Nossos melhores geólogos esperneiam em vão para tentar explicar algo simples: a geografia oficial do Rio de Janeiro não registra nenhuma atividade vulcânica ativa ou sequer extinta em seu território. Mas há décadas uma estrutura imponente desafia os argumentos dos cientistas e alimenta a imaginação popular. E não, esta não é mais uma história sobre o vulcão de Nova Iguaçu. Mas em Casemiro de Abreu, na Região dos Lagos, um maciço se ergue solitário e carrega uma alcunha nada modesta: o “Vulcão de Casemiro”.  

Para os moradores, o relevo abrupto e a composição rochosa da região não são exatamente comuns no estado. E se tem jeito de jacaré, couro de jacaré, e rabo de jacaré, só pode ser jacaré. Para os geólogos, a história é um pouco menos explosiva, mas nem por isso menos fascinante. 

E assim o Morro de São João segue firme, forte e fragmentado: formação geológica fascinante para os cientistas, vulcão extinto para o folclore dos moradores mais antigos, e simplesmente uma montanha muito bonita para o valente que, exausto e suado após quatro horas de caminhada pela floresta, chega ao cume e deixa escapar um sonoro palavrão diante do vasto horizonte. Vulcão ou não, importante é que a vista impressiona

Para os moradores mais antigos o formato do morro não deixa dúvida que é um vulcão. A ciência contesta (Crédito: Reprodução)

Mas afinal, o Morro de São João é ou não é um vulcão? 

Alerta de treta. A resposta honesta depende de para quem você pergunta, e de qual definição de “vulcão” se está usando. O Morro de São João, embora seja frequentemente classificado como um vulcão extinto, é alvo de debates em torno dessa definição. 

A questão não é se houve atividade magmática na região porque sabe-se que houve, e muita. A questão é que popularmente ele é chamado de “o vulcão extinto”, mas a geologia rigorosa o classifica como um maciço testemunho de erosão diferencial de uma antiga câmara magmática. E se você também não entendeu como eu, vamos tentar facilitar. 

Isso significa que, há centenas de milhões de anos, pode ter havido sim uma manifestação de magma na região de Casemiro de Abreu, mas ela nunca chegou a “explodir” formando um vulcão tradicional com cone de cinzas e coisa e tal. 

O magma subiu, solidificou-se no subsolo (formando o chamado corpo intrusivo), e o tempo (muito, mas muito tempo) fez o trabalho de desgastar as camadas mais moles ao redor, deixando essa estrutura mais resistente isolada na paisagem. Portanto, o morro é feito de “material vulcânico”, mas ele mesmo não foi um vulcão ativo com cratera expelindo lava. Tecnicamente são conhecidos como “morros testemunhos” ou “pães de açúcar”. Se você mora na Guanabara já viu um parecido. 

Por que há tanta controvérsia quanto ao fato de ele ser ou não um vulcão? 

Ela tem raiz científica, mas se retroalimenta de uma narrativa popular que a ciência não consegue apagar nem jurando promessa. A crença popular resiste ao tempo, alimentada pela forma cônica do morro e por causos passados de geração em geração. Para os crias, a aparência é prova mais do que suficiente: o morro tem cara de vulcão, tamanho de vulcão, então é um vulcão. E os geólogos que se danem, porque o turismo agradece. 

Mas não é bem assim. Segundo amplos estudos acadêmicos, o que vemos hoje é o resultado de milhões de anos de erosão. Traduzindo: o magma subiu, mas nunca chegou a sair pela chaminé. Ele, digamos, entupiu, foi resfriando e solidificando desde lá embaixo, enquanto o vulcão real que havia acima foi sendo destruído pela erosão ao longo de dezenas de milhões de anos. O que sobrou é o núcleo desse sistema. 

Vulcão ou não vulcão o Morro de São João é um local que vale a visita (Crédito: Reprodução)

Já que de vulcão ele não tem quase nada, vale a pena conhecê-lo? 

Sem dúvida. É o ponto mais alto de toda a Região dos Lagos. O Morro São João possui 816 metros de altitude (um tico a mais do que a Pedra da Gávea), e do topo podem ser vistos vários outros municípios como Rio das Ostras, Cabo Frio e Búzios.  

 Em dias bons avista-se inclusive o Pico do Faraó, Três Picos de Salinas e o Pico do Frade, em Macaé.  Ou seja, do alto do “vulcão” que talvez não seja um vulcão, enxerga-se uma fatia generosa do litoral fluminense: o que, convenhamos, é argumento suficiente para encarar a subida. 

É verdade que se formam piscininhas lá em cima? 

Esse é um dos detalhes mais charmosos e mais difíceis de confirmar por fontes mais robustas do que os trilheiros que frequentam o Morro São João. O que se sabe, com base no relato dessa turma, é que o cume tem uma área relativamente plana com afloramentos rochosos e depressões naturais que, após as chuvas intensas comuns no verão do Rio de Janeiro, podem reter água e formar pequenas lagoas temporárias. 

Essas poças d’água, que podem durar dias ou semanas dependendo do clima, são rasas e não têm ligação com nascentes permanentes. E, cientificamente, podem sim acontecer. 

Trata-se de um fenômeno conhecido em formações rochosas elevadas similares em todo o Brasil. Quem pretende confirmar o espetáculo com os próprios olhos deve planejar a visita para logo após um período de chuvas moderadas. E fica a dica: não vá durante as chuvas intensas, quando a trilha se torna escorregadia e perigosa. 

Como é essa trilha? 

Não é uma brincadeira para os desavisados. A trilha para o cume é considerada de nível moderado a difícil, especialmente devido à inclinação abrupta nos trechos finais, que exige técnica de “escalaminhada” (usar as mãos em raízes e pedras para vencer obstáculos). Ela tem cerca de 4,5 km de extensão (só de ida), saindo da base localizada na região de Barra de São João, distrito de Casemiro de Abreu.   

A caminhada é realizada em meio a uma rica e densa vegetação de Mata Atlântica nativa, onde relatórios de biodiversidade local garantem encontros com tatus, lagartos teiú, tucanos e bandos barulhentos de macacos-bugio. 

Mas ao alcançar o sinal de marcação do IBGE no topo, o esforço é imediatamente recompensado com um panorama esplêndido em 360 graus, coroando a superação física com um banquete visual do litoral. 

A localização destacada do morro. (Crédito: Reprodução)

Qual a melhor época para ir? 

Como a aventura envolve uma caminhada exposta na Mata Atlântica, a melhor época do ano para visitar o Morro de São João ocorre durante as estações do outono e do inverno, de maio a setembro. Nesse período, a Região dos Lagos vive a sua “estação seca”. Com o clima mais frio e, principalmente, com a ausência das tempestades constantes, a trilha torna-se muito mais segura e o céu limpo garante uma visibilidade perfeita no topo. 

Por outro lado, enfrentar a subida durante o pico do verão (entre dezembro e março) é desaconselhado pelos trilheiros mais experientes. As chuvas de final de tarde transformam as encostas íngremes do morro em escorregadores perigosos de lama vermelha, aumentando exponencialmente o risco de acidentes. Somado a isso, a umidade opressiva e a proliferação de insetos transformariam o que deveria ser um agradável passeio turístico em uma verdadeira prova de resistência física na selva.

Como chegar? 

Saindo da Guanabara, o trajeto até o Morro de São João tem cerca de 130 a 150 km, dependendo do caminho escolhido. A rota mais comum segue pela BR-101. O tempo de viagem varia entre 2h30 e 3h30, considerando trânsito moderado. O acesso final inclui trechos de estrada rural, então é importante verificar as condições antes de ir. 

De ônibus, ps preços costumam variar (dependendo do horário e antecedência), mas geralmente ficam na faixa de R$ 40 a R$ 80 por trecho. De Casimiro de Abreu, o acesso a Barra de São João requer uma corrida de táxi ou aplicativo de transporte, já que não há linha regular de ônibus até a Pousada Fazenda São João, onde fica a entrada da trilha. 

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