É só acessar plataformas de vídeos que o botão para acelerar o conteúdo está ali, a um clique. A opção de assistir algo em 1.25x, 1.5x ou 2x se popularizou de forma rápida entre crianças, adolescentes e adultos, especialmente no consumo de filmes, desenhos e conteúdos produzidos por influenciadores digitais. Mas o que esse comportamento revela sobre nossa relação com o aprendizado e a atenção, e quais serão os impactos futuros?

Foi essa pergunta que a protética Aline Lubanco, de 52 anos, se fez ao ver que o filho, com 2 anos na época, estava assistindo desenhos animados e clipes de música em modo acelerado.

“Eu nem sabia que podia fazer isso. Ele aprendeu sozinho. Um dia, ele estava com meu celular e eu pedi. Quando peguei e acessei a plataforma de vídeos, todos estavam em velocidade acelerada. Perguntei a ele o que tinha feito e ele pegou o celular da minha mão, foi nas configurações do vídeo que eu estava tentando assistir e colocou na velocidade normal. Fiquei assustada”, conta.

A forma como a criança começou a consumir os conteúdos teve um reflexo no comportamento diário: “Ele foi ficando cada vez mais agitado. As professoras, no colégio, começaram a perceber que ele não tinha paciência de esperar a vez dele nas atividades de dinâmica em grupo. Na hora da saída, quando a primeira criança era chamada para ir embora, ele já pegava a mochila e ficava perguntando se já era a vez dele. Começou a falar mais rápido, ficar impaciente, e quando não era atendido imediatamente, já se irritava”.

A psicóloga Laura Quadros, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio (Uerj), explica que esse novo vício pode trazer graves consequências.

“Essa necessidade de aceleração nos leva ao imediatismo em todas as esferas, inclusive no que se refere às atividades prazerosas. A infinidade de ofertas de tudo gera uma sensação de que estamos sempre perdendo algo. Isso produz tanto ansiedade quanto angústia, acentuando a sensação de que nada é suficiente, trazendo sofrimento”, detalha a profissional.

Concentração prejudicada

Acostumada a ter sempre foco nas atividades que fazia, Tatiana Gonçalves, de 27 anos, começou a perceber pequenos sinais que a alertaram de que algo estava errado.

“Sempre assisti filmes longos, de 3h, lia vários livros em menos de um mês. De repente, minha atenção começou a ficar totalmente prejudicada. Já não conseguia mais nem prestar atenção nas aulas da faculdade. Demorei a entender que isso pudesse ter relação a assistir, por horas ininterruptas, vários vídeos acelerados nas redes sociais. Do nada, perdi a paciência em assistir filmes em velocidade normal”, desabafa.

Do ponto de vista da educação, o impacto também é preocupante. A psicopedagoga Adriana Fresquet, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta que o hábito compromete a escuta ativa, a compreensão profunda e o sentido da experiência educativa.

“Ao substituir o tempo da escuta pelo ritmo maquínico da reprodução acelerada, bloqueamos o exercício da atenção profunda. Como nos alerta Éric Sadin, o sujeito contemporâneo vive assediado por comandos e estímulos contínuos, perdendo sua interioridade reflexiva. A escuta torna-se funcional, desabitada de presença. Com isso, a educação se afasta do sensível e do relacional, e se empobrece radicalmente”, explica Adriana.

Na neurociência, os efeitos também começam a ser investigados. A aceleração do vídeo exige do cérebro um processamento auditivo e visual mais rápido, o que pode sobrecarregar algumas funções cognitivas.

“Áreas ligadas à atenção, à audição e à linguagem trabalham mais intensamente nesse cenário. Quando o ritmo é acelerado demais, o cérebro precisa ‘correr atrás’ da informação, o que pode gerar sobrecarga cognitiva, ou seja, um esforço mental maior que pode levar à fadiga”, explica a médica Gisele Sampaio, neurologista do Hospital São Paulo da Unifesp.

A cultura da aceleração

Ao tomar conhecimento que os vídeos estavam prejudicando o filho, Aline decidiu interromper o acesso da criança a qualquer meio eletrônico e buscou ajuda de um profissional.

“Cortei totalmente o acesso dele à celulares. Procurei auxílio profissional, descobri que meu filho sofre de transtorno de ansiedade. Agora, ele está com 4 anos e estamos fazendo acompanhamento psicológico. Ele pratica atividades como futebol, faz aula de música, adora brincar de massinha de modelar e quebra-cabeças. Já estamos percebendo as mudanças, ele está bem mais calmo e concentrado”, diz.

Laura Quadros alerta que crianças e adolescentes são os mais prejudicados com essa ação: “Eles estão por princípio abertos para o mundo. Se podamos a experiência plena, limitamos as condições gerais do desenvolvimento. Aprender envolve atenção, entrega e formação de vínculo. Num mundo ‘fast’, as experiências, mesmo que agradáveis, correm o risco de serem pulverizadas e perderem o sentido”.

Sociedade sem tempo

“Eu comecei a me sentir impaciente em ficar assistindo no tempo normal. Já era automático acelerar, como se meu cérebro implorasse para consumir mais e mais daquele conteúdo, em um tempo pequeno que eu tinha no intervalo do trabalho, das aulas e antes de dormir”, relata Tatiana.

Para o antropólogo Lenin Pires, professor do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense, o fenômeno da aceleração acontece, principalmente, pela escassez do tempo, cada vez maior no dia a dia das pessoas.

“Esse comportamento me parece se enquadrar em uma sociedade onde a oferta de produtos midiáticos é cada vez maior. E o que tem de escasso é o tempo. Se criou essa necessidade das pessoas consumirem essas coisas, então, baseado nas noções do tempo. As pessoas vão buscando elementos que se enquadrem no seu gosto”, diz o especialista.

Gisele explica que, apesar dos danos, os efeitos gerados pelo consumo excessivo de vídeos acelerados é reversível.

“Felizmente, o cérebro é plástico, ou seja, capaz de reaprender. Atividades como leitura lenta, meditação, caminhadas ao ar livre, artes e conversas presenciais ajudam a treinar uma atenção mais profunda. Reduzir o ritmo do consumo digital e praticar o ‘ócio criativo’ também são formas eficazes de desacelerar o cérebro e restaurar o foco”, enumera a neurologista.

Entre os especialistas, o consenso é que não se trata de demonizar a tecnologia, mas de refletir sobre como e por que a usamos. E de que maneira esse uso molda nossas formas de perceber, pensar e estar no mundo.

“Em sociedades de tecnologias mais avançadas, os ambientes educacionais já estão empreendendo essa crítica, mitigando o acesso a tecnologias digitais e computacionais como recurso educacional, promovendo ou incentivando outras formas de estímulos ao conjunto de órgãos sensoriais humanos. Sociedades onde o acesso à educação é um direito contemplado, sendo elemento estruturante da vida social. Diferente, portanto, de realidades como a nossa”, finaliza Pires.

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