A onda de três assassinatos de motoboys em um intervalo de menos de uma semana tem mobilizado a categoria e causado desdobramentos institucionais no Rio de Janeiro. Buzinaços e protestos deram voz aos trabalhadores, que passaram a cobrar as autoridades com atos em frente ao Palácio Guanabara e reuniões com a Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
O fenômeno não é recente. Um levantamento feito pelo Instituto Fogo Cruzado a pedido da Agenda do Poder indica que ao menos 46 motoboys foram assassinados nos últimos dois anos no Rio, uma média de quase dois casos por mês. Ao todo, foram 63 profissionais baleados, já que outros 17 sobreviveram aos ataques.
“Motoboys e entregadores de aplicativo têm sido vítimas da violência armada. A violência faz parte da rotina desses trabalhadores. É difícil sair para trabalhar e não saber se volta para casa porque não há uma política de Segurança Pública adequada. São vidas expostas, que precisam ter uma resposta do Estado, com direito de ir e vir”.
Carlos Nhanga, coordenador-regional do Instituto Fogo Cruzado
A mobilização da categoria e as cobranças da sociedade motivaram uma resposta do próprio secretário da Polícia Civil do Rio. As forças de segurança relacionam os ataques ao mercado clandestino de peças de motos roubadas. A Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos do Rio estima que as motos correspondem à metade dos veículos roubados no Rio.
“Estou falando com você, trabalhador, motoboy, pai de família e filho. Tenha certeza de que vamos nos empenhar para dar combate à altura nas mortes dos motoboys e também no combate à receptação de peças roubadas de motos. Isso não vai ficar impune”, disse o delegado Felipe Curi, em um vídeo nas redes sociais.
Ainda não há identificação de suspeitos de envolvimento nos assassinatos dos três motoboys. Questionada pela Agenda do Poder, a Polícia Civil disse que ainda faz diligências para esclarecer a autoria dos crimes e responsabilizar os seus envolvidos.
Em meio a mortes e escalada da violência urbana, a sociedade busca respostas sobre o que pode ser feito para estancar um cenário de caos. “Estão derramando sangue de trabalhador”, protestou um motoboy anônimo em um vídeo durante um ato nesta quarta-feira (28) em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, com cartazes e dezenas de motos. “Parem de nos matar”, disse outro. “Poderia ter sido eu”, relatou mais um profissional em meio à multidão.

Em um outro vídeo nas redes sociais, um motoboy exibe um projétil de arma de fogo. “Estão nos ameaçando, querendo mandar isso aqui como forma de aviso. Querem nos exterminar, de qualquer maneira”, disse o homem.
“Já não basta a gente estar morrendo em assalto. Já não basta enfrentar sol, chuva e risco de acidente. Mandaram o projétil e falaram: ‘Isso é um aviso. Se voltar, vocês já sabem o que vai acontecer’. A gente está sendo caçado. A vida de motoboy está valendo preço de banana”, completou outro. Em seguida, o motoboy que aparece no começo do vídeo joga o projétil no chão, em um movimento brusco. “Essa p… tem que parar. Nós não vamos morrer valados. Nós vamos lutar até o fim”.
‘Certeza da impunidade’
O deputado estadual Márcio Gualberto (PL), que preside a Comissão de Segurança Pública da Alerj, se posicionou após receber um grupo de motoboys em meio à onda de assassinatos. “É um crime cometido contra a sociedade do Rio de Janeiro”, disse nas suas redes sociais.
O parlamentar revelou, ainda, ter alinhado, em conjunto com a Polícia Militar, a intensificação de fiscalizações e de ações envolvendo o reforço de policiamento para coibir esse tipo de crime. Ele também disse que pretende cobrar o endurecimento de penas. “Concordo que precisamos aumentar o efetivo nos batalhões e nas delegacias. Mas essa ousadia dos criminosos se alimenta da certeza da impunidade. O Congresso Nacional precisa endurecer as leis penais e prisionais existentes. Bandidos considerados de alta periculosidade não podem receber nenhum benefício. Que eles sejam presos e permaneçam presos por um imenso período”, disse.
A cronologia dos crimes

21 de janeiro – O motoboy Marcelo Júlio da Silva, 52, foi morto a tiros por volta das 21h quando finalizava a entrega de uma pizza em um condomínio em Vista Alegre, Zona Norte do Rio. Segundo testemunhas, ele foi morto após ser abordado por homens armados e se recusar a entregar a moto aos criminosos.

Câmeras de segurança registraram o momento em que dois homens armados a bordo de outra moto anunciaram o assalto e, em seguida, atiraram no motoboy, que tentou fugir a pé.
Segundo amigos e parentes, Marcelo estava juntando dinheiro para comprar um táxi e parar de trabalhar como motoboy.
25 de janeiro – Paulo Vitor de Souza Lopes, 22, foi atacado por volta das 21h30 quando chegava para fazer uma entrega de pizza na Avenida Cesário de Melo, em Senador Vasconcelos, Zona Oeste do Rio.

Os bandidos atiraram várias vezes contra o jovem, que estava com uma bolsa térmica de aplicativo de entrega de comida. E, em seguida, fugiram levando a moto. Horas depois, agentes encontraram o veículo abandonado em uma estrada em Campo Grande.
Após a morte dele, centenas de motoboys fizeram um pedindo mais segurança para a categoria. A manifestação teve início na Avenida Senador Vasconcelos, próximo ao local do crime. O corpo do motoboy foi enterrado nesta terça-feira (27) no cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, na Zona Oeste do Rio.

27 de janeiro – Bruno Barbosa dos Santos, 24, foi morto por volta das 21h30 ao ser atingido por um tiro no rosto ao ser abordado por dois criminosos, que roubaram a sua moto em seguida. O crime ocorreu na região central de São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
Em um vídeo de câmera de segurança, é possível ver dois criminosos em uma moto observando a vítima, que seguia no sentido contrário. Em seguida, eles retornam. A abordagem não aparece nas imagens, mas é possível ouvir ao menos nove disparos e o barulho da moto acelerando na fuga.


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