Fernanda Chaves, ex-assessora da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), sobreviveu ao atentado que ela descreve como “o maior crime político desde a redemocratização do país” na noite de 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro. Mas teve a vida transformada pela tragédia. Em entrevista exclusiva ao Agenda do Poder, ela detalhou como foi a saída às pressas do Rio de Janeiro, com deslocamento ao aeroporto sob escolta policial. “Saí sem me despedir e não pude vivenciar a despedida de Marielle”.

Relembrou ainda como foi reviver o trauma ao retornar para a reconstituição do crime, o refúgio fora do país e a relação com a capital fluminense, marcada pelas lembranças do assassinato da mulher que também era madrinha do seu casamento e da sua filha.

Hoje morando em Brasília, Fernanda descarta retornar ao Rio justamente por causa das recordações da tragédia. Mas diz ainda guardar roupas, fotos e presentes de Marielle. “Lembro dela rindo”, diz.

Confira abaixo como foi a conversa com a sobrevivente do atentado que matou Marielle e o motorista Anderson Gomes.

Agenda do Poder – O que aconteceu com a sua vida após ter sobrevivido ao atentado que matou a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes?

Saí do Rio três dias depois. Estava em choque, e precisava sair do olho do furacão. Isso garantiu a preservação da minha saúde mental e da minha segurança. Foi uma redução de danos. Eu temia pela minha família, mas também paguei um preço. Meus pais ficaram preocupados.

Eu praticamente saí sem me despedir. Não pude vivenciar a despedida de Marielle.

Ela era minha amiga, madrinha da minha filha, madrinha do meu casamento. E não pude ir ao enterro, à missa de sétimo dia ou às manifestações em homenagem a ela.

Agenda do Poder – Você se sentiu ameaçada?

Claro! Como eu iria seguir morando no Rio de Janeiro? Como eu poderia seguir frequentando a Câmara dos Vereadores ou a Alerj? Eu não sabia de nada. Só sabia que era um crime político.

As autoridades simplesmente não conseguiam chegar aos mandantes. Nesse cenário, eu não poderia seguir atuando na defesa dos direitos humanos com o mínimo de segurança.

Agenda do Poder – Você precisou sair às pressas e sob forte esquema de segurança, certo?

Fui levada até o aeroporto abaixada em um carro, de boné e cercada por veículos policiais sob escolta, com helicóptero sobrevoando. Minha filha tinha 6 anos e não estava entendendo nada. Mas estava muito assustada.

Quando entramos no avião, ela perguntou: “Mamãe, o que é assassinato?”, atraindo olhares de quem estava lá.

Aí, quase tive uma crise de choro. Mesmo depois de chegar em Brasília, ainda me sentia insegura nas ruas. Andava na calçada e escutava as pessoas falando sobre o assassinato da Marielle. Me sentia muito vulnerável.

Agenda do Poder – Como foi a saída do Rio?

Em um primeiro momento, fui acolhida em Brasília pela Anistia Internacional por dez dias. Depois, concordei em me mudar para Madrid com a minha família. A recomendação extraoficial era para que eu saísse imediatamente do Rio, porque eu poderia ser assassinada.

Mas, dois meses depois, decidi voltar para participar da reconstituição do crime.

Sabendo que não me sentiria segura para retomar a minha vida no Rio em um cenário em que não havia até então avanço nas investigações de um crime político. Depois da reconstituição, fiquei um mês em Roma. Em seguida, aderi ao programa de proteção a defensores e me mudei para Brasília, onde estou até hoje.

Agenda do Poder – Como foi voltar para participar da reconstituição do crime?

Isso tudo começou quando recebi uma ligação, quando estava em Madrid. O Freixo me ligou e disse: “Tem reconstituição, você tem que vir”. E me sentia com essa responsabilidade. Como eu iria negar participar de algo que poderia contribuir para a elucidação do assassinato da Marielle?

Por mais que eu tentasse abstrair, foi uma nova violência ter sido recebida no aeroporto mais uma vez sob escolta policial. Diante desse tipo de estrutura, a sensação é de que eu estava sob risco de ser assassinada.

Não pude avisar a minha mãe que eu estava vindo. Foi um baque violentíssimo reviver aquilo tudo. Os policiais usaram armamento real, metralharam um carro. Contei com a ajuda de um policial psicólogo. Ele percebia os momentos em que eu não estava mais aguentando e interrompia o processo. Quase entrei em pânico em alguns momentos. Então, pensei: como não vi que o carro estava sendo seguido? Mas ao mesmo tempo, entendendo que foi tudo muito rápido.

Agenda do Poder – Qual a responsabilidade do Estado no crime?

Foi um crime contra uma autoridade. A Marielle era uma vereadora, e foi assassinada a poucos metros da sede da Prefeitura do Rio, debaixo de câmeras oficiais, em um Estado que estava sob intervenção federal militarizada.

Foi uma ação planejada por meses, sem qualquer tipo de interceptação do Estado. Foi um crime político, arquitetado por figuras poderosas. Isso tudo é Rio de Janeiro. E estamos falando do atentado de maior impacto político desde a redemocratização.

Ainda assim, as investigações não avançam, promotores desistem. E o caso só começa a ser esclarecido seis anos depois por conta de uma investigação da PF que mostra que parte da própria polícia do Rio de Janeiro estava atrapalhando, porque havia agentes envolvidos no crime.

Marielle Franco | Crédito: Reprodução

Agenda do Poder – Você achou que poderia ser diferente?

Quando cheguei em Madrid, vi as imagens do carro seguindo antes do assassinato e pensei: “A polícia vai esclarecer esse caso”. Eu tinha essa ilusão, essa esperança infantil de que tudo iria ser resolvido rapidamente e de que a justiça seria feita. Eu não conseguia desfazer as minhas malas, porque estava ainda ligada ao Brasil, mesmo à distância. Mas aí aconteceu o contrário e comecei a entrar em depressão.

Agenda do Poder – Como ficou a sua relação com o Rio de Janeiro após o assassinato de Marielle?

Encarar o Rio de Janeiro ainda é duro. Virou um lugar tóxico para mim. Depois da morte da Marielle, eu só fui três ou quatro vezes ao Rio. Em uma delas, fui ao aniversário do assassinato e participei de uma reunião com o governador [Cláudio Castro], em 2022. Mas as outras vezes, foram só encontros de família, em viagens de carro e sem avisar as autoridades, porque me sentiria mais exposta se fizesse esse tipo de comunicado. É uma cidade incrível, mas que hoje me faz mal.

E também não dá para normalizar um lugar onde é preciso olhar em um aplicativo para verificar se não há tiroteio no deslocamento do trabalho para casa.

Uma vez, me perguntaram se eu sabia diferenciar o som do tiro de pistola para o de fuzil. Eu respondi: “Cara, eu vivia no Rio. Eu morava em regiões onde era possível ouvir troca de tiros”. E, com o tempo, você passa a diferenciar o tipo de armamento usado até pela polícia ou pelo crime organizado. Quem mora no Rio está sempre cercado por armas, e isso é inaceitável.

Chiquinho Brazão, Rivaldo Barbosa e Domingos Brazão: presos pela PF acusados de matarem vereadora | Crédito; Reprodução

Agenda do Poder – Você pensa em voltar a morar no Rio?

Muita coisa ainda me faz lembrar da Marielle. Tenho fotos, presentes e roupas. E, quase sempre lembro dela rindo. Mas o Rio de Janeiro e a estrutura falha desse estado de caos me faz lembrar do atentado. E, por isso, não está mais nos meus planos voltar.

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