado nos últimos anos. 

Para Fellows, os investimentos realizados em parceria entre os governos municipal e federal foram determinantes para fortalecer a posição do Rio no mercado global. 

“Esse resultado é fruto de uma estratégia construída ao longo dos últimos anos, que combina promoção turística, ampliação da conectividade aérea, investimentos em infraestrutura e, principalmente, a consolidação do Rio como uma cidade que oferece atrações durante todo o ano”, avalia. 

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), José Domingo Bouzon, também destaca a importância da reorganização da malha aérea. 

“Esse equilíbrio do aeroporto internacional ajudou bastante ao aumento do volume, junto com a publicidade, a divulgação do destino”, destaca.

A expectativa do setor é que a flexibilização gradual das restrições operacionais do Santos Dumont, prevista para os próximos anos, contribua para um sistema aeroportuário mais equilibrado

Impacto na economia e geração de empregos 

O aumento do fluxo internacional tem reflexos diretos sobre a economia carioca. Segundo dados da Prefeitura do Rio, turistas nacionais e estrangeiros movimentaram R$ 24,5 bilhões na cidade em 2025, fortalecendo principalmente o setor de serviços, responsável por cerca de 84% do Produto Interno Bruto (PIB) municipal. 

“O turismo é bom para todo mundo. Investir em infraestrutura é o caminho para impulsionar, gerar empregos e movimentar a nossa economia.”

Daniela Maia, secretária municipal de turismo

Os efeitos podem ser observados também no mercado de trabalho. De acordo com a administração municipal, mais de 45,2 mil empregos formais ligados ao turismo foram criados desde 2021. Apenas nos últimos 12 meses, foram registrados 6,5 mil novos postos de trabalho em atividades como hospedagem, alimentação, transporte, agências de viagem e lazer. 

Na hotelaria, os indicadores acompanham a tendência de crescimento. Dados da ABIH-RJ apontam que a taxa média de ocupação passou de 84% para 85% em janeiro e de 85% para 87% em fevereiro na comparação entre 2025 e 2026. 

José Domingo Bouzon, presidente da ABIH-RJ | Crédito: Sofia Miranda / Agenda do Poder

“O aumento do volume impacta no aumento da receita dos hotéis. É uma expansão do parque hoteleiro e isso vai requerer investimentos. Mas o fundamental é a continuidade. A continuidade do trabalho de divulgação vai fazer com que os empresários invistam mais em hotéis e resorts”, destaca Bouzon.

Segundo ele, o crescimento da demanda também impulsiona contratações e amplia o efeito multiplicador do turismo sobre outros segmentos da economia. Para Osiris, esse movimento representa uma importante entrada de recursos externos. 

“Tem uma entrada de recursos internacionais de dólares, euros. Quando o turista vem para o Brasil, acaba gastando, ele fica em hotéis, consome nos nossos restaurantes, faz compras, vai a shows. E esses gastos diretos acabam incitando gastos indiretos, porque o restaurante, quando tem um aumento da demanda, ele tem que acionar os seus fornecedores. Comprar mais carne, mais leite, mais verdura”, enumera.

“Como os percentuais de ocupação tem crescido, tem aumentado o volume de receita dos hotéis e o nível de emprego também, acaba tendo uma contratação de mais pessoas para atender essa demanda.”

José Domingo Bouzon, presidente da ABIH-RJ

Turismo aquece bares e restaurantes

Um dos setores que mais sente o impacto da chegada de visitantes estrangeiros é o de bares e restaurantes, especialmente em regiões com maior circulação de turistas, como a Zona Sul, o Centro e parte da Barra da Tijuca.

Segundo o presidente do SindRio, Fernando Blower, o movimento já tem reflexos concretos sobre a atividade econômica da cidade. O aumento da demanda vem impulsionando receitas, estimulando novos investimentos e contribuindo para a geração de empregos em um dos segmentos mais importantes da cadeia turística.

“É um movimento que ano após ano tem sido muito bem visto e que a gente espera que assim continue. Esperamos que cresça muito mais, mas para isso é importante que não só nos próximos meses, mas sobretudo nos próximos verões, a gente esteja muito preparado”, acrescenta.

Para ele, o desafio agora é preparar a cidade para sustentar essa expansão nos próximos ciclos turísticos.

“É, de fato, preparar cada vez mais essa cidade, não só os próprios restaurantes mas todos que se relacionam, para que esse turista se sinta cada vez mais bem acolhido e volte e divulgue o nosso destino para o mundo inteiro.”

Os desafios para sustentar o crescimento 

Os argentinos seguem liderando com folga o ranking dos visitantes internacionais. Em janeiro deste ano, foram 138.951 turistas vindos do país vizinho, um salto de 38,8% em comparação aos 100.050 registrados no mesmo mês de 2025.

Além da Argentina, outros mercados sul-americanos mantiveram participação relevante. O Chile enviou 50.718 turistas ao Rio, crescimento de 3,69%, enquanto o Uruguai registrou 10.461 visitantes, alta de 1,06%. Fora do continente, os Estados Unidos se destacaram com expansão de 24,5%, passando de 17.875 para 23.703 turistas. Já a França registrou aumento de 19,1%, com 6.571 visitantes.

“A gente tem percebido uma evolução do volume principalmente de argentino, o americano e o chileno, mais intensamente que outras nacionalidades”, diz Bouzon.

Apesar dos números positivos, especialistas alertam que a expansão do turismo exige planejamento para evitar gargalos e garantir uma experiência satisfatória aos visitantes. Questões como segurança pública, mobilidade urbana e capacidade de absorção da demanda aparecem entre os principais desafios para os próximos anos. 

“Sabemos que a Zona Sul, onde o turista transita mais, tem uma segurança reforçada, mas ainda não é suficiente. Um outro ponto é a mobilidade urbana, porque os transportes públicos do Rio de Janeiro já estão saturados”, avalia Osiris.

O que esperar dos próximos meses

Se janeiro serviu como termômetro, a expectativa do setor é que o Rio de Janeiro mantenha a trajetória de crescimento ao longo de 2026. 

A meta da cadeia turística é seguir ampliando o fluxo de visitantes estrangeiros e consolidar mercados já tradicionais, como Argentina, Chile e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que busca atrair turistas de novas origens.

“O foco referente ao público internacional é continuar recebendo com carinho nossos ‘hermanos’ da América Latina, principalmente os maiores emissores de turistas ao Rio de Janeiro: Argentina e Chile. Mas não restrito a eles”, projeta a secretária.

No setor hoteleiro, a expectativa também é positiva. Para o presidente da ABIH-RJ, a continuidade das ações de divulgação será fundamental para garantir novos investimentos e acompanhar o crescimento da demanda.

“A meta deste ano é 2 milhões e meio de turistas. A continuidade da evolução desse volume de estrangeiros vai se requerer nos próximos anos”, diz.

Por fim, os especialistas destacam que o desafio agora é transformar o aumento do fluxo turístico em um crescimento sustentável, passando por investimentos em infraestrutura, qualificação profissional, segurança e mobilidade urbana. 

“Como é que eu planejo melhor a recepção desses turistas? Como é que eu penso na jornada desses turistas? Como é que eu torno a cidade mais tecnológica, para que esse turista possa se programar melhor?”, questiona Osiris.

O caminho passa por planejamento, qualificação e infraestrutura, consolidando o Rio não apenas como a principal porta de entrada do turismo no Brasil, mas como um destino cada vez mais competitivo no cenário global.

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