Numa manhã de domingo de junho de 2010, em Knysna, pequena cidade litorânea da África do Sul, os jogadores da seleção francesa de futebol decidiram que não desceriam do ônibus para treinar. As cortinas foram fechadas, as câmeras de imprensa do mundo todo ficaram filmando o veículo parado, e o técnico Raymond Domenech, sozinho diante dos microfones, leu constrangido um comunicado dos atletas. Era o auge de uma crise que havia começado dias antes, com a expulsão do atacante Nicolas Anelka após uma discussão com o treinador, e que terminaria com a pior campanha mundial da história recente da França, eliminada na fase de grupos sem vencer uma única partida. O episódio, conhecido como “Motim de Knysna” e é apenas mais um capítulo da história de uma seleção que parece ter o dom de transformar o vestiário em palco de articulação política, e Copa do Mundo em arena de embate ideológico. 

A seleção francesa, tricampeã mundial, multicultural por definição e simbólica por obrigação, carrega em si o peso de representar um país que nunca se decidiu sobre o que exatamente significa ser francês. Cada Copa, cada Eurocopa, cada treino cancelado vira manchete não apenas no caderno de esportes, mas na primeira página dos jornais políticos. Le Pen, pai e filha, Macron, Sarkozy, ministros e deputados, todos já opinaram sobre os Bleus como se fossem parte do parlamento nacional. 

O resultado é uma história que mistura genialidade tática com indisciplina juvenil, heroísmo esportivo com discurso xenófobo, e consagração nacional com paparico presidencial. É a crônica de uma seleção que venceu o mundo em 1998 sob o lema “Black-Blanc-Beur” e que, quase trinta anos depois, segue sendo o espelho mais nítido (e mais desconfortável) da própria França. Acomode-se, porque o que vem a seguir é uma história  que não cabe inteira nem em um campo de futebol. 

Noite em Paris (Crédito: Reprodução)

A extrema-direita francesa contra uma seleção campeã mundial 

Em 1998, a França recebeu e venceu a Copa do Mundo de Futebol. Mas é impossível mencionar esse torneio sem citar Jean-Marie Le Pen, então líder da extrema-direita francesa, que desde 1996 sustentava a tese de que a seleção francesa era “artificial”, por reunir jogadores que ele considerava estrangeiros demais para representar genuinamente o país. Segundo reportagem de época Le Pen chegou a exigir, que na Copa de 1998, jogadores negros ou de origem árabe não fossem mais convocados, e repetia que os atletas “não pareciam franceses” e sequer sabiam cantar a Marselhesa. 

O alvo predileto de suas críticas era justamente um tal Zinedine Zidane, filho de imigrantes argelinos da Cabília e Lilian Thuram, nascido em Guadalupe. Naquela Copa, 13 dos 22 convocados da Seleção Francesa tinham origem estrangeira. Thuram respondeu a Le Pen em entrevista coletiva dizendo que não era preciso saber cantar hino para se sentir francês, e que o problema do político era desconhecer a própria história do país que pretendia governar.  

O finado Jean-Marie Le Pen, líder da extrema-direita francesa (Crédito: Reprodução)

Black-Blanc-Beur: a catarse de 1998 e Zidane no Arco do Triunfo 

Quando a seleção, justamente liderada por Zidane e Thuram, goleou o Brasil por 3 a 0 na final e conquistou o primeiro título mundial da história francesa, o país viveu algo que ultrapassou em muito o esporte. 

 Nas ruas de Paris, multidões saíram às pressas adotando o slogan “Black-Blanc-Beur” (negro, branco e árabe), numa referência irônica às cores da bandeira nacional, agora reinterpretadas como celebração da diversidade étnica do elenco campeão, conforme detalha o documentário “Les Bleus: Une Autre Histoire de France”. 

A imagem de Zidane, autor de dois gols na final, foi projetada em tamanho gigante no Arco do Triunfo, acompanhada da inscrição “Zidane Président”, um gesto popular que praticamente o coroava como figura quase messiânica para a nação. 

Imagem de Zidane no Arco do Triunfo (Crédito: Reprodução)

O que foi o tal “Motim de Knysna”? 

O estopim do motim foi a expulsão de Nicolas Anelka da delegação, no dia 18 de junho de 2010, depois que o atacante xingou pesadamente o técnico Raymond Domenech no intervalo da derrota para o México, irritado com críticas ao seu posicionamento em campo. Foram ditas palavras que não caberiam neste espaço. O caso, e principalmente os xingamentos, vazou em detalhes para o prestigiado jornal L’Équipe, e a federação decidiu mandar o jogador de volta para casa no dia seguinte, segundo reportagem do mesmo jornal. 

A reação dos companheiros foi imediata e espetacular. Liderados pelo capitão Patrice Evra, os jogadores se recusaram a treinar no domingo seguinte, trancados dentro do ônibus e divulgaram seu manifesto, que foi lido pelo treinador. Dentro do buzum, o preparador físico Robert Duverne precisou ser contido pelos atletas antes de chegar às vias de fato, com Evra. 

A crise escalou. O diretor da Federação Francesa de Futebol, Jean-Louis Valentin, pediu demissão, alegando colapso total de sua autoridade dentro do grupo. A crise tomou tais proporções que a então ministra dos Esportes, Roselyne Bachelot, viajou até a África do Sul para conversar pessoalmente com os atletas, alegando publicamente que “a reputação do país estava em jogo”.  

Até mesmo o presidente Nicolas Sarkozy se envolveu, convocando uma reunião com o ex-capitão Thierry Henry pedindo conselhos para acabar com o estrago. A França, claro, foi eliminada na primeira fase, com um único ponto conquistado. 

Um constrangido Raymond Domenech lê o manifesto dos jogadores (Crédito: Reprodução)

A salada da discórdia 

A Eurocopa de 2008 foi o prenúncio do desastre francês em 2010. O time estava dividido entre os veteranos campeões mundiais e uma nova geração talentosa, mas rebelde. Lilian Thuram e Claude Makélélé, heróis de 98, viam com desconfiança a atitude de jovens como Samir Nasri e Karim Benzema, que chegaram à seleção com a arrogância típica de quem já era estrela em seus clubes. O racha era geracional, comportamental e, acima de tudo, político: os veteranos representavam a disciplina que construiu o título de 98; os jovens, a irreverência de uma nova França. 

Em um episódio ao mesmo tempo ridículo e lendário, um dia, no refeitório da delegação, Samir Nasri sentou-se no lugar que, por tradição e hierarquia, pertencia a Thierry Henry, o maior artilheiro da história da seleção francesa. Quando Henry chegou e pediu educadamente seu lugar, Nasri se recusou a se levantar e continuou comendo sua salada, ignorando o ídolo. O gesto foi visto como um desrespeito máximo à hierarquia do grupo e expôs a falta de disciplina que tomaria conta do time nos anos seguintes. 

Essa confusão toda virou documentário da Netflix? 
 
Pois é.  Em “The Bus”, não confundir com “The Boys” que é um outro serviço, ficou evidente que longe dos olhos do público, o clima dentro do ônibus transformou-se em um thriller de paranoia. Os atletas perceberam que os detalhes mais íntimos das brigas de vestiário, incluindo as frases exatas ditas por Anelka, estavam sendo publicados quase em tempo real pelo L’Équipe.  

O capitão Patrice Evra convocou uma entrevista coletiva para declarar que o futebol ruim não era o principal problema da França, mas sim um espião infiltrado no elenco. Uma caça às bruxas interna foi iniciada para descobrir o X-9 que alimentava a mídia, mas o traidor jamais foi oficialmente descoberto. 

Foi esse colapso que, segundo o Goal.com, moldaria a reconstrução da seleção sob o comando de Didier Deschamps anos depois, com a exclusão proposital de jogadores considerados “tóxicos” para o ambiente do grupo, como Samir Nasri, cortado da convocação para a Eurocopa por razões mais comportamentais do que técnicas. 

Cartaz do documentário da Netflix

O Show de Oportunismo de Macron no Catar  

Mas o casamento entre futebol e oportunismo político ganhou um capítulo mais explícito na final da Copa do Mundo do Catar, em 2022, quando a França foi derrotada pela Argentina nos pênaltis. Rompendo todos os protocolos de neutralidade e etiqueta institucional, o presidente Emmanuel Macron desceu ao gramado do estádio Lusail. 

As imagens da transmissão oficial da FIFA mostraram Macron tentando desesperadamente consolar um Kylian Mbappé visivelmente desolado. O presidente abraçava e falava ao ouvido do atacante que, de forma gélida, mal olhava para o mandatário, buscando claramente se desvencilhar do contato. 

A cena, amplamente compartilhada pela própria presidência francesa em vídeo nas redes sociais, gerou forte reação da oposição. O vice-presidente do Rassemblement National, Sébastien Chenu, classificou a atitude de Macron como “totalmente ridícula”, dizendo ter sido “um pouco lamentável” vê-lo “grudado como um clipe” em Mbappé.  

Parlamentares de esquerda, como Manuel Bompard, da França Insubmissa, ironizaram o episódio lembrando que o próprio Macron havia dito, antes do torneio, que “não se deveria politizar o esporte”. O editorial da revista esportiva So Foot resumiu o sentimento geral com o título “Macron, fora de jogo em todos os aspectos”. 

Mbappé, desolado com a derrota, nem dá bola para Macron no seu cangote (Crédito: Reprodução)

Quando os Bleus entraram na campanha eleitoral 

Se em 2022 a politização veio de cima, da Presidência, em 2024 ela partiu dos próprios jogadores. Às vésperas da disputa da Eurocopa, e em plena campanha para as eleições legislativas antecipadas convocadas por Macron após a vitória esmagadora da extrema-direita nas eleições europeias, o atacante Marcus Thuram, filho do lendário Lilian Thuram, foi o primeiro a se posicionar. Em entrevista coletiva no dia 15 de junho de 2024, Thuram declarou que era “triste” ver o avanço do Rassemblement National e pediu que os cidadãos lutassem para impedir a vitória do partido. 

No dia seguinte, o capitão Kylian Mbappé reforçou publicamente o discurso do companheiro, em coletiva de imprensa antes da estreia da seleção contra a Áustria. “Vemos que os extremos estão às portas do poder. Temos a possibilidade de mudar tudo”, afirmou o jogador, convocando os jovens eleitores a comparecerem às urnas. 

O Rassemblement National, partido fundado sobre as bases ideológicas que décadas antes haviam motivado os ataques de Jean-Marie Le Pen à própria seleção, é hoje liderado por Marine Le Pen e Jordan Bardella, e defende posições restritivas em relação à imigração, prioridade nacional no acesso a empregos e benefícios sociais, e discurso de endurecimento da identidade francesa, temas que, como mostra esta reportagem, atravessam a história da seleção desde os anos 1990. 

Rassemblement National: a extrema-direita francesa

Reviravolta nas urnas e a reação dos atletas 

O resultado das eleições legislativas surpreendeu boa parte dos analistas: ao contrário do que indicavam as pesquisas após o primeiro turno, o Rassemblement National terminou em terceiro lugar na Assembleia Nacional, atrás de uma frente de esquerda e da coalizão governista.  A notícia foi recebida com comemoração pública por parte de atletas que haviam se posicionado contra a extrema-direita, entre eles o próprio Thuram e o zagueiro Jules Koundé, descrito pelos jornais da época como um dos nomes mais engajados na militância antirracista dentro do elenco. 

Marcus Thuram escreveu no Instagram: “Viva a diversidade, viva a República, viva a França”. Aurélien Tchouameni celebrou a “vitória do povo”. Jules Koundé disse que “o alívio é do tamanho da preocupação das recentes semanas: é imenso”. Ousmane Dembélé e Youssouf Fofana publicaram fotos sorrindo. Kylian Mbappé, que havia pedido voto contra os extremos, também se manifestou. E deixou uma lenda pistola. 

A revolta de Platini e o fim de seu sonho na FIFA 

Em maio de 2026, Michel Platini, uma das maiores lendas do futebol francês, criticou abertamente a posição política de Mbappé. Platini reconheceu que Mbappé “tinha razão” em manifestar sua opinião, mas com uma ressalva: “Quando não está com a braçadeira ou com o uniforme da seleção de França”.  

Platini sugeriu que Mbappé se inspirasse em Messi ou Cristiano Ronaldo, que “raramente tomam posição sobre as coisas”. Apesar disso, reconheceu a coragem do jovem capitão. De qualquer maneira, o estrago na imagem do antigo ídolo estava feito. Platini naquele mesmo ano foi acuso de envolvimento em escândalos de corrupção na FIFA. Acabou inocentado, mas viu seu sonho de se transformar em presidente da entidade afundar nas águas do Sena. A bola pune. E falar groselha também. 

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading