Se hoje os smart watches  calculam seus passos e exercícios visando melhorar sua saúde, as tornozeleiras eletrônicas fazem exatamente o contrário: vigiam cada movimento para garantir que você não volte a dar um mau passo. No Brasil de 2025, onde a criatividade da justiça penal se refastela com a tecnologia de rastreamento, o novo símbolo de restrição virou sinônimo de um ícone fashion para alguns figurões políticos enrolados com a lei.

Como, por exemplo, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que acaba de aderir à moda involuntariamente. Quem diria que a tornozeleira, antes exclusiva da bandidagem, seria promovida ao universo dos ex-chefes de Estado?

O acessório, que outrora poderia ser confundido com algum gadget fitness para tornozelos sensíveis, hoje é item de interesse público. Não há lançamento de iPhone ou desfile da São Paulo Fashion Week que supere o impacto de uma imagem de político famoso ostentando a pulseira da moralidade compulsória.

Afinal, nada como um toque de monitoramento 24/7 para lembrar o cidadão comum de que nem todo mundo está acima da lei — embora alguns, como ex-deputado Daniel Silveira, insistam em tentar voar sob o radar, ou, literalmente, sob o GPS que o presidente Donald Trump ameaça tirar do Brasil.

O fato é que o Brasil se tornou um grande laboratório de experimentos socio eletrônicos: de um lado, uma imensa população carcerária que beira o colapso físico das penitenciárias; de outro, uma alternativa tecnológica que promete controle sem superlotação.

Mas não se engane: por trás da aparência funcional da tornozeleira, pulsa uma indústria milionária, um sistema de vigilância com falhas e uma ironia quase poética. Afinal, ela não impede alguns crimes, mas dá um alerta sonoro bem-educado quando eles estão prestes a acontecer.

Dispositivo pode alertar quando crimes estão perto de acontecer | Reprodução

Quem fabrica as tornozeleiras eletrônicas no Brasil?

No país, o mercado é praticamente um monopólio: mais de 90 % das tornozeleiras são fornecidos pela empresa Spacecom, que opera em cerca de 15 estados brasileiros. O Estado não compra os equipamentos, mas os aluga, para evitar ter que lidar com a obsolescência quando a tecnologia evolui para uma nova geração.

Esse modelo de negócio garante que os sistemas de GPS e transmissão via sinal de celular estejam sempre atualizados — e mantém um relacionamento de dependência bem agradável entre governo e empresa única que domina o setor.

Quantas pessoas usam tornozeleiras eletrônicas no Brasil?

Segundo a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), ao final de 2024 havia 122.102 pessoas com tornozeleiras ativas no Brasil. Isso representa um crescimento de aproximadamente 95 % em relação a 2016 (quando eram apenas 6.027 usuários), e inclui cerca de 87,95 % de homens (107.393) e 14.709 mulheres. Em 2022, o total era de cerca de 91.632 pessoas, equivalente a cerca de 11 % da população carcerária brasileira.

Quanto custa uma tornozeleira eletrônica?

O governo federal paga por meio de contratos de aluguel, e o valor varia conforme o estado. Estimativas indicam custos de até R$ 234,7 mil por mês para monitoramento de um grupo específico (como os condenados pela tentativa de golpe de estado em no 8 de janeiro), podendo totalizar até R$ 2,8 milhões por ano.

Em Goiás o governo determinou que os condenados arquem com os custos. Mas Defensoria Pública e a OAB de Goiás argumentam que a medida viola princípios constitucionais e onera excessivamente os presos.

O que acontece se ela descarregar?

As tornozeleiras em uso no Brasil pesam cerca de 128 g, combinam GPS e modem celular e alertam quando a bateria atinge 25 %, emitindo bipes e vibrações frequentes. Se ela descarregar completamente, a central dispara um alarme e isso é considerado violação das condições e pode acarretar penalidades.

Central de monitoramento de tornozeleiras | Reprodução

Ela pode molhar?

Sim, a tornozeleira é à prova d’água. Você pode tomar banho, molhar o pé, até pular na piscina sem transformá-la num peso extra. Mas, por favor, não tente fugir ao estilo Aquaman — não adianta tentar escapar do sinal debaixo d’água.

Ela causa alguma irritação na pele?

Alguns usuários relatam incômodo ou alergias causadas pelo atrito da borracha contra a pele, especialmente se usada por longo período. Infelizmente, não há botão “pause” para alívio — e como se sabe, retirar não é uma opção permitida.

Quem teve erispela, como Bolsonaro, pode usá-las?

Não há indicações oficiais sobre restrições para portadores de erisipela ou outros quadros dermatológicos. Entretanto, considerando que o contato contínuo com a pulseira pode agravar irritações, o monitoramento médico prévio e informe judicial parecem prudentes, embora não haja orientação formal específica sobre o tema.

O que acontece se você tirar a tornozeleira?

Tentar remover, cortar ou violar o dispositivo é considerado grave violação. Um cabo de fibra óptica embutido ou sensores acionam automaticamente alertas à central. Nesse caso, você pode ser declarado foragido e sofrer as consequências judiciais correspondentes, incluindo prisão imediata.

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