No fim de setembro, as lojas de doces e artigos descartáveis ganham um pulso diferente. É hora de maximizar as prateleiras, porque o público vem ansioso pelos doces de abóbora em formato de coração e caixas de suspiro. A movimentação açucarada anuncia: é Dia de São Cosme e Damião. A devoção aos santos mártires atracou no Brasil junto aos colonizadores e se associou nos anos seguintes à cultura iorubá na figura dos Ibejis, orixás da infância e pureza.
Depois das compras que enchem os carrinhos, é hora de levar os doces para casa. Nessa fase, as produções seguem uma lógica quase industrial: abrir os sacos, encher e separar na pilha, o quanto baste para a diversão da garotada.
Na fase seguinte, é o Dia de Festa. As pracinhas, antes vazias, ficam lotadas. Calçadas são ocupadas de crianças com as pequenas mãos estendidas, guardando a espera de quase um ano inteiro. A cena denota o verdadeiro significado da data, como explicam especialistas ouvidos por Agenda do Poder: tradição e resistência.

Quem foram Cosme e Damião?
Cosme e Damião eram irmãos gêmeos que viveram na Síria no século III. Médicos que praticavam caridade, ganharam a fama de santos populares. Naquela época, vale lembrar, o reconhecimento prévio veio antes mesmo de a Igreja Católica ter processos formais de canonização.
“Eles atendiam muitas vezes de forma gratuita, sem receber honorários ou salários. Essa prática da caridade, da doação do trabalho, foi um marco da atuação de Cosme e Damião, o que os tornou muito populares e cercados por essa aura de santidade. Dependendo da repercussão dessas histórias, elas se propagavam para outros lugares”, lembra o professor e historiador Rui Aniceto.
Os dois viviam sob o véu do cristianismo em um período marcado por intensas perseguições contra este grupo no Império Romano. Antes de Constantino reconhecer a prátoca como religião oficial de seu império, o quadro era de forte repressão. Na última grande onda de perseguições lideradas pelo imperador Diocleciano, os gêmeos viraram alvos e morreram firmes na fé.
“Eles foram presos, afogados, queimados vivos, mas não renunciaram à fé. Só vieram a morrer realmente quando decapitados”, conta o pároco Walter Peixoto, da Paróquia São Cosme e São Damião, no Andaraí.

Morrer pela religião, nesse contexto, é considerado martírio — daí o reconhecimento dos gêmeos como santos mártires. A morte pela fé ficou simbolizada na indumentária católica. Nas celebrações de Cosme e Damião, a missa costuma ser realizada com paramentos vermelhos, que remetem ao derramamento de sangue pela fé.
Nessa altura, a fama de santos populares já havia se espalhado pela Europa, chegando a Portugal, onde surgiram confrarias e outras formas de devoção. De lá, junto com os colonizadores, atracou no Brasil ainda no século XVI, logo após o estabelecimento das capitanias hereditárias, em 1530. Aos poucos, o culto se espalhou pelas capitanias, especialmente em Pernambuco, onde São Cosme e São Damião se tornaram padroeiros de localidades específicas.
Paralelamente, o continente africano já possuía suas próprias formas de celebração da infância e da coletividade. Para os iorubás, afirma o escritor e professor de cultura iorubá Márcio DJagun, a infância não é apenas uma etapa cronológica, mas uma energia a ser reverenciada ao longo da vida. Essa concepção se manifesta na devoção aos Ibejis, os orixás gêmeos associados à pureza, à alegria e ao perdão.
“Assim como a maturidade e a velhice, a infância é entendida como sensação, sentimento, energia. Essas energias precisam ser reverenciadas ao longo da existência, e não apenas em fases dela. Quando entendemos essa forma de construção de mundo, dá pra perceber por que a infância é celebrada como algo duradouro”.

Nesse ponto, quando a tradição católica de Cosme e Damião encontrou a religiosidade africana no Brasil, surgiu o sincretismo: os gêmeos cristãos se identificaram com os Ibejis, criando uma prática híbrida utilizada como estratégia de sobrevivência à escravidão, à vigilância e à tentativa de apagamento cultural.
“Não se pode ignorar a capacidade diplomática, estratégica e tática das pessoas que precisaram resguardar seus cultos. Essas pessoas, submetidas a viver sob vigilância, aprenderam a driblar a opressão. O sincretismo foi uma forma de disfarçar seus conceitos, mas eles nunca se perderam. Não dá pra imaginar que povos que cultuavam divindades há gerações confundissem orixás com santos católicos”, destaca Djagun.
A estratégia, bem sucedida, encontra hoje em sua continuidade, uma das suas expressões mais gentis que também é alvo de sucessivas discriminações: a distribuição de doces.
Comida ‘enfeitiçada‘
“Em 2019, por exemplo, um terreiro em São Gonçalo foi atacado logo após a festa de São Cosme e Damião. O ataque se dirigia justamente à celebração, à comida, ao doce que, segundo a crítica, seria ‘feito com feitiçaria’. Mas isso aparece também em outras práticas cotidianas”, conta a professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ana Paula Mendes de Miranda.
A distinção entre preconceito e discriminação é fundamental: não gostar da tradição é liberdade de escolha, mas impedir ou atacar a prática alheia configura crime, conforme o Supremo Tribunal Federal (STF).
“No Brasil, isso é crime. O STF já se posicionou: liberdade de crença ou de expressão não pode significar restrição da crença do outro. Então, se eu não gosto da tradição de distribuir doces, eu simplesmente não pego. Isso é preconceito. Mas se eu impeço, persigo ou ataco quem pratica, é discriminação, crime passível de punição, com direito de a vítima registrar ocorrência’” acrescenta.

A intolerância, contudo, não se manifesta apenas em ataques físicos. Na corrida até os doces, as crianças dão de cara com outro empecilho: as disputas simbólicas travadas em outros espaços. É o que explica a professora de Antropologia Joana Bahia, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Rio (Uerj):
“Uma das formas encontradas por algumas igrejas evangélicas para afastar as crianças das ruas e dos doces ligados à tradição popular e afro-brasileira, foi criar alternativas dentro dos próprios templos. Muitas comunidades religiosas passaram a organizar festas infantis, oferecendo atividades e distribuição de doces em seus espaços”.
O preconceito histórico contra práticas de matriz africana, não para na distribuição de saquinhos. Há também manifestações contra o preparo do caruru, a comida ritual dos ibeji. Nesse campo, os doces e alimentos tradicionais são caracterizados como “comida de feitiço” e demonizados.
Em alguns discursos, como os publicados pela Folha Universal e, antes dela, em revistas como a Plenitude nas décadas de 1970 e 1980, contextualiza Joanna, a festa era retratada como um espaço em que ‘demônios se disfarçavam de crianças’ para contaminar outras por meio dos doces, e o simples ato de comer um doce era descrito como demoníaco.
“Ao mesmo tempo, as próprias igrejas criaram substitutos: festas, brincadeiras e distribuição de balas e chocolates nos templos, não para manter a devoção, mas para oferecer uma alternativa que reforçasse a rejeição ao saquinho de Cosme e Damião”.
Doce como resistência
Apesar disso, a prática continua resistindo e encontra fôlego nas filas quilométricas que se organizam nas lojas de doces e artigos de festa. Edilson Gomes, de 30 anos, trabalha como vendedor em Madureira, na Zona Norte do Rio, e acompanha há seis anos o fluxo dessa época do ano. Segundo ele, as lojas começam adquirindo os doces logo após o fim das festividades de São João, em julho.
Nos carrinhos, diversos doces disputam um lugar no saquinho de gulosemas. Os mais desejados, segundo sua experiência de seis anos, é o trio ternura: maria-mole, doce de abóbora e suspiro.
“Muita gente vai encher os saquinhos, escrever os votos pros santos, né? As pessoas costumam comprar bastante. O saquinho vem com 100, mas tem gente que procura 300, 400”, diz o vendedor.

Mesa de produção: distribuição e carinho
Alguns fazem por religião, outros por herança familiar. Há ainda, quem faça por filantropia: o ato de solidariedade. Augusto Vitorio, de 67 anos, operador de máquinas na Cedae, participa da tradição há mais de vinte anos.
“Minha meta é: sempre dou doce todo ano. Apesar de eu frequentar até um centro espírita, os doces que eu dou não têm ligação com religião. É exatamente pelo prazer de dar, pelo prazer de ver aquela bagunça que as crianças fazem”.
Todo dia 26, o carioca se organiza para a preparação dos sacos em casa. Na cozinha, abre os pacotes de doces, separa por tipo e quantidade, e transforma a tarefa em um momento familiar. A mesa comprida é ocupada pela sua mulher, filha, neta e neto. Todos ajudam a encher os saquinhos, com cuidado.
Neste ano, ganhou até folga para concluir a tarefa: “No caso, me escalaram no serviço hoje, aí eu mandei uma mensagem para minha chefinha, que foi super bacana e me liberou para comprar os doces. Aí, o que eu faço? Chegando em casa, arrumo uma mesa bem comprida e boto meu povo para encher os saquinhos”, festeja.

Já a professora Giselle Pertinhes, de 57 anos, observa que a distribuição de doces vai além de uma tradição e está atrelada à atenção e cuidado com crianças que, muitas vezes, estão invisíveis na cidade. Depois das compras em Madureira, na Zona Norte do Rio, a intenção é distribuir cerca de 100 saquinhos.
“A minha relação vem desde pequena, desde a infância, quando meus pais davam doce, e eu fui levando essa tradição adiante e vou levar pro resto da minha vida. Está ligado à minha fé, ao meu sagrado. É uma promessa católica, mas hoje eu sou espírita. Então, acho que consegui comungar tudo na mesma linguagem”, orgulha-se.
Espalhar doçura
Na dimensão religiosa e simbólica, a entrega dos doces tem a ver com o despertar da doçura e da inocência, diretamente ligados à infância. “Quando pensamos na distribuição de doces, isso tem a ver com o propósito de espalhar doçura, despertar sorrisos, fomentar a infância. Quem de nós, ao receber um doce, não abre um sorriso? Para eles, isso representava manter a infância viva, não deixar que essa força fosse esquecida dentro de cada um”, destaca Djagun.
O sincretismo religioso
Na Igreja Católica, o calendário considera o dia 26 como data oficial, mas a tradição começa nove dias antes da data escolhida, explica o pároco Walter Peixoto: “Nós fizemos o novenário, nove dias de oração. Cada dia refletiu sobre um aspecto da vida deles. No dia 26, temos duas missas, às sete da manhã e às sete da noite. No dia 27 também, com fluxo maior de fiéis”, detalha.

A paróquia no Andaraí recebeu este nome em razão das necessidades da comunidade local, afirma Peixoto. Nesta sexta-feira (26), diversos devotos foram até a igreja assistir às missas. Dentro da igreja, há ainda a chamada Sala dos Milagres, onde fiéis deixam objetos como agradecimento pelas graças recebidas.
“Ali temos chapas de metal, roupas, cabeças de cera, tudo como forma de testemunho. Um dos que mais me marca é uma cadeirinha de bebê deixada por uma família que sobreviveu a um acidente de carro. A criança foi jogada para fora do veículo e não sofreu nenhum ferimento. São coisas que a ciência não explica”, conta o padre.
Já na tradição africana, os cultos dedicados aos Ibejis podem começar três dias antes da data oficial, como conta o babálorixá Pedro Henrique de Ayrá:
“Dentro dos cultos de matriz iorubá, a cerimônia é bastante complexa. Ela começa três dias antes do dia da festa aberta ao público, em determinadas etapas. Cada etapa envolve ritualística específica, preceitos diversos e obrigações que precisam ser cumpridas. No dia da festa, quando a casa é aberta, a cerimônia se mantém extensa e detalhada, com todos esses elementos acontecendo de forma coordenada”.
A tradição dos Ibejis no entanto, também enfrenta desafios contemporâneos. “A gente costuma, já há alguns anos, não restringir a festa dos Ibeji apenas ao terreiro. Promovemos atividades que abrem os portões da casa, para que a comunidade do entorno participe: brincadeiras, visitas guiadas, atividades culturais e, claro, a distribuição de doces”, enumera Djagun.
Segundo ele, depois dessa abertura algumas crianças começaram a ser ensinadas ao ódio, e foram sendo transformadas por elas mesmas:
“Ano passado, por exemplo, crianças do entorno que estavam sendo ensinadas a discriminar, promovendo até gestos agressivos em relação ao terreiro, quando tiveram a oportunidade de brincar junto com as crianças da casa e conhecer a dinâmica do que se faz lá, mudaram completamente de comportamento. Isso nos trouxe esperança”.
Marcelo Djagun
No fim da montagem e da produção, lá estão elas. Orgulhosas com suas sacolinhas, as crianças comparam entre si os doces recebidos e renovam, aos poucos, a tradição.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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