Apesar de ter sido concebido em 2009 como o maior complexo de vacinas da América Latina, o terreno de 580 mil metros quadrados do Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde (Cibs), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ainda é apenas um descampado tomado pelo mato e pasto para gado. Segundo reportagem do jornal O Globo, o empreendimento já consumiu cerca de R$ 1,2 bilhão e continua paralisado, com as obras interrompidas e sem previsão concreta para retomada.
Onde se esperava ver 46 prédios operacionais com capacidade para produzir até 120 milhões de frascos de imunizantes por ano, restam apenas alicerces e promessas adiadas. O Tribunal de Contas da União (TCU) acompanha o caso de perto e já publicou sete relatórios apontando falhas graves na gestão, entre elas a compra antecipada de maquinário por R$ 813 milhões — valores atualizados — que está encaixotado desde 2018 num galpão alugado em Duque de Caxias, com garantia vencida e risco de obsolescência.
“O projeto, ao ser retomado, demandará dois anos e meio de obras e mais um ano de qualificação de profissionais, equipamentos e sistemas. Trata-se de um processo demorado, sujeito à rigorosa regulação da Anvisa”, afirmou o presidente da Fiocruz, Mário Moreira.
Além dos atrasos, o empreendimento também gera custos contínuos. Só o aluguel do galpão onde estão armazenadas as 27 máquinas industriais sob medida — entre elas oito liofilizadores de 63 toneladas cada — já consumiu R$ 14,3 milhões nos últimos três anos. O montante seria suficiente, por exemplo, para fabricar cerca de 400 mil doses da vacina contra a Covid-19.
O infectologista e professor da Uerj, Marcos Lago, alerta para o impacto desse atraso na soberania nacional em saúde pública. “Quase 80% das vacinas ofertadas pelo SUS são produzidas pelo Butantan e pela Fiocruz. Esses atrasos comprometem nossa autonomia na produção de insumos”, destacou.
Tentativa de parceria público-privada fracassou
A tentativa de viabilizar a obra via parceria público-privada também fracassou. Em 2021, a Fiocruz optou pelo modelo “built to suit” (BTS), no qual uma empresa ergueria o complexo e alugaria à fundação até a quitação do valor total. O contrato, de R$ 9,7 bilhões, foi assinado com o consórcio NCPFI-RJ, mas nenhuma obra saiu do papel, devido à dificuldade dos parceiros privados em captar os recursos necessários.
O economista André Luiz Marques, especialista em gestão pública do Insper, classificou a condução do projeto como um desperdício: “Houve um investimento bilionário que não gerou resultado. É um péssimo uso do dinheiro público, agravado pelo risco de obsolescência dos equipamentos”.
Diante do impasse, a Fiocruz propôs em 2024 um novo plano, ainda sob análise do TCU: um aporte inicial de R$ 1,2 bilhão, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para atrair investidores ao fundo que administraria o empreendimento. Ainda não há confirmação de que o modelo será aprovado. O Ministério da Saúde afirmou apenas que busca uma alternativa viável, sem comentar os atrasos anteriores.
Enquanto isso, o terreno permanece abandonado, um símbolo da lentidão e ineficiência na gestão de grandes projetos públicos. A expectativa mais otimista da Fiocruz é que, se o novo modelo for aprovado em breve, a fábrica esteja apta a operar no final de 2028 — quase duas décadas após sua concepção.
Cronologia do fracasso (segundo o TCU):
2009: Projeto é concebido.
2014: Compra do terreno e início da terraplenagem.
2016–2019: TCU identifica falhas, gastos indevidos e recomenda reavaliação.
2021: Fiocruz lança edital do modelo BTS; consórcio vence, contrato é assinado.
2022–2023: Obras não avançam por falta de recursos do consórcio.
2024: Nova proposta é apresentada com recursos do PAC.
2025: Situação permanece indefinida e sob análise do TCU.





