Contando assim, ninguém acredita. Mas houve um tempo em que vez de ir à praia, cariocas e simpatizantes achavam muito mais bacana ir ao bairro das Laranjeiras, não para assistir a um match, na elegante sede do tricolor da Álvaro Chaves, mas para ver um homem espetando um touro num campo de terra batida. As touradas no Rio de Janeiro foram um fenômeno complexo e que muita gente gostaria de varrer para debaixo do tapete da História.
Décadas antes do surgimento do futebol, dos estádios, e as multidões despertarem, essa crueldade ritualizada era tolerada e festejada tanto pelas massas quanto pelas elites, em arenas que se instalaram, hora no Centro, outra hora no Flamengo, até encontrarem pouso definitivo, porém efêmero, na esquina da rua Ipiranga com Rua das Laranjeiras.
Com o tempo a cidade, a lei e os costumes foram se afastando desse tipo de espetáculo bárbaro, considerando-o incompatível com o que se esperava da capital de uma jovem República que se propunha civilizada. Se é crueldade, arte ou tortura, essas perguntas ecoam ainda, mesmo que as touradas tenham ficado no passado distante do Rio de Janeiro. E que fiquem por lá!

Onde ficava a Arena de Touros de Laranjeiras?
Autoridades brasileiros tem mania de tentar apagar passados controversos. Ruy Barbosa que o diga. Mas embora não existam registros oficiais, jornais de época apontam que a arena funcionou entre a esquina da Rua Ipiranga com Rua das Laranjeiras.
Ela foi uma espécie de precursora do Sambódromo. Foi construída em alvenaria, com capacidade para cinco mil pessoas, e com o principal objetivo de acabar com a monta-desmonta de arenas pelos bairros da Guanabara.
E se contra fatos não há argumentos, ela foi fotografada em 1890 por ninguém menos do que Marc Ferrez.
Mas as touradas eram assim tão populares no Brasil?
No fim do século XIX, nas principais capitais brasileiras, as touradas eram eventos bastante populares e altamente aguardadas. O público misturava a elite e as classes populares em festas que atraiam milhares de pessoas.
Quando o Rio tinha cerca de 50 mil habitantes, uma única tourada no Campo de Santana, chamado na época de “Largo do Curro”, reuniu nada menos do que 10 mil pessoas.
Mas já se organizavam touradas por aqui desde 1641, quando foi improvisado um “Largo do Curro” perto do Morro do Castelo para celebrar a aclamação de D. João IV como Rei de Portugal.
O que é um “curro”?
“Curro” no contexto das touradas refere-se ao local onde os touros ficam antes do espetáculo, sendo preparados, muitas vezes em baias específicas.
Já “Largo do Curro” ou “Praça do Curro” refere-se simplesmente ao nome dado ao terreno ou praça onde se realizavam as touradas.
Curro também pode implicar o conjunto de equipamentos ligados à tourada: instalações, palanques, camarotes, cercas, palcos. Esses espaços eram frequentemente temporários, montados apenas para alguma ocasião, até a construção da Arena de Laranjeiras.
Outros lugares do Rio tiveram praças de curro?
O Rio teve vários pontos onde se montavam praças de touradas temporariamente. O “Campo de Santana” era um dos locais mais frequentes.
Também há registro de praças de curro no entorno da Praça XV, nas cercanias do Morro do Castelo e até na praia do Flamengo.
Como foi o fim das touradas?
As campanhas começaram já no século XIX, com intelectuais manifestando-se pelos jornais, contra a crueldade nos espetáculos, mesmo quando o touro não era morto, segundo a tradição portuguesa.
Machado de Assis expressou oposição às touradas de modo bastante claro, com ironia fina, em crônicas e textos jornalísticos. Ele disse: “Não sou homem de touradas; e se é preciso dizer tudo, detesto-as.” Essa frase aparece em crônica intitulada “História dos quinze dias”, publicada na Illustração Brasileira em 15 de março de 1877.
Nessa mesma crônica Machado de Assis descreve uma conversa com um amigo amador de touradas, que prefere ver touro ferido, irritado, mas não morto; o amigo admite que o que atrai no final é a matança, mesmo que se comece pelo espetáculo ameno. Essa ironia serve para mostrar o abismo entre o que muitos acreditavam que “norma portuguesa” permitia e o que desejavam de fato.

O que fez o governo?
Demorou como de costume, mas em 1907 o então prefeito e futuro hospital Souza Aguiar baixou decreto atendendo a um pleito da Associação Protetora dos Animais.
O argumento central era o da violência contra o animal, bem como do incômodo moral que aquele tipo de espetáculo causava, da incompatibilidade com a nova imagem que a capital da Jovem República brasileira queria projetar, de progresso e civilização.
Também havia a longa campanha de setores intelectuais e da imprensa que viam as touradas como barbarismo ultrapassado, o que ajudou a construir a base legal.
Em 1908 a Arena de Touros de Laranjeiras foi demolida.

Ainda existem touradas em algum lugar do mundo?
Por incrível que pareça, em pleno século XXI, aquela clássica tourada espanhola que vem à sua cabeça na hora que alguém toca no assunto, ainda é praticada em países como Espanha, México, Peru, Colômbia e no Sul da França.
Nos Estados Unidos, estados como Texas, Arizona e Novo México criaram um evento chamado bloodless bullfights (touradas sem sangue) adaptado diretamente do velho modelo português. Nele, os toureiros usam velcro, fitas ou pontas que não ferem o animal, apenas simulam o movimento tradicional da tourada.
Embora esse tipo de versão seja tolerado porque (aparentemente) não há risco de ferimentos físicos graves, grupos de defesa animal também as criticam pelo estresse psicológico causado aos touros.
Aonde essa maluquice de tourada começou?
Antes de se tornarem “espetáculos”, as touradas foram rituais sagrados. Há registros de cultos com touros já em 2000 a.C. na ilha de Creta, no Mar Egeu.
No chamado “Salto do Touro”, jovens acrobatas cretenses saltavam sobre animais vivos em cerimônias religiosas dedicadas a Minos, o rei mítico. O touro era símbolo de fertilidade e força divina, não um inimigo.
No Egito Antigo, o touro Ápis era venerado como encarnação do deus Ptá. No Oriente Médio, entre os hititas e assírios, há relevos mostrando homens enfrentando touros em rituais ou demonstrações de bravura. Nada de tourada ainda, mas já havia algo da estética do enfrentamento entre o homem e a fera.
Os romanos, claro, elevaram a “brincadeira” ao max level da crueldade. Gladiadores enfrentavam não só touros, como leões e outros animais. Isso se espalhou pelo Império, foi adaptado (afinal um leão custa caro) e as touradas acabaram chegando ao Novo Mundo, nos barcos apodrecidos dos primeiros aventureiros espanhóis e portugueses.


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