Tombado pela prefeitura, Mercado Popular da Rocinha vai ganhar reforma e mural com grafite

“Eu só quero é ser feliz/Andar tranquilamente na favela onde eu nasci/E poder me orgulhar/E ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. O “Rap da felicidade”, composto na década de 1990 por Cidinho e Doca, resume bem o desejo dos lojistas dos 210 boxes do Mercado Popular da Rocinha. A analogia é feita…

“Eu só quero é ser feliz/Andar tranquilamente na favela onde eu nasci/E poder me orgulhar/E ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. O “Rap da felicidade”, composto na década de 1990 por Cidinho e Doca, resume bem o desejo dos lojistas dos 210 boxes do Mercado Popular da Rocinha. A analogia é feita por Gildo Silva, o Gil, presidente da associação que representa o mercado, embora, assim como o próprio Gil, a maioria dos comerciantes, apesar de morar na comunidade, venha do Nordeste.

Criado em 2004, o principal ponto comercial da maior favela do Rio vai receber pela primeira vez uma revitalização e contará ainda com melhorias em seu entorno. O camelódromo fica na Rua General Olímpio Moura Filho, em frente à saída da estação do Metrô de São Conrado.

Tombado em 2020 pela prefeitura, o local, que funciona diariamente, 24 horas, e atrai visitantes e turistas de várias partes do mundo, vai ganhar do município um investimento de R$ 1,3 milhão. As obras foram iniciadas esta semana, e a previsão é que terminem até novembro próximo.

No espaço, vende-se de tudo, desde roupas, cosméticos e bijuterias até produtos eletrônicos, como celulares e televisão. No local funcionam também biroscas e lojas de assistência técnica que prestam serviços especializados de reparo e manutenção de computadores e notebooks.

Com as obras de revitalização, a cargo da empresa Empresa Municipal de Urbanização (Rio-Urbe) e com o apoio da subprefeitura da Zona Sul, o objetivo é melhorar as condições de trabalho dos comerciantes, além de proporcionar um ambiente mais agradável para os consumidores.

No lugar de um tapume improvisado feito de chapa de aço e completamente pichado, que cerca o espaço desde a sua inauguração, o Mercado Popular da Rocinha vai receber um muro de 130 metros de comprimento por 2,60 metros de altura que será inteiramente grafitado por moradores da comunidade. Além de oferecer estrutura e segurança, a ideia é homenagear comerciantes, que serão retratados nos desenhos. Ainda serão definidos os responsáveis pelo mural, assim como os homenageados.

— O que mais tem é artista na Rocinha que só precisa de uma oportunidade e comerciante que merece ser reconhecido. Isso será muito importante para a comunidade. Queremos é ser respeitados, vistos, ter um lugar digno para trabalhar — afirma Gil, que na época da criação do mercado fundou a associação que representa o espaço e 13 anos depois assumiu novamente a presidência do órgão, cargo que ocupa desde então.

De acordo com Gil, um dos colaboradores do projeto de revitalização, as principais reivindicações dos trabalhadores serão atendidas. Entre elas, a troca da lona, que se encontra suja e remendada em vários pontos. Com material antichamas e fabricada na França, a cobertura é resistente, mas, além do desgaste natural do tempo, foi alvo algumas vezes de objetos como rojões, e será substituída por outra de características parecidas.

O emaranhado de fios e o antigo problema de falta de luz também serão sanados. De acordo com a agenda, toda a rede elétrica será trocada. O espaço terá ainda a substituição, a ampliação e a modernização do seu sistema contra incêndio para ser aprovado pelo Corpo de Bombeiros, cumprindo os ritos necessários de segurança.

Apesar de enfatizar sua gratidão pelas melhorias, uma das preocupações de Gil é quanto à execução da obra. Ele frisa que os lojistas não podem ficar sem trabalhar, pois dependem da diária para se sustentar:

— Na pandemia, já sofremos muito. Um dia fechado para muitos é sinônimo de ficar sem comer, porque trabalhamos um dia para cobrir o outro. O ideal é que sejam feitas de madrugada, já que apenas 10% dos boxes funcionam 24 horas.

O engenheiro responsável pela obra, José Luiz Figueiredo, da empresa Ativa Manutenção e Construção, que ganhou a licitação, afirmou que o cronograma prevê o mínimo de alteração possível na rotina do mercado.

— Tudo foi pensado com essa finalidade. Instalaremos a nova rede elétrica sem mexer na antiga para que eles não fiquem sem luz. Faremos a troca da lona por trecho — explica.

Já o entorno do mercado vai receber poda de árvores, recuperação das calçadas, novo projeto de sinalização vertical e horizontal, instalação de quebra-molas, de ponto de ônibus e de papeleiras e operação de ordenamento.

Natural de Itambé, Zona da Mata Pernambucana, Gil, hoje com 53 anos, foi para a Rocinha com 18 e há 27 trabalha como camelô no mesmo local, bem antes de o espaço se tornar mercado popular. Ele vende roupa masculina, para todos os gostos, ocasiões, bolsos e tamanhos, frisa, como bom vendedor.

— Aqui você encontra de tudo. De meia de R$ 2 a casaco de R$ 200. Mas não só no meu box, no mercado não falta nada. Não perde para shopping nenhum. Na época em que comecei eram apenas barraquinhas, não tinha estrutura, cobertura, nada. Lutamos muito para ter isso tudo, e é assim que vivemos e criamos nossos filhos — diz Gil, que é pai orgulhoso de uma moça de 19 anos que vai se formar ano que vem em perita criminal.

O mercado conta ainda com dois banheiros e quatro funcionários, responsáveis pela limpeza e a manutenção do espaço. Cada lojista contribui com R$ 40 mensais para a associação. Do total (R$ 8.400) saem os pagamentos da conta de água e dos colaboradores, além de gastos gerais, como produtos de limpeza. Já a conta de luz é paga individualmente: cada box tem um relógio.

Gil lembra ainda que o mercado já passou por tempos difíceis, mas ressalta que, apesar de viver dias melhores e das boas perspectivas para um futuro próximo, ainda precisa de ajuda:

— Hoje pagamos uma taxa social de água e um parcelamento de uma dívida imensa que tínhamos com a companhia de água, que teve parte perdoada. Além de endividados, no passado fomos ameaçados de despejo, um capítulo muito triste da nossa história. Hoje vivemos dias melhores, mas a luta continua. Precisamos que olhem por nós, pois essa taxa social de água, por exemplo, aumenta a cada mês, e não temos condições de arcar com mais custos. Fazemos o que podemos, mas nem tudo está ao nosso alcance.

Histórias como a de Gil se repetem aos montes. O cearense Nilton de Souza, de 68 anos, veio para o Rio também aos 18 anos. Antes de se mudar para a Rocinha, em 1973, Seu Nilton viveu na Maré e teve vários ofícios, de vendedor de pipoca e faxineiro a garçom. Como camelô, ele trabalhou por anos próximo ao local onde hoje é o mercado popular da comunidade. E foi o primeiro sorteado para ocupar um box no local. Hoje ele se orgulha de ter seis filhos formados, três deles em Medicina. Na venda do simpático cearense, o cliente encontra de alicate de unha a suporte de celular.

— Tem um pouco de tudo. Não deixamos o freguês sair sem o que precisa. Felizmente consegui me aposentar, mas não me vejo sem isso aqui. É mais do que trabalho, é a minha diversão — revela Seu Nilton.

O paraibano Sérgio Anselmo Rodrigues, de 52 anos, foi morar na Rocinha ainda bebê. De tão popular na comunidade, ele já foi presidente da associação de moradores do local e do mercado. Rodrigues tem sete filhos, e três trabalham com ele no mercado. A caçula, Tainá, de 12 anos, também já ajuda no que pode. A família ocupa três boxes com o mesmo negócio: comercializam todo tipo de acessório para celular e apetrechos tecnológicos.

— Também reparamos aparelhos. Meu filho é o melhor em consertar iPhone que você já viu — garante o comerciante.

Ele frisa que para a família não tem tempo ruim.

— Não dá para parar. Na pandemia, quando não podíamos estar aqui, ganhamos dinheiro vendendo máscaras. Nos dias das mães, namorados e dos pais desce a família toda para montar e vender cesta. Tem até de R$ 200, e vendemos tudo — afirma Rodrigues já de olho nas encomendas para o Dia dos Pais.

Com informações do GLOBO.

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