Traficante do Comando Vermelho recebia alertas de policiais sobre operações no Rio e chegou a cobrar PMs por droga apreendida

PF diz que líder da facção era avisado com antecedência sobre ações em favelas, mesmo pagando propina a agentes

Interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal no âmbito da operação Dakovo revelaram que o traficante Phillip da Silva Gregório, conhecido como Professor e apontado como um dos chefes do Comando Vermelho, recebia informações privilegiadas sobre operações das forças de segurança em favelas do Rio de Janeiro. As ações envolviam tanto comunidades controladas pela própria facção quanto áreas dominadas por grupos rivais. As mensagens foram obtidas com exclusividade pelo portal g1.

Os diálogos analisados demonstram que o vazamento partia de dentro das próprias corporações. Em uma das conversas interceptadas, registrada às 3h da madrugada de 25 de outubro de 2021, um criminoso identificado como Lorão Galinha alerta Professor sobre uma operação policial iminente, que seria realizada com participação do Bope e do Batalhão de Choque.

“Vai ser operação grande”, diz Lorão. O traficante, que na época chefiava o tráfico no Chapadão, na Zona Norte, apenas não sabia precisar o local exato da ação. Professor confirma a informação, acrescentando que a Polícia Civil também estaria envolvida, numa possível operação contra milicianos. “Mas vai ter alguma parada mesmo pros caras”, escreveu.

Traficante Professor recebe informações de operação da PM de criminoso do Chapadão — Foto: Reprodução

Horas depois, policiais do 16º BPM (Olaria), do Comando de Operações Especiais (COE) e do próprio Bope realizaram uma ofensiva no Complexo de Israel, em Vigário Geral, também na Zona Norte. A área, no entanto, é controlada pelo Terceiro Comando Puro (TCP), facção rival do CV. O alvo da operação era a quadrilha liderada por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, de 34 anos, com atuação nas comunidades do Pica-Pau, Cinco Bocas, Vigário Geral, Cidade Alta e Parada de Lucas.

Professor reclama com PM, a quem paga propina, após droga ser apreendida, e chega a mandar foto dos policiais — Foto: Reprodução

As investigações revelaram ainda que Professor mantinha uma rede de pagamento de propinas a policiais militares, a fim de evitar ações em comunidades controladas pelo Comando Vermelho. Em um dos registros, um agente chega a se queixar do valor pago pelo traficante.

Apesar do esquema de corrupção, nem sempre as operações eram suspensas. Em fevereiro de 2022, Professor demonstrou insatisfação com a apreensão de armas e drogas, mesmo tendo acertado pagamentos para proteção. Ele chegou a enviar uma foto de dois policiais envolvidos na ação a um contato identificado como “Ctt Pr”, solicitando que as imagens fossem repassadas a quem cuidava dos acordos com a facção e ao comandante do batalhão responsável.

A resposta que recebeu sugere o envolvimento de altos escalões da corporação: “Valeu mano, deixou forte. Coronel do 3 agradeceu”. A menção ao “3” seria uma referência ao 3º Batalhão da Polícia Militar (Méier), que atua em áreas sob domínio do Comando Vermelho.

A operação Dakovo, que revelou o esquema, teve seu nome inspirado na cidade croata onde armas eram legalmente adquiridas por traficantes e posteriormente repassadas a intermediários em Ciudad del Este, no Paraguai. De lá, os armamentos seguiam para organizações criminosas no Rio de Janeiro e em São Paulo, com Professor entre os principais compradores.

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